Banksy e os publicitários

arte Banksy

É um mau sinal que os publicitários gostem de se conceder prêmios por sua ‘genialidade’ quando participam de um contexto que levou ao ápice o culto narcisista ao gênio individual? Não há nada de espantoso na autocongratulação publicitária.

Os profissionais da publicidade estão a serviço de muitos mestres, começando por seus próprios egos, passando por causas, ideologias e deleites estéticos. Singelos, beijam as mãos daqueles que puderem pagar mais por seus préstimos, como é comum a partida dos jogadores capitalistas.

Porque os publicitários, com todas as suas técnicas e pesquisas de comportamentos inspiradas pelo racionalismo, são uma invenção do capitalismo. A afirmação de que a publicidade sempre existiu, quando muito, pode ser considerada um auto-laudatório chiste.  Os meios publicitários e sua inclusão na disciplina de marketing são, sobretudo, uma invenção moderna. Previsivelmente, em sua busca por reflexos pavlovianos, as mensagens publicitárias estão focadas no indivíduo e na realização de uma felicidade objetiva e imediata, inspirada no hedonismo e possessividade.

Os publicitários são como grampos e alfinetes de uma maquinaria que está a serviço de valores específicos, entre os quais a sugestão de que o contentamento é impossível. Toda a parafernália publicitária de variações sobre o mesmo tema trabalha quase que exclusivamente sob a égide de valores inspirados num faminto consumismo de objetos descartáveis, relacionado a fenômenos como a pedagogia da distração, economia do antagonismo (e da escassez) e, evidentemente, controle social.

Cada vez mais são conhecidos os efeitos do modelo econômico subsidiado pelo mainstream pubicitário. No campo biológico, o esgarçamento e falência dos sistemas de suporte vital, com as decorrentes catástrofes sócio-ambientais que pipocam no noticiário, como Gremlins na chuva, quando não ao nosso lado. No campo social, uma ideologia de hipercompetição inspirada na maximização de vantagens individuais sob pena de ser devorado por outros tubarões de aquário. No campo psicológico, um impreenchível vazio, assolador e desconcertante, cujas drogas – legais e ilegais – não são capazes de satisfazer. No campo político, Estados reduzidos a vassalos de interesses corporativos cuja sobrevivência a qualquer custo é a teologia dominante.

Um crescente coro de questionamentos e insurgências avolume-se diante desse cenário, cuja promoção, em parte, deve-se aos artifícios dos publicitários. Há pouco, Banksy divulgou um breve manifesto onde escancara sua frustração.

Os publicitários, ele diz, “lançam comentários frívolos de ônibus implicando que tu não és sexy o bastante e que toda a diversão está acontecendo em outro lugar. Estão na TV fazendo tua namorada se sentir inadequada. Têm acesso as tecnologias mais sofisticadas que o mundo jamais viu e eles te intimidam com ela.” E ajunta: “À merda com isso. Qualquer anúncio em um espaço público que não te deixa escolha, tu tenha-o visto ou não, é teu. É teu para tomar, modificar e reusar. Tu podes fazer o que quiser com ele. Pedir permissão é como pedir que mantenha a pedra alguém que acabou de jogá-la na sua cabeça.”

Os publicitários são conhecidos por se apropriar de movimentos estéticos em sua severa fome por referências. Recentemente, buscaram refrescar sua linguagem utilizando a arte de rua como ornamento para seus sortilégios. Agora encontram um dos mais legendários representantes dessa forma contracultural de expressão diante deles, com uma lata de spray na mão e um rosto que não pode ser capitalizado.

co[R]pos

Um evento pensando a sustentabilidade e copos de plástico. Uma fagulha de ludicidez e, voilá!: co[R]pos.

via Pescandoluzes

“De onde saíram os co[R]pos?”, perguntei ao Zeca, um dos artífices da intervenção.

E o Zeca respondeu assim:

“Impressionante como nossos discursos estão, muitas vezes, dis-conexos de nossas atitudes e comportamentos. Sejam o cotidiano ou os fenômenos extraordinários da vida, há momentos que a relação fica frouxa.

Fiquei feliz com o discurso de sustentabilidade das pessoas que compunham aquele encontro de massa cinzenta brasileira, mas indignado porque o ser-sustentável ficou no papel, na boca, e todos puderam lançar (a) mão de um simples compromisso de consciência e implicações futuras, e jogar os copos descartáveis fora, lembrando que este é o destino dos co[R]pos (ciclos).

O que me preocupou de verdade não foram os copos. Os copos eram apenas um trampolim para apertar o nó em outra parte da rede. O peixe que eu queria pegar era outro. A relação fácil, de pegar o copo e largar rapidamente, a fugacidade nessa relação foi o que me chamou a atenção. A relação nós (interpessoais), e de nós com o ambiente está passando por um período bem complicado.

Depois que o copo é jogado fora, ele é literalmente esquecido. Não! Ele não existe mais, já não preciso mais dele em nossa existência. Isso é o que me preocupa, pois o corpo-nós-copo depois do uso, nunca aconteceu. E só existe copo porque algum corpo vai beber água.

Então, precisamos de cuidados nas nossas relações, é a isso que refiro. Somos energia ressonante que envia e recebe vibrações de rádio, pois “é só uma cabeça equilibrada em cima de um corpo, procurando antenar boas vibrações…”. Qualquer dos seres que somos por momentos (copos ou corpos) estão antenados espiritual, molecular e energeticamente com o nós a existir, numa ressonância que re-conecta.

E por empatia natural somos atraídos para o núcleo do nós.

Dois em um, dois-um, zero.”

Volte-se?

Essa história começa com um encontro de cem monarcas. Cada um deles havia conseguido criar e manter as condições para a vitalidade de seus reinos, cujos habitantes eram prósperos e felizes.

Durante o reencontro usaram de sua clarividência para ver além do alcance de seus reinos e conferiram que seus mundos mais pareciam ilhas de bem-aventurança num oceano de miséria.

Visionários, previram que era uma questão de tempo até que os habitantes de seus reinos fossem afetados por um tal estado de iniquidade.

A história prossegue contando como esses monarcas manifestaram uma panacéia de soluções temporárias e últimas, acessíveis a todos os seres.

Qual critério poderia ter sido utilizado por eles para alentar a ideia de que os habitantes de seus reinos estavam sob ameaça?

“Nenhum homem é uma ilha”, ouvimos dizer. Um homem não nasce do nada. Ele é um todo-parte. Ele nasce de uma mulher e depende dos minerais, vegetais e animais para sobreviver. Ele depende do sol.

Um homem depende da cultura e de todas as histórias e legados disponibilizados para ele por todos os ancestrais. Ele depende do corpo e do coração. Ele depende da educação, e até de salários. E de mais?

O critério da interdependência básica que parece irmanar todos os seres e fenômenos pode ter sido utilizado pelos cem monarcas para antever que suas ilhas não eram imunes ao movimento oceânico.

Acompanhamos uma crescente insatisfação com os modelos político-econômicos hegemônicos em países como Síria, Egito, Chile, Espanha, Grécia e Inglaterra. Quem são os insatisfeitos?

Os insatisfeitos são aqueles que têm fome. Do que têm fome? De valores, de comida, de dignidade, de espaço, de direitos, de cultivo, de trabalho, de liberdade, de sentido…

 Žižek observa que vivemos em uma sociedade que reforça o ideal da liberdade de escolha, mas que, na prática, apresenta apenas duas opções: viver segundo as regras ou a violência.

Todos nós temos uma dignidade, isto é, uma vontade de ser. A publicidade abusa desse direcionamento. Percebemos que todas as propagandas atuais têm um alvo: você.

Confundimo-nos uns aos outros com nossas ideias de que a afluência de prazeres sensoriais (incluindo pensamentos) pode realmente nos elevar da miséria. Contudo, quanto mais temos, mais carentes somos.

Com Marx sabemos o papel estruturante da materialidade. A fome de um faminto não é de abstração intelectual. Com Maslow aprendemos que as necessidades sociais e fisiológicas interdependem.

O desejo quer ser saciado, mas sua fome não tem fim. Num planeta com recursos finitos, uma sociedade baseada numa economia de infinita geração de desejos ruirá.

Os atuais levantes populares são a ponta de um iceberg. Eles são baseados em um crescente descontentamento com a iniquidade e a opressão. Contudo, os revoltosos irão substituir uma ditadura por outra?

Há muito se sabe que tomar o poder pela força e pelo número é quase sempre a parte mais fácil. O mais difícil tem sido pensar governos plurais e sustentáveis, transparentes e não-violentos.

Como lembra marimessias, “talvez as grandes revoluções, que acabam sendo a imposição de uns sobre outros (…) estejam perdendo espaço.” O que fazer quando nossas vacas sagradas caducam?

Os seres humanos se gabam de ser inventivos. Que urgente tempo favorável o momento presente para demonstrar isso.