Som? Testando som! Som! Ah!

Pedro + Walk&Talk

Um instante, mocinha!  Um momentinho. Não é mole não, boy! Nada mole. Um instante basta, fi. Está justificado. Em um momento está decidido. Calma, mãezinha. Alto, paizinho. Ôô!

Ó!

Não é mole atender todos os dias. Não é mole ser presidente da república. Nada mole governar. Não é mole não, o carnaval do Brasil. Acordar todo dia, todo santo dia, é mole? Ficar passado com a indiferença. Ter que pagar a injustiça. Morrer o que se ama. Não é moleza, chuchu. Todo mundo chora e geme. Há quem ranja! Mas há quem não dê a mínima. E há ainda quem esteja em outra, e mais outra. Há! Nada fácil. Reconhecer o erro, considerar a parcialidade. Aprender a sair do meio. Largar o osso. Nops, nadinha mole.

Depois, aquilo que é mole para o papa não é mole para o bispo. Na própria igreja. No mesmo lar. Em casa, em família, com os amigos, íntimos. Ah, por favor, tio! Encontrar-se no meio de tantas vozes. Quais estão certas, quais também? Oh ni! O que fazer, e como? E quando? Quanto é o bastante? Busca consenso? Sorria, você está sendo filmado/a/…!

Do outro lado do mundo vêm as bocas desta plantação. Em um instante desdobra-se a parafernália do mundo, diretamente da gôndola. Não é mole se encontrar no acidente do outro. Que outro?

Vamos listar alguns nomes.

A quem servem os nomes e as coisas? A ordem? Ao progresso? O nome das coisas. Nomenclatura e vocabulário dos apontamentos. Das luas. Das qualidades. O nome das definições! Cavalinhos, humanos, bordas.

Truta, nunca houve um russo igual ao outro! Nem os gêmeos, nem eles concordam em tudo! Irmãozinhos siameses, quantos desentendimentos! Quanta confusão, Hidra de Lerna! Ou seria Hidra de Metas? Não, claro que não! Ou talvez, talvez? Não, não! Ora, por favor! A concórdia é um avião aposentado.

Madama, o que se chama é o indivíduo. É você, bebê. Não é mole ser uma pessoa no meio de tantas pessoas ou coisas. É de uma solidão, queridinha! É de uma fragilidade que só a religião da onipotência, major! Se não, ateus! E olhe!

É, não é mole não, compa!  Ou talvez seja! Mole como concreto líquido!

Polinização cruzada?

colagem Philipp Igumnov

“Agora sabemos o suficiente para saber que nunca saberemos tudo. É por isso que precisamos de arte: ela nos ensina como viver com o mistério. Somente o artista pode explorar o inefável sem nos oferecer uma resposta, pois algumas vezes não há resposta. John Keats chamou a esse impulso romântico de ‘capacidade negativa.’ Ele disse que certos poetas, como Shakespeare, tinham ‘a habilidade de permanecer nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem qualquer busca inflamada pelo fato e pela razão.’ Keats percebeu que só porque algo não pode ser solucionado, ou reduzido em leis da física, isso não significa que não seja real. Quando nos aventuramos para além da fronteira de nosso conhecimento, tudo o que temos é a arte.

Mas antes que possamos chegar a uma quarta cultura, nossas duas culturas existentes precisam modificar seus hábitos. Primeiramente, as humanidades devem sinceramente se engajar com as ciências. Henry James definia o escritor como alguém para o qual nada se perde; os artistas devem considerar seu chamado e não ignorar as inspiradoras descrições científicas da realidade. Todo humanista deveria ler Nature.

Ao mesmo tempo, as ciências devem reconhecer que suas verdades não são as únicas verdades. Nenhum conhecimento tem monopólio sobre o conhecimento. Essa simples ideia será a premissa inicial para qualquer quarta cultura. Como Karl Popper, um eminente defensor da ciência, escreveu: ‘É imperativo que desistamos da ideia de fontes últimas de conhecimento, e admitamos que todo conhecimento é humano; que ele está misturado com nossos erros, com nossos preconceitos, com nossos sonhos, e com nossas esperanças; que tudo o que podemos fazeré tentar a verdade mesmo que esteja além de nosso alcance. Não existe nenhuma autoridade além da busca pelo senso crítico.”

