Plutopatia?

Anja Stiegler

“Há mudanças em outras esferas que também devemos esperar. Quando a acumulação de riqueza deixar de ser de alta importância social, haverá grandes mudanças no código ético. Deveremos ser capazes de nos livrar de muitos princípios pseudo-éticos que nos têm atormentado nos últimos duzentos anos, e pelos quais temos exaltado algumas das qualidades humanas mais ofensivas ao posto de mais altas virtudes. Deveremos ser capazes de nos desafiar a valorizar o tema do dinheiro por seu verdadeiro valor. O amor pelo dinheiro como uma possessão — distintamente do amor pelo dinheiro como um meio para os deleites e realidades da vida — será reconhecido pelo que é, um tipo repugnante de morbidez, uma daquelas propensões semicriminais, semipatológicas que alguém entrega com frisson aos especialistas em doenças mentais. Todos os tipos de costumes sociais e práticas econômicas, afetando a distribuição de riqueza e ainda prêmios e penalidades econômicas, que agora mantemos a todo custo, repulsivas e injustas como podem ser, porque são tremendamente úteis na promoção da acumulação de capital, ao final, deveremos ser capazes de ser livres para descartá-las.”

– John Maynard Keynes, em
Economic Possibilities for Our Grandchildren

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Crescimento infinito?

foto christoph gielen

Durante condições oceânicas desafiadoras, certas águas-vivas “decrescem”. Elas não apenas perdem peso ou emagrecem; elas realmente perdem células e simplificam estruturas. Quando o tempo melhora, elas recrescem. Porque elas adicionam novas células e recrescem estruturas (não apenas engordando), elas de fato tornam-se rejuvenescidas – mais novas do que eram no princípio. Na outra ponta da escala, Edward Abbey há muito observou que o crescimento pelo bem do crescimento é a estratégia do câncer. Sabendo o que agora sabemos, parece que o mundo não pode produzir o bastante para crescer nossa saída da pobreza. Mas poderíamos certamente encolher para sair dela.

– Cal Safina, em
Occupied Economy

Autômatos?

“Dizem que o espírito da indústria tem despoetizado todas as artes, e que as máquinas vão reduzindo o mais belo trabalho a um movimento monótono e regular, que destrói todas as emoções, e transforma o homem num autômato escravo de outro autômato.”

– José de Alencar, em
Máquinas de coser

Belo Monte?

porcelana Kate D. MacDowell

Há décadas o governo projeta Belo Monte, argumentando crescimento econômico. Desde então, outros setores contra-argumentam o modelo de crescimento estimado pelo governo. A economia governamental acredita no crescimento infinito, conforme a filosofia básica dos negócios: crescer e multiplicar.

Imagina-se que Belo Monte alagará metade da cidade de Altamira, e mais 1.000 imóveis rurais. Entre 20 e 40 mil pessoas serão deslocadas não necessariamente para o melhor. Cerca de 70% do espaço da obra consiste em áreas protegidas, incluindo unidades de conservação, terras indígenas, quilombolas e sítios arqueológicos.

Por trás de Belo Monte existe uma concepção ideológica. A usina não pode ser dissociada de visões de valor e projetos de poder. Seu plano é uma escolha política, inspirada por credos e interesses provincianos.

A economia pretende-se uma ciência, mas desconsidera em suas teorias as implicações da física. Diz-se científica e finge desconhecer as leis da termodinâmica. Afirma seu rigor, mas rechaça evidências que contradizem suas hipóteses. É um partido?

A economia não pode ser dissociada da ecologia. Contudo, a economia que advoga e assevera Belo Monte não poderia ser mais antiecológica. Em que pese todo o discurso verde, o governo desconsidera em suas políticas as evidências biofísicas que condicionam e limitam o deus econômico.

Uma das dificuldades dos economistas está na gestão de riscos: nem sempre se pode antever acidentes, rupturas e rebotes. Manifestações imprevisíveis assombram a visão linear e monoconsequente da economia oficial. Os bons economistas da escola rezam por um homem no centro do universo.

O sonho de grandeza de Belo Monte é garantir o crescimento econômico, evitando apagões e contribuindo para que o Brasil assuma de uma vez sua posição entre os players do mundo. O pesadelo informa que, sem Belo Monte, será o fim do Brasil-Potência e do brazilian way of life. Quantas outras barragens serão necessárias para suportar o sonho de ver cada brasileiro transformado num voraz da economia?

Ora, certamente o Brasil tem a ganhar com Belo Monte. Mas mesmo em termos puramente financeiros, é difícil dizer o que o Brasil-Potência ganharia com a usina. Seguramente serão beneficiadas as empresas internacionais e criados empregos temporários. Mesmo assim, Belo Monte deverá evitar futuros apagões.

Ou não, porque os apagões continuarão a existir desde que a demanda por energia seja maior do que sua biodisponibilidade – economia doméstica. Toda a história recente de progresso material da humanidade é virtualmente impossível sem energia abundante e estável. Contudo, no momento, a grande panacéia energética que é o óleo cru está minguando.

fotografia Werner Reiterer

A matéria-prima da economia tem sido o petróleo. Todas as cadeias produtivas atuais dependem dessa fonte energética. Belo Monte faz parte da estratégia de energia que um país pode adotar para diminuir o risco de dependência de uma fonte única. Pode adotar termoelétricas e plantas nucleares, como o Brasil faz.

Belo Monte não é apenas uma usina, mas um complexo de barragens rio acima (vide PHCs). Vultuosa, tanto ao gosto do marketing quanto da indústria barrageira, sem esquecer da emissão de gases estufa. O rio Xingu faz muito mais por muito menos metano, com muito menos estresse para os povos indígenas e os peixes.

Em tempo:

Pode ajudar? Conheça o projeto.

O quadrado do número de nós?

“O átomo é o passado. O símbolo da ciência para o próximo século é a Rede dinâmica. Enquanto o átomo representa uma clara simplicidade, a Rede canaliza o poder confuso da complexidade… A única organização capaz de crescimento sem preconceitos e aprendizagem sem guias é a rede. Todas as outras topologias são restritivas. Um enxame de redes com acessos múltiplos e, portanto, sempre abertas de todos os lados. Na verdade a rede é a organização menos estruturada da qual se pode dizer que não tem nenhuma estrutura… De fato uma pluralidade de componentes realmente divergentes só pode manter-se coerente em uma rede. Nenhum outro esquema – cadeia, pirâmide, árvore, círculo, eixo – consegue conter uma verdadeira diversidade funcionando como um todo.”

Kevin Kelly, em
Out of Control

O que Kelly diz sobre a Rede pode ser contestado por físicos e matemáticos.  Interessa na afirmação dele o apontamento da convergência entre 1) matéria viva, 2) natureza interdependente da sociedade e a 3) lógica interativa das tecnologias de informação.