Arquitetura do sonhar?

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Materialismo espiritual?

AGORA, SE VOCÊ interpretar esse texto assuma alguma responsabilidade. Boa fortuna.

Tomar as aparências como sólidas é uma das características do materialismo. Um materialismo cada vez mais comum é aquele conhecido por materialismo espiritual.

O materialismo espiritual acontece quando as ferramentas espirituais feitas para liberar a vítima do sofrimento tornam-se fonte de sofrimento adicional para a vítima.

Mais do que no sofrimento, as religiões são baseadas em ideologias sobre o que fazer com o sofrimento. Para onde esse sofrimento leva e por que é assim.

Atenção ao lidar com as marcas de fantasia. Não transforme símbolos em realidades últimas irreconciliáveis. Isto é como atirar no próprio pé.

Ambientes curativos pressupõe compreensão mútua mais do que arrogância, mais do que certeza absoluta, mais do que autoridade.

Auto-engano?

colagem Mario Wagner

“Mundo das Dez Mil Coisas”, eles diziam. Hoje, dez vezes dez mil coisas são encontradas num diminuto pen-drive.

O corpo humano é frágil. Os bebês mal podem andar sobre as duas pernas. Alimentados, protegidos, amados e instruídos – se tudo der certo –, estão sob a constante ameaça da morte.

Tememos a indiferença. O abandono ameaça o viver. Assombrados pelo sussurro da inexistência, gritamos, esperneamos, chamamos a atenção. “Olhe papai”. “Veja mamãe”.

Propelidos pelo impulso de existência, afirmamos uma defesa.  Colecionando conteúdos, inferimos um colecionador. Contamos a história de nossa seleção de histórias.

O modelo famoso, pergunte a ele o que aconteceu quando passou a andar sobre uma cadeira de rodas. Pergunte a si o que aconteceu quando descobriu novos brinquedos.

Dotados de um penetrante instinto de aprender, instituímos escolas, professores, disciplinas, técnicas… Capazes de penetrar truques, e ainda hábeis em enganar a percepção.

criação de Fabio La Fauci e Daniele Sigalot

Maquiagens, plásticas, auto-confiança, hipertrofias, vitimizações, cinemas, carros, máscaras… E já que podemos aprender, descobriremos as sutilezas das maiores grosserias.

Com quantas maneiras você vê o mundo e a si? Jóia de realizar desejos ou matagal de espinhos? Trampolim ou sonho? Corpo? Probabilidade?

Vemos o mundo de uma maneira e não de outra? Por causa de nossas premissas? Por força de nossas dores? Por razão de ausências e legados? Como se faz para manter um ídolo?

Ídolo: objeto capaz de influenciar todos os demais objetos sem, contudo, ser influenciado ele mesmo pelos objetos que influencia.

O radical da ecologia – não bem uma novidade – é a exibição de um mundo interdependente. O que é você sem o sol sem você sem amigos sem supermercado sem saúde sem clareza?

As tiranias íntimas e coletivas dependem de um inimigo. Os tiranos dependem de ídolos. Suas polarizações dependem do medo e da ganância do rebanho emaciado que lhes confere poder.

Somos abertos, sentimos dor. Podemos ser feridos, tentamos nos proteger. Morremos, cultivamos medicinas. Curiosos, inventamos telescópios e microscópios.

Aprendizes, elaboramos visões. Estão aqui, na pauta das conversas, nos pronunciamentos dos economistas, dos sacerdotes e dos militares. Sagazes, investigaremos a natureza das visões.

Se as visões fossem absolutas, como poderiam ser refutadas, desconsideradas, depreciadas, esquecidas, estupradas, distorcidas, remixadas, compartilhadas, abandonadas ou dissolvidas?

Veja o mundo pelos olhos de uma abelha. Quantos centímetros tem o olhar antropocêntrico? Por bondade, observe o mundo pelos olhos daquelas que virão seis gerações após sua morte.

A história não está morta. O fim da história não é um estado de resignação onde tudo já está equacionado e você só precisa se enquadrar naquilo que os outros acham ser o seu lugar. Não.

O fim da história é uma possibilidade que você, enquanto criador e criatura de sua própria mitologia, tem de se liberar de toda a bagagem que tem carregado em sua mentecoração.

O fim da história é o poder de mudar de rumo, escapar ao rumo, deixar os ciclos, adentrar por própria clareza a garrafa do enredo, e ir além, diretamente além do medo e do auto-engano.