Policentrismo?

ilustração Cayce Zavaglia

“(…) Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.(…)”

– David Foster Wallace, via
Ricardo Lombardi

Morte?

Instalação subaquática de Jason deCaires Taylor

Agora mesmo, uma morte. E agora, uma outra morte. Foram-se células, mortas. Partiram pensamentos, mortos. E vem aí mais uma, e outra, e eis mais esta morte. Morreu a criança em Tel Aviv. Morreu a liberdade do agressor. Morreu o olhar do fotógrafo. Morreram os peixes no aquário espatifado. Morreu a paciência. Morreu o instante, e mais este. Morreu o parágrafo.

Os mortos morrem tanto quando o parágrafo anterior. Morrem como uma chama de uma vela que se apaga depois de acender outra vela. Feito pétalas da flor que se integram ao substrato onde brotam as roseiras. Morrem como o sol parece morrer durante a noite, se não fossem os ventos, se não fosse a lua cheia, se não fosse o calor na alta madrugada.

Morrer é seguir. Morrer é ir além. Morrer é abandonar a velha casa, o útero, a crisálida, o ovo. Morrer é cruzar as fronteiras de um estado e se dar ao novo, talvez de novo, renovo. Morrer para se perpetuar como vida. Morrer para dar passagem. Ser passagem. Colapsar a fração, a gota diminuta no oceano. E evaporar, e se fazer onda, e virar piscina natural. Água reciclada.

Morre o velho. Morre o novo. Morre a morte. Esvaziam-se os conceitos. Iluminam-se os medos, as angústias, os apegos, as visões. Transformam-se. Formas nunca antes vistas. Criatividade automanifestada, autoapaixonada. Devir radiante: avança sobre si mesmo. Devora-se para dar à luz a sombra que se iluminará.

Para morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer. E morrer…

 Até que se morra… de girar.