Formosuras?

“Os verdadeiros problemas muitas vezes se expressam por meio de paradoxos, e é impossível  resolvê-los. Deve-se encontrar um equilíbrio entre aquilo que tenta ser puro e aquilo que se torna puro através de sua relação com o impuro. Assim, pode-se constatar até que ponto é inviável a existência (…) que teima em permanecer à margem da rude textura do mundo.

… Toda forma, uma vez criada já está moribunda. (…) Uma forma magnífica não é necessariamente o veículo apropriado para transmitir uma experiência de vida quando o contexto histórico se modifica.

Em termos gerais, podemos concluir que a tradição, no sentido que damos à palavra, significa “imutabilidade”. É uma forma imutável, mais ou menos obsoleta, reproduzida por automatismo. Existem raras exceções, como no caso em que a qualidade da antiga forma é tão extraordinária que ainda hoje preserva sua vitalidade, como certas pessoas muito velhas que permanecem incrivelmente vivas e comoventes. No entanto, toda forma é mortal. Não há forma, inclusive a nossa, que não esteja sujeita à lei fundamental do universo: a lei do desaparecimento. Toda religião, todo conhecimento, toda tradição, toda sabedoria supõem nascimento e morte.

Nascimento é assumir uma forma, quer se trate de um ser humano ou de uma frase, palavra ou gesto. (…) Todos têm seus ciclos, e o mesmo ocorre com as ideias e com as memórias.

(…) Chegamos assim ao âmago da questão: na vida, nada existe sem forma. A todo instante, especialmente quando falamos, somos forçados a procurar a forma. Mas devemos ter em mente que essa forma pode ser um obstáculo total à vida, que não tem forma em si mesma. (…) A forma é necessária, porém não é tudo.”

— Peter Brook, em
A Porta Aberta

Ponto cego?

Viver dói. O risco de extinção é comum a todos. Mesmo fatos auspiciosos podem ser como cercos. As pessoas, por exemplo. Tipo, hoje em dia.

O que as pessoas chamam de felicidade são meros intervalos. O que há entre os intervalos? Dor. Por assim dizer, “na luta”.

As pessoas lutam para manter sua dignidade. Lutam para manter seus gostos. Lutam para saldar suas dívidas. Lutam para se divertir. Lutam para pensar. Lutam para morar. Lutam para relaxar.

Viver dói. As maiores indústrias, todas prometem alguma forma de alívio: Anestésicos, sadomasoquistas, produtos orgânicos, biotecnologias, devoções, governos.

As pessoas se embruxam por qualquer coisa. Elas se fingem de machucadas. Manipulam a atenção alheia. Fazem-se de desentendidas. Levam vantagem. Falam astuciosamente.

O alheio pressupõe o familiar. O conhecimento das pessoas reflete seletividade. Quer ver? Conte os diferentes estados de consciência e as inteligências. Some ao número de emoções.

Não confunda ideologia por ontologia. Um erro clássico é atribuir verdade absoluta ao que é uma preferência. Faculdade das pessoas: embarcar em suas próprias fantasias.

O intervalo entre o berço e o túmulo demarca o sobreviver e o procriar. Vê-se isso: na “luta” cotidiana das pessoas; na tradicionalidade de suas instituições.

O bebê humano aprende a enganar antes mesmo de falar. Para satisfazer os próprios desejos, afirma sua vontade, atrai a atenção e manipula reações.

Vamos do exagero à manobra divisionária, indo pela meia-verdade, omissão sutil e distorção. “Quantas intenções viciosas há (…) numa frase inocente e pura!”

As pessoas alucinam. Elas veem coisas onde não há coisas. Elas se desmentem. Sonham acordadas, maquinando fabulações, cárceres do envisionar.

A tragédia da confiança sincera tem exemplos de grandes proporções, dentro e fora de casa.

Raias?

“Para compreender melhor as progressivas diferenças entre a ciência e a religião tudo o que alguém tem a fazer é ponderar quão frequentemente um livro sagrado muda com o tempo e compará-lo com a frequência com a qual um livro de química ou biologia é alterado ou modificado. Enquanto o primeiro pode mudar bem pouco, se muito, durante um posto período de tempo (por exemplo, o Corão, o Novo Testamento, o Gugu Granth Sahib), os últimos estão sob imensa pressão (de um conjunto de novas investigações e descobertas) para atualizar seus dados e descobertas ano a ano, se não mês a mês. Possivelmente, os reluzentes contrastes entre a religião e a ciência podem ser resumidos ao se olhar quanto cada uma delas admite estar errada e quão transparentes são em divulgar tais admissões, particularmente em relação a doutrinas centrais e teorias.

