Ioga?

pintura Charles Sims

Ioga é método. Método é meio; é como para um fim. Isso deve ser compreendido. Se o eu não compreende que o meio serve ao fim, ele se perde nos meandros do meio. Isso é trágico: é como se perder duplamente.

Existe meio sem começo ou fim? O fim do método é o resultado, o fruto, a terra prometida. Quem prometeu? Quem disse que frutificaria? Quem afirmou que haveria um resultado?

O começo. O começo não é apenas a razão do método. O começo é a visão do fim. O começo é a causa do fim. O eu se perde nas teias do método quando esquece o que é decisivo: há um começo, uma visão que justifica o método como veículo para um fim.

O que se quer com a ioga? Essa é a questão que o praticante deveria se fazer muitas vezes. É assim como ler um livro. Quando ele responde da primeira vez não será como ler o livro pela segunda vez. O que você quer com a ioga?

O que você quer é aquilo que você acha que está faltando. Por isso o desejo de buscar. A busca sugere um veículo. Um deles é chamado de método. Para onde o veículo vai? Para a realização daquilo que faz falta. Então, aquilo que você quer com a ioga é aquilo que parece fazer falta.

Aqui vem o pulo do gato. Atenção, atenção. Aquilo que faz falta depende de uma visão. O que é uma ausência? É uma visão. A visão é o começo. É a energia que move a mão que segura a lança. Visão, anote aí: Visão.

Quando se diz que ioga é método, essa é uma afirmação imprecisa. O que temos visto em muitos lugares são professores detidos no método da ioga. Isso é triste, pelas razões apresentadas acima. Ioga não é apenas método. Isso não seria ioga. Ioga é antes de tudo visão. Portanto, pode ser método. Então, o eu que pratica ioga precisa lembrar: visão e método andam juntos, são interdepententes e indissociáveis. Método sem visão é guerra. Visão sem método é protoplasma.

Estas são afirmações preliminares. Elas são mais que lembretes necessários; são ancoragens. Sem elas há um grande risco do método se transformar na mais nova base para o auto-engano. Lamentável é estar preso por aquilo que deveria ser um trampolim.

Você está fazendo ioga. Isso indica que há uma conexão com um método. Isso sugere que você tem uma visão. E implica que você está em busca de um determinado fruto.

Digamos que você esteja buscando paz. Paz, portanto, é o fruto; é a terra prometida. Pergunte-se: O que você acha que é paz? Sua resposta revelará uma visão da paz. Seja qual for, há dois tipos de paz: temporária e definitiva. Qual das duas você está buscando?

Se você está buscando o primeiro tipo, então tenha em mente que a paz temporária é por natureza impermanente. Ela pode ser deleitosa, como uma semana numa instância paradisíaca, mas logo logo ela mostrará suas garrinhas, ou se derreterá como sorvete sob o sol do meio dia. Essa é a notícia sobre paz temporária: ela não dura. Essa paz é uma bomba-relógio. E isso explica por que todos os anos as pessoas fazem desejos de paz. Elas não atingem a paz definitiva porque estão concentradas em uma paz de faz-de-conta, bacaninha, prazerosa, sem problemas, sussa e individualista. É uma paz para o eu delas. Um eu que está em chamas. Um eu que está pegando fogo. Um eu que se transformou numa panela de pressão! Paz então é uma válvula de escape. Está dito, a notícia é: essa paz tem hora marcada para virar guerra. Há razões para ser assim, você pode imaginar.

Quando falamos de ioga, na verdade, estamos falando de iogas. Quando falamos de iogas, no fundo estamos tratando de visão e método. O fruto – se você sentiu falta dele -, está lá na visão. O fruto está no começo, na semente. Quando falamos de visão estamos lidando com verdades. Há dois tipos de verdade: relativa e última.

O praticante de ioga está, digamos, em busca de paz. A visão dele é o fruto da paz. A primeira coisa que precisa esclarecer para si mesmo é se essa paz que busca é temporária ou definitiva. A segunda coisa que precisará investigar é se a visão de paz que tem é verdadeira ou equivocada. Dessas questões depende sua ioga. Se não sabe para onde ir e por que está indo, ele não fará a menor ideia de ter encontrado ou não. Poderá passar na frente do que busca com tanto esforço mas estará completamente cego. Ou abraçará entusiasticamente aquilo que na verdade é um veneno. Naturalmente, em ambos os casos ele não terá contentamento, ou paz.

Quando os primeiros praticantes bolaram isso que a gente chama genericamente de ioga, eles tinham algo muito especial em mente. Haviam descoberto que aquilo que buscavam nos objetos externos – prazeres, bens e glórias – não cumpria o prometido. Não apenas viram isso como reconheceram que essa busca era uma das raízes do sofrimento, isto é, da insatisfação, da frustração e da impotência. Eles se voltaram para dentro. Lá foi o campo onde buscaram aquilo que não haviam atingido quando se direcionaram para fora. Voltaram-se para a mente.

Aquelas iogas autênticas que criaram tinham um alvo: a mente. Seu objetivo ao lidar com a mente era claro: reconhecer sua operação e natureza. Por que fizeram isso? Porque sofriam. O que faltava a eles?

Com o tempo, os mais perspicazes se deram conta de que não poderiam negar o corpo. Contudo, aqueles que negaram o corpo foram chamados de ascetas. Mas falharam, apesar de suas proezas. Os mais inteligentes, porém, pensaram: “O corpo será o suporte; ele será como um aliado.” Os videntes viram que o corpo era um feixe de energias fluídas. Domar a direção dessas energias e reconhecer sua natureza tornou-se parte de sua disciplina. Nesse contexto, surge a Ioga da Kundalini. Uma entre tantas.

As práticas físicas, as limpezas, as disciplinas morais… Tudo girava em torno do supremo objetivo: a verdade da mente, a natureza da mente. A mente foi o campo por excelência; é o campo por excelência. Essa paz que o eu busca – se ela existir – está na mente. Ou antes dela, em um substrato do qual ela participa. Para ficar claro: O revolucionante daqueles pioneiros não foi a ioga, mas a visão de que o campo de batalha estava em suas próprias mentes, e não no mundo exterior. As iogas eram importantes, importatíssimas enquanto métodos. Fundamental era a visão.

Portanto, importa ter em mente a lembrança desses homens e mulheres e seu avanço: aquilo que você busca não está no método. Está na visão. E o campo onde as visões brotam como feixes de luz é a mente. Não se perca. Muitos insetos voam até a morte, em círculos, exauridos pela claridade de luzes falsas. O praticante investigará sua visão em busca de enganos, premissas falsas, etc. Ele fará isso simplesmente porque tem ciência de que toda a sua realidade depende da visão. Sua ação, em resumo, estará na mente. É “lá” que a faxina deve ser feita. É “lá” que os cavalos selvagens, indomados, das emoções aflitivas pastam. E o que comem esses bichos magníficos? Aquilo que você busca, paz.

Em tempo, não adianta nada praticar ioga e não cumprimentar o porteiro.

Tonglen

A prática de Tonglen funciona assim: inspira-se todo o mal estar, toda dor, qualquer patologia. Inspira-se o medo, a paralisia e a neurose. Inspira-se a dúvida diabólica e a violência.

Por um tempo, esses fenômenos são retidos nos pulmões. Então, são transformados em benefícios e mérito. Expira-se bem estar, todo alívio e cura. Expira-se destemor, liberdades e sabedoria. Expira-se potencialidade e ludicidez.

Faz-se isso por quantas respirações completas sejam possíveis. Pode-se começar consigo mesmo. Inspira-se. Retem-se. Transforma-se. Oferta-se. Posteriormente, faz-se com pessoas amadas, com amigos e familiares. Inspirar. Reter. Transformar. Liberar. Incluem-se pessoas com quem se tem atrito e desconforto. Inspira-se o conflito, a aresta e o orgulho. Expira-se atenção penetrante, criatividade e compaixão.

Faz-se tonglen por grupos de pessoas: famintos, políticos, nações afligidas pela guerra étnica e ideológica, pelos animais, pelos apresentadores de televisão, pelos donos de dinheiro, pelos praticantes espirituais, pelas crianças, pelos amigos que brigaram, pelos encarcerados, aflitos e pelos seres nos infernos…

Tonglen a qualquer hora, na dinâmica comezinha, no pulo do gato, no instante do pensamento ou na hora do coração. Tonglen no ônibus para um bêbado, e na fila do caixa automático. Tonglen na praia, tomando sol e sob a garoa.

com imagem de Hathodir

Arte Jedi?

fotografia Bernie Boston

A força oponente requer outra força vindo, avançando, no sentido dela. Quando o oponente está se aproximando de você, quão mais perto chega, mais e mais ele espera encontrar outra força vindo na direção dele. Quando essa força não está lá de modo algum, ele simplesmente colapsa. Ele erra o alvo, colapsa, e toda a força dele torna-se auto-destrutiva. É como alguém tentando lutar contra suas alucinações: enquanto ele tenta golpeá-las com mais força, irá por si mesmo cair no chão. Essa é exatamente a questão: quando você não produz outra força raivosa, a força oponente colapsa. Isso também está conectado a como se lida com os próprios pensamentos na prática da meditação. Se você não tenta reprimir seus pensamentos, mas apenas aceitá-los e não se envolver com eles, então toda a estrutura dos pensamentos torna-se uma com você e não é mais perturbadora.

– Chögyam Trungpa, em
Smile at Fear