– Jonah Lehrer, em
Proust Was a Neuroscientist

Nossos filhos?

foto Ana C. Barcalla

Aqueles de vocês que já tiveram filhos sabem. Se já tiveram a fortuna de cuidar de filhotes sabem: eles não são nossos. Eles não respondem ao nosso comando sempre que desejamos. Eles crescem e se tornam… eles, elas, it.

Nós que somos mães sabemos bem. Nossos filhos não são nossos. Falamos a eles e somente uma parte de nossos ‘ensinamentos’ permanece com eles. A outra parte sai pelo ouvido – sem ser integrada – do mesmo modo que adentrou.

Nós que somos pais sabemos. Nossos filhos são surpreendentes. Frustram frequentemente nossas expectativas. Fazem o contrário. Dão com o que consideramos errado. Bolam problemas. Aparecem como desafios.

Nossos filhos não são nossos. E apesar de nós, morderão as pernas de nossos amigos. E dirão o que não pode ser dito. E latirão no alto da madrugada! Elas andarão por si mesmas, deixando-nos a ver navios. E talvez tenhamos que invocar: “Não enquanto estiver sob o meu teto!”.

E essa invocação não será necessariamente porque somos egoístas, e o teto é só nosso. Não. Invocaremos essa frase por desespero, porque amamos e nunca nosso teto estará indisponível para eles ou elas. E por que estaríamos desesperados ao ponto de invocar um tal argumento?

Porque temos a memória e a experiência que nossos filhotes não têm [no tocante a esse X assunto]. Sabemos da invisibilidade da letal eletricidade. Temos a vivência da humanidade que a ingenuidade desconhece ou desconsidera. Por amor, iremos invocar a mais irada das máscaras.

De modo geral, todos nós temos alguém em alta conta. Essa capacidade de valorização é familiar, e frequentemente se manifesta através de nossas mães, pais, filhotes, amigos…

O que não aprendemos na escola é que essa capacidade é plástica. Até recentemente acreditávamos que o cérebro era imutável. Hoje em dia sabemos que o cérebro é dotado de uma qualidade chamada de neuroplasticidade.

O mesmo pode ocorrer com a atenção, apesar da grande maioria de nossos professores nunca ter citado que nossa atenção pode ser treinada para se reprogramar, do mesmo modo que os halterofilistas fazem com os músculos.

Se nossa atenção pudesse penetrar as aparências, o que seria visto? Nossos filhos seriam vistos tais quais são? Haveria abertura para recepcionar as insistentes dissonâncias que emergem como dificuldades no decorrer não de nossas vidas, mas de um simples dia?

Poderíamos lidar melhor com o fato de que nos carregamos e a todas as nossas expectativas de sucesso e aceitação? Talvez pudéssemos ter uma mente espaçosa o suficiente para sorrir para a claustrofobia…

Mas não sabemos. Porque nossos filhos são nossos. Assim como somos nós de nós mesmos. E tudo parece ser de algum modo nosso. A cozinha, nossa. Nossos filhos, nossos. A dor, nossa. Quem somos, nosso. Nossa história, nossas ideologias, nós, tudo nós, tudo nosso, a partir da fração.

Tanta insegurança só pode temer a dissonância, a ocorrência do inesperado e, por fim, a morte e a dor: da perda; da transformação de nossas ideologias e pesadelos em realidade. E daí manter ou lutar, assegurar ou evitar, ou simplesmente dar-se conta da insatisfação de comer doze potes de Nutellla.

Nossos filhos não são nossos. Eles crescerão e assumirão a experiência de ser quem são. Assim como nós, apesar das melhores aspirações de nossos pais, amigos e augustos protetores. De certa forma, ser é uma tremenda maldição.

Somos, e daí haverá espaço para a criatividade? Ser, e haverá espaço para a impermanência? Ou estaremos crédulos de que somos o que somos, projetos acabados? E assim até a morte?