(…) A mais fundamental das observações pelas quais a ciência está constantemente nos lembrando é que o que pensamos é verdade pode não ser; daí convidar outras mentes a participar e co-verificar o que observamos pode conduzir a toda sorte de resultados imprevisíveis, desde a descoberta de novos planetas a novas medicinas. Mas a fim de permitir um entendimento participatório do universo (e não meramente nossa versão solipsista dele) somos solicitados àquela mais radical das coisas: devemos desejar confessar nossa própria ignorância e ansiar seguir as linhas de evidência para onde elas nos levam, mesmo que na jornada aconteça de inverterem nossas adoráveis ideias prévias ou verdades.

Como Richard Feynman, um dos arquitetos-chefe por trás da Eletrodinâmica Quântica, uma vez iluminou:

‘É na admissão de ignorância e na admissão de incerteza que se encontra a esperança de moto-contínuo dos seres humanos em alguma direção que não se confina, permanentemente bloqueada, como tantas vezes aconteceu em vários períodos da história do homem.'”

– David Christopher Lane, em
Gumby Land

Religião, um gene?

Crédito imagem: Kecko

“Religiões são máquinas para manufaturar solidariedade social”, diz Nicholas Wade, autor do livro “The Faith Instinct”, não publicado no Brasil. As religiões nos reuniriam, expandindo as fronteiras da solidariedade do espaço familiar para incluir pessoas com quem não temos parentesco ou relação. Para Wade, criaturas religiosas transformaram-se em criaturas sociais, não o contrário. Ou, como escreve Judith Shulevitz, em terminologia Darwinista: “… seres desejando viver e morrer por seus correligionários deram aos nossos ancestrais uma vantagem na luta por recursos”. “The Faith Instinct” utiliza a lógica evolucionária na tentativa de compreender a instituição religiosa, aplicando Darwin ao problema muito humano da co-existência.

Wade sustenta que a seleção natural aplica-se não apenas em indivíduos, mas também em grupos. A religião não seria um subproduto de cérebros hiperativos necessitados de atribuir sentido e intenção a um mundo aleatório. A religião seria um gene bem sucedido, uma saga biológica pela sobrevivência, na qual indivíduos tornam-se correligionários dispostos a ignorar o interesse próprio em curto prazo e a agir em favor do todo. O papel dos deuses seria então o de reforçar qualidades de apoio ao interesse coletivo: lealdade, desapego e conscienciosidade. Seres sobre-humanos causariam calafrios em trapaceadores e mercenários, além de, quando apropriado, validar ações de guerra.

Em sua revisão da história da religião, as diferentes instituições e tradições religiosas seriam respostas à vontade de sobrevivência. Indivíduos, através da diferenciação e especialização, poderiam se sair melhor em um ambiente competitivo. Puro Darwin. Buscando contra-argumentar os “novos ateístas” Richard Dawkins, Daniel Dennett e Christopher Hitchens, Wade afirma que a disposição religiosa é capaz de reforçar a unidade social e nacional, gerenciar recursos escassos e até mesmo responder à terrível questão de como fazer os jovens morrerem pelo bem maior quando se faz necessário. Todavia, reconhece que essa mesma disposição religiosa já foi utilizada para engendrar genocídios, suicídio em massa e cultos destrutivos.  A inferência lógica é que, de acordo com o ponto de vista de Wade, as religiões individualmente podem ser comparadas e ranqueadas e até mesmo aprovadas ou reprovadas, já que a religião pode ser vista como boa apenas enquanto for útil no processo evolutivo.

O problema com esse ponto de vista, diz Shulevitz, não é a leitura genética da religião. Mais precisamente, o problema que aponta na perspectiva de Wade é a ausência de uma visão compreensiva e consequente da religião; uma que considere, por exemplo, os avanços da neurobiologia ou as questões filosóficas que explicam o que faz de alguns seres, humanos.

