Cultura do medo?

Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que fazem uso dele; e o medo do flagelo do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele.

(…)

O destemor pode ser um dom, mas talvez algo ainda mais precioso seja a coragem adquirida através da aventura, a coragem que vem de cultivar o hábito de recusar deixar o medo ditar as ações de alguém, a coragem que poderia ser descrita como ‘graça apesar da pressão’  — graça que é renovada repetidamente na face da dura e contínua repressão.

Dentro de um sistema que nega a existência de direitos humanos básicos, o medo tende a ser a ordem do dia. Medo do encarceramento, medo da tortura, medo da morte, medo de perder os amigos, a família, a propriedade ou os meios de vida, medo da pobreza, medo do isolamento, medo da falha. Um tipo ainda mais sutil de medo é aquele que mascara como senso comum ou até como sabedoria, condenando como tolice, irresponsabilidade, insignificante ou fútil os pequenos e diários atos de coragem que ajudam a preservar o auto-respeito e a inerente dignidade humana. Não é fácil para pessoas condicionadas pelo medo imposto por lei férrea o princípio de que o poder é válido para a auto-libertação do enervante miasma do medo. Ainda assim, sob o poder esmagador da maquinaria do estado, a coragem se eleva de novo e de novo, pois o medo não é o estado natural do homem civilizado.

— Aung San Suu Kyi, em
Freedom from Fear: And Other Writings

Medo?

via peace

“Ora por cima da cabeça, ora por baixo dos meus pés, a floresta tenta me incutir medo. Bafeja meu pescoço com seu hálito gelado, crava em minha pele mil olhares aguçados. Sou um objeto estranho que ela tenta expulsar. Mas, aos poucos, aprendo a ignorar as ameaças. Afinal, esta floresta é parte de mim – é o que começo a pensar a partir de determinada altura. Estou viajando para dentro de mim mesmo. Do mesmo modo que o sangue viaja por meus vasos sanguíneos. O que vejo é o meu lado interno, e a sensação de ameaça nada mais é que eco do medo em meu coração. As teias de aranha que aqui existem são produtos de meu espírito, e os pássaros que gritam sobre a minha cabeça foram criados por mim mesmo. Esta imagem cresce dentro de mim e vai se enraizando. Como  que impelido por batidas de um imenso coração, avanço pela trilha. O caminho conduz ao meu local especial. À fonte de luz que tece a escuridão, ao lugar que origina o eco sem som. Para lá estou indo a fim de ver o que existe. Levo em mãos uma carta importante, hermeticamente fechada: sou o mensageiro secreto de mim para mim mesmo.”
—  Haruki Murakami, em
Kafka à beira-mar

Realize-se ou se arrependa?

Bronnie Ware passou os últimos anos trabalhando como enfermeira para pacientes moribundos. Ela registrou as últimas epifanias dessas pessoas em um blog chamado Inspiration and Chai, a partir do qual ela escreveu o livro The Top Five Regrets of the Dying.

foto Sally Mann

Os cinco maiores arrependimentos antes de morrer:

1. Gostaria de ter tido coragem de viver de acordo comigo mesmo, não de ter vivido de acordo com as expectativas alheias.

“Este foi o arrependimento mais comum de todos. Quando as pessoas se dão conta de que suas vidas estão quase no fim e olham para trás com clareza, é fácil perceber quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não honrou nem a metade de seus sonhos e teve que morrer sabendo que isso se devia a escolhas que fizeram, ou não fizeram. A saúde traz uma liberdade que poucos reconhecem, até que um dia ela passa.”

2. Gostaria de não ter trabalhado tanto.

“Esse [arrependimento] veio de cada um dos pacientea homens que eu cuidei. (…) Todos os homens que eu cuidei se arrependiam enormemente de ter gasto tanto de suas vidas no moinho de uma existência para o trabalho.”

3. Gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos.

“Muitas pessoas reprimiram seus sentimentos com o objetivo de manter a paz com os outros. Como resultado, eles arranjaram-se em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem elas eram verdadeiramente capazes de se tornar. Muitas desenvolveram doenças relativas ao amargor e ao ressentimento que carregaram como resultado [da auto-repressão].”

4. Gostaria de ter mantido contato com meus amigos.

“Frequentemente elas não iriam verdadeiramente perceber todos os benefícios dos velhos amigos até as semanas anteriores à morte, de modo que não era mais possível buscá-los. Muitos tinham se aprisionado tanto em suas próprias vidas que deixaram amizades de ouro escapar com o passar dos anos. Houve muitos arrependimentos profundos acerca de não dar o tempo e o valor devidos à amizade. Todos sentem falta de seus amigos quanto estão morrendo.”

5. Gostaria de ter me deixado ser mais feliz.

“Esse [arrependimento] é surpreendentemente comum. Muitos [pacientes] não se davam conta até o final de que a felicidade é uma escolha. Eles se mantiveram estacionados em velhos padrões e hábitos. O chamado ‘conforto’ da familiaridade inundou suas emoções, bem como suas vidas físicas. O medo da mudança os fez fingir para os outros e para si mesmos que estavam contentes quando, no fundo, ansiavam sorrir com propriedade e trazer a leveza de volta a suas vidas.”

via The Guardian
com Caos Ordenado