Um pouco de atenção para penetrar a pele, os títulos, as categorias e as intenções. Um pouco de atenção para liberar a função pela qual fazemos o que fazemos. Um pouco de atenção para ver nossos filhos pelo que são. E ir além; e voltar, talvez sem nunca ter ido…

Que as crianças possam criar. Que suas espantosas criações assombrem nossos apegos a modelos acabados. Que elas nos liberem de nosso totalitarismo. Que elas despertem em nós lágrimas e sorrisos oceânicos.

Potências emergentes

linha Kenny Sperling

Fala-se de onipotência, mas nem todo mundo se importa com uma potência absoluta. Alguns relativistas certamente podem apreciar a onipotência como uma ilusão. Contudo, potências e potencialidades parecem previstas na experiência humana, como através do instinto de aprendizado, ou por meio do corpo.

A experiência humana apresenta um aparente desdobramento, desenvolvimento ou manifestação de potencialidades. A educação e as escolas concretizam a percepção de que estamos em processo, ou construção ou até impermanência.

A concepção da ideia de potencialidade permite uma multitude de possiblidades, estações e frequências, bem como desafios ao fatalismo e ao sentimento de impotência.

Como seria possivel dissociar a ideia, sensação ou vontade de onipotência do sentimento de impotência? A experiência humana parece marcada por uma discreta sensação ou percepção de impotência.

Faria qualquer sentido falar de onipotência ou potencialidade sem recorrer quase inteiramente ao contexto de impotências e obstáculos presentes na experiência humana?

Ainda assim, a experiência humana é uma de criatividade e reconhecimento de potencialidades capazes de ultrapassar impotências e obstáculos.

Essa potencialidade teria levado os homens até a cultura e então para as cidades e o vapor e toda a atual megamachine, além de disciplinas como a medicina e a educação física.

Transformar uma realidade de impotência num cenário de possibilidades é uma das qualidades do pensamento potencial, com efeitos de inovação e diversificação de vias.

A sensível tensão da experiência humana pode ser invocada pela percepção de impermanência, ou destruição criativa, que toca o que é tecido por homens e mulheres.

Essa tensão, qasi-onipresente em cidades e vilarejos humanos, pode ser encontrada na singular dificuldade que a potencialidade apresenta quando faz caducar e dissolver ordens.

O inesperado e a ruptura habitam o corpo da potência. Não é improvável uma descontinuidade de ordens humanas, como sugere a presença da vontade de longevidade e o mercado da insegurança.

Ali, com a onipotência, está o medo, demasiado urbano, da perda. Naturalmente, as crescentes situações humanas movimentam um mercado de seguros e resseguros.

Não poderia ser diferente, a experiência humana é uma de refazenda. Não o melhor dos cenários para mentalidades dogmáticas e totalitaristas.

Imã?

Por que alguém incendiaria propositalmente o último quarteirão de mata nativa e frutífera do bairro? Especulamos: motivações…

Podemos atribuir culpa. Podemos culpar a gestão da Prefeitura de Natal. Podemos responsabilizar o, ahn,  incendiário?. Podemos acusar a omissão dos habitantes do bairro.

Podemos acusar a nós mesmos. Pensamos: não fazemos o bastante, precisamos ser mais conscientes e atentos.

Finalmente, podemos tentar compreender e analisar todos os cenários acessíveis e até mesmo investigar alguns cenários criativos. Ver com os olhos do outro, e calçar seus sapatos.

Conflitos e pazes sociais são alimentados por visões contrastantes, incluindo interesses e valores. Do mesmo modo, tais visões alimentam conflito e paz nos sujeitos.

Sofre-se por utopia, mata-se por ideia, guerreia-se por crença. Isso significa que certas utopias podem ser reconfortantes, do mesmo modo como certas ideias dão luz à vida, ou que certas crenças têm qualidades

Mais significa melhor? Vide: totalitarismo.

Poderia ser total uma visão baseada em cartas de crédito e preferências? Visões, ao que servem, do que são feitas: Anotar padrões e condições de existência das visões.

Não basta ter olhoz, é o que se diz ter olhos para ver.