A mulher, Maomé e a lua

Maomé, fundador do Islã, nasceu em Meca, em 570. Quando jovem, perdeu o pai e a mãe. Os árabes, por serem marinheiros do deserto, às vezes enviavam suas crianças ou jovens como aprendizes com as caravanas de camelos que mantinham comércio em cidades distantes, e Maomé partiu em uma dessas caravanas. À noite, o menino órfão aprendeu a identificar muitas das estrelas do brilhante céu noturno e a saber a hora em que a Lua apareceria acima da linha do deserto: a Lua veio a ser o símbolo de sua fé.

Maomé era extremamente inteligente e impressionou sua rica empregadora, uma viúva. Eles se casaram quando ela estava com 40 anos e ele, com 25. Ela lhe deu dois filhos, que morreram ainda crianças, e quatro filhas. É curioso observar que o fundador de uma religião hoje reconhecida pela sujeição de mulheres deva tanto a uma mulher. Maomé provavelmente não poderia ter lançado uma nova religião se não fosse o apoio financeiro da esposa, numa época em que ele era atacado por oponentes.”

Dois parágrafos de Geoffrey Blainey, em “Uma breve história do mundo”.

via Revista Zé Pereira

Inter-religiosos encontram-se hoje

Outra edição dos Diálogos Criativos acontece hoje, às 19h, no auditório da Livraria Siciliano, no terceiro piso do shopping Midway Mall. O encontro desta noite discutirá a necessidade de um diálogo criativo entre as principais tradições espirituais da humanidade.

“Nesta época de fundamentalismos e intolerâncias”, diz Antonino Condorelli, “promover um diálogo construtivo entre as principais tradições espirituais é um dos principais desafios”. Idealizador dos Diálogos Criativos, Condorelli acredita que esse diálogo pode ocorrer a partir “do reconhecimento [por parte das tradições] da sua mesma natureza de caminhos de re-ligação do ser humano com a totalidade da vida e [através] dos seus princípios éticos comuns”.

A edição de hoje, chamada “Diálogo inter-religioso: um desafio para o século XXI”, contará com facilitadores representantes de diferentes tradições espirituais presentes no Rio Grande do Norte. Todos integram o pioneiro Fórum Potiguar de Diálogo Inter-Religioso e representam as seguintes tradições: Cristianismo Espírita, Budismo Tibetano, Islamismo, Cristianismo Católico, Cristianismo Anglicano e Budismo Zen.

O encontro é aberto. As inscrições podem ser feitas com R$ 10,00 ou 1 quilo de alimento não perecível. Estudantes com carteira têm 50% de desconto. Grupos de três pessoas pagarão o valor de 2 inscrições. Finalmente, ninguém será impedido de participar do encontro por falta de condições financeiras. Pessoas nessa situação devem contactar Condorelli pelo email: dialogoscriativos@yahoo.com.br

Diálogos Criativos: “Diálogo inter-religioso: um desafio para o século XXI”

Quando: Hoje, 16/12/09 – 19h às 22h
Onde: Livraria Siciliano, Shopping Midway Mall

Compaixão é fortaleza

Karen Armstrong é uma historiadora das religiões. Seu livro “A Grande Transformação” é um documento de fôlego. Nele, Karen tenta explicar o fenômeno da religião no mundo moderno a partir do que o filósofo alemão Karl Jaspers chamou de Era Axial, um período histórico, entre os anos 900 e 200 a.C., em que surgiram as quatro grandes tradições religiosas fundamentais ao desenvolvimento espiritual da humanidade: confucionismo e taoísmo, na China; hinduísmo e budismo, na Índia; monoteísmo, em Israel; e racionalismo filosófico, na Grécia.

Em sua pesquisa, Karen percebeu que cada uma dessas tradições desenvolveu sua versão daquilo que chama de Regra de Ouro. “Olhe para teu próprio coração”, diz Karen, “e descubra o que é que te causa dor. Então recuse, sob qualquer circustância, causar tal dor a qualquer outra pessoa”.  Karen enfatiza a importância da compaixão, pois vê a centralidade desta qualidade nas tradições que pesquisou.

Abaixo, duas notáveis palestras de Armstrong no TED, ambas com legenda em português (no vídeo, clique em View Subtitles). Primeiro, uma exposição sobre os significados da palavra crença, sobre  o papel da atitude e acerca da centralidade da compaixão para a qualidade de vida.

A seguir, uma palestra sobre a funcionalidade e efeitos da compaixão. Karen reporta como a vontade de ter razão pode eclipsar a compaixão, e conclama pelo resgate desta qualidade e por seu reestabelecimento como prática norteadora fundamental da religião.