Disfuncionalidade?

HQ de Mike Deodato, via

 

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Formosuras?

“Os verdadeiros problemas muitas vezes se expressam por meio de paradoxos, e é impossível  resolvê-los. Deve-se encontrar um equilíbrio entre aquilo que tenta ser puro e aquilo que se torna puro através de sua relação com o impuro. Assim, pode-se constatar até que ponto é inviável a existência (…) que teima em permanecer à margem da rude textura do mundo.

… Toda forma, uma vez criada já está moribunda. (…) Uma forma magnífica não é necessariamente o veículo apropriado para transmitir uma experiência de vida quando o contexto histórico se modifica.

Em termos gerais, podemos concluir que a tradição, no sentido que damos à palavra, significa “imutabilidade”. É uma forma imutável, mais ou menos obsoleta, reproduzida por automatismo. Existem raras exceções, como no caso em que a qualidade da antiga forma é tão extraordinária que ainda hoje preserva sua vitalidade, como certas pessoas muito velhas que permanecem incrivelmente vivas e comoventes. No entanto, toda forma é mortal. Não há forma, inclusive a nossa, que não esteja sujeita à lei fundamental do universo: a lei do desaparecimento. Toda religião, todo conhecimento, toda tradição, toda sabedoria supõem nascimento e morte.

Nascimento é assumir uma forma, quer se trate de um ser humano ou de uma frase, palavra ou gesto. (…) Todos têm seus ciclos, e o mesmo ocorre com as ideias e com as memórias.

(…) Chegamos assim ao âmago da questão: na vida, nada existe sem forma. A todo instante, especialmente quando falamos, somos forçados a procurar a forma. Mas devemos ter em mente que essa forma pode ser um obstáculo total à vida, que não tem forma em si mesma. (…) A forma é necessária, porém não é tudo.”

— Peter Brook, em
A Porta Aberta

Rezar?

via Armando Antenore

“Morre uma professora dedicada. Eu não a conheci, mas, pelas mensagens que recebo, relembro como é dura a reconciliação com a presença concreta da morte para seus entes queridos. Eis que, no meio das mensagens, um padre solidário com a perda espera não constranger os seus colegas ateus com suas preces. Poucas vezes me deparei com um exemplo de tamanha delicadeza e sensibilidade. Que os ateus me desculpem, eu não rezo para ofendê-los, diz o padre. Como um conforto ao sacerdote, eu desejo sugerir que todos rezam. Uns acreditando, outros sem acreditar. Mas, perguntaria um crente, como rezar sem um Deus? Ora, responderia o ateu, e como rezar para divindade se o rezar é um ato pelo qual se aceita o mundo tal como ele é? Na sua bondade e maldade, nas suas trevas e luzes? Mais do que estabelecer um contrato com as divindades, a prece é, já dizia Mauss, o ato religioso mínimo para entrar em contato com o sobrenatural que nos cerca e aterroriza, sejamos crentes ou ateus. Rezar é reconhecer nossa finitude, fraqueza, carência, angústia e solidão. É admitir que vivemos numa totalidade que não podemos conhecer completamente. É um ato que pertence ao que Gregory Bateson chamou de ‘uma ecologia da mente’. Pois, quando rezamos, suspendemos o aqui e agora dominados pelo eu para irmos de encontro ao todo. Rezar é admitir que há no mundo seres e situações estranhas, acima (ou abaixo) dos elos entre meios e fins. Há quem use um canhão para matar um passarinho e quem tente enfrentar gorilas com poesia. O mundo não é claro como querem os materialistas, mas também não é absolutamente escuro como desejam os crentes.”

– Roberto DaMatta, em
Rezar?

Ioga?

pintura Charles Sims

Ioga é método. Método é meio; é como para um fim. Isso deve ser compreendido. Se o eu não compreende que o meio serve ao fim, ele se perde nos meandros do meio. Isso é trágico: é como se perder duplamente.

Existe meio sem começo ou fim? O fim do método é o resultado, o fruto, a terra prometida. Quem prometeu? Quem disse que frutificaria? Quem afirmou que haveria um resultado?

O começo. O começo não é apenas a razão do método. O começo é a visão do fim. O começo é a causa do fim. O eu se perde nas teias do método quando esquece o que é decisivo: há um começo, uma visão que justifica o método como veículo para um fim.

O que se quer com a ioga? Essa é a questão que o praticante deveria se fazer muitas vezes. É assim como ler um livro. Quando ele responde da primeira vez não será como ler o livro pela segunda vez. O que você quer com a ioga?

O que você quer é aquilo que você acha que está faltando. Por isso o desejo de buscar. A busca sugere um veículo. Um deles é chamado de método. Para onde o veículo vai? Para a realização daquilo que faz falta. Então, aquilo que você quer com a ioga é aquilo que parece fazer falta.

Aqui vem o pulo do gato. Atenção, atenção. Aquilo que faz falta depende de uma visão. O que é uma ausência? É uma visão. A visão é o começo. É a energia que move a mão que segura a lança. Visão, anote aí: Visão.

Quando se diz que ioga é método, essa é uma afirmação imprecisa. O que temos visto em muitos lugares são professores detidos no método da ioga. Isso é triste, pelas razões apresentadas acima. Ioga não é apenas método. Isso não seria ioga. Ioga é antes de tudo visão. Portanto, pode ser método. Então, o eu que pratica ioga precisa lembrar: visão e método andam juntos, são interdepententes e indissociáveis. Método sem visão é guerra. Visão sem método é protoplasma.

Estas são afirmações preliminares. Elas são mais que lembretes necessários; são ancoragens. Sem elas há um grande risco do método se transformar na mais nova base para o auto-engano. Lamentável é estar preso por aquilo que deveria ser um trampolim.

Você está fazendo ioga. Isso indica que há uma conexão com um método. Isso sugere que você tem uma visão. E implica que você está em busca de um determinado fruto.

Digamos que você esteja buscando paz. Paz, portanto, é o fruto; é a terra prometida. Pergunte-se: O que você acha que é paz? Sua resposta revelará uma visão da paz. Seja qual for, há dois tipos de paz: temporária e definitiva. Qual das duas você está buscando?

Se você está buscando o primeiro tipo, então tenha em mente que a paz temporária é por natureza impermanente. Ela pode ser deleitosa, como uma semana numa instância paradisíaca, mas logo logo ela mostrará suas garrinhas, ou se derreterá como sorvete sob o sol do meio dia. Essa é a notícia sobre paz temporária: ela não dura. Essa paz é uma bomba-relógio. E isso explica por que todos os anos as pessoas fazem desejos de paz. Elas não atingem a paz definitiva porque estão concentradas em uma paz de faz-de-conta, bacaninha, prazerosa, sem problemas, sussa e individualista. É uma paz para o eu delas. Um eu que está em chamas. Um eu que está pegando fogo. Um eu que se transformou numa panela de pressão! Paz então é uma válvula de escape. Está dito, a notícia é: essa paz tem hora marcada para virar guerra. Há razões para ser assim, você pode imaginar.

Quando falamos de ioga, na verdade, estamos falando de iogas. Quando falamos de iogas, no fundo estamos tratando de visão e método. O fruto – se você sentiu falta dele -, está lá na visão. O fruto está no começo, na semente. Quando falamos de visão estamos lidando com verdades. Há dois tipos de verdade: relativa e última.

O praticante de ioga está, digamos, em busca de paz. A visão dele é o fruto da paz. A primeira coisa que precisa esclarecer para si mesmo é se essa paz que busca é temporária ou definitiva. A segunda coisa que precisará investigar é se a visão de paz que tem é verdadeira ou equivocada. Dessas questões depende sua ioga. Se não sabe para onde ir e por que está indo, ele não fará a menor ideia de ter encontrado ou não. Poderá passar na frente do que busca com tanto esforço mas estará completamente cego. Ou abraçará entusiasticamente aquilo que na verdade é um veneno. Naturalmente, em ambos os casos ele não terá contentamento, ou paz.

Quando os primeiros praticantes bolaram isso que a gente chama genericamente de ioga, eles tinham algo muito especial em mente. Haviam descoberto que aquilo que buscavam nos objetos externos – prazeres, bens e glórias – não cumpria o prometido. Não apenas viram isso como reconheceram que essa busca era uma das raízes do sofrimento, isto é, da insatisfação, da frustração e da impotência. Eles se voltaram para dentro. Lá foi o campo onde buscaram aquilo que não haviam atingido quando se direcionaram para fora. Voltaram-se para a mente.

Aquelas iogas autênticas que criaram tinham um alvo: a mente. Seu objetivo ao lidar com a mente era claro: reconhecer sua operação e natureza. Por que fizeram isso? Porque sofriam. O que faltava a eles?

Com o tempo, os mais perspicazes se deram conta de que não poderiam negar o corpo. Contudo, aqueles que negaram o corpo foram chamados de ascetas. Mas falharam, apesar de suas proezas. Os mais inteligentes, porém, pensaram: “O corpo será o suporte; ele será como um aliado.” Os videntes viram que o corpo era um feixe de energias fluídas. Domar a direção dessas energias e reconhecer sua natureza tornou-se parte de sua disciplina. Nesse contexto, surge a Ioga da Kundalini. Uma entre tantas.

As práticas físicas, as limpezas, as disciplinas morais… Tudo girava em torno do supremo objetivo: a verdade da mente, a natureza da mente. A mente foi o campo por excelência; é o campo por excelência. Essa paz que o eu busca – se ela existir – está na mente. Ou antes dela, em um substrato do qual ela participa. Para ficar claro: O revolucionante daqueles pioneiros não foi a ioga, mas a visão de que o campo de batalha estava em suas próprias mentes, e não no mundo exterior. As iogas eram importantes, importatíssimas enquanto métodos. Fundamental era a visão.

Portanto, importa ter em mente a lembrança desses homens e mulheres e seu avanço: aquilo que você busca não está no método. Está na visão. E o campo onde as visões brotam como feixes de luz é a mente. Não se perca. Muitos insetos voam até a morte, em círculos, exauridos pela claridade de luzes falsas. O praticante investigará sua visão em busca de enganos, premissas falsas, etc. Ele fará isso simplesmente porque tem ciência de que toda a sua realidade depende da visão. Sua ação, em resumo, estará na mente. É “lá” que a faxina deve ser feita. É “lá” que os cavalos selvagens, indomados, das emoções aflitivas pastam. E o que comem esses bichos magníficos? Aquilo que você busca, paz.

Em tempo, não adianta nada praticar ioga e não cumprimentar o porteiro.