Contadores de história?

Andrew Stanton acredita que em meio ao movimento das histórias, há constâncias. Uma dessas constantes é a propensão humana para preencher espaços.

Segundo Elif Shafak, as histórias proporcionam um senso de centralidade, continuidade e coerência – uma espécie de cola existencial. Contudo, podem perder sua magia quando são vistas como mais do que histórias.

Para J.J. Abrams, o catalisador da imaginação é o mistério. Em cada história, uma pergunta fundamental e provocante atrai a atenção como uma caixa misteriosa.

E há um link para uma videobiografia de Alan Moore, onde o autor descreve os impulsos que se fazem expressar por meio das histórias.

Gato-gorila?

por Vajraclown
Glenn Brown

“O fundamento do amor reside na plena compreensão mútua”, diz o gato de Soseki. Natsume Soseki. O gato ainda não tem nome. O felino mia: “É da natureza de todo ser humano encher-se de empáfia e ufanar-se da própria autoridade.” Esse gato é um gorila!

Ismael é o nome do gorila. Todos sabem a situação dos gorilas. Estão cercados. O que nem todos sabem é que há contadores de histórias entre os gorilas. Há grandes fêmeas gorilas tecedeiras comentaristas. E também entre os gatos, naturalmente, há legendários artistas da contação.

As histórias dos gatos e gorilas narram casos familiares de sua espécie. Mitos pessoais e coletivos ambientados num cenário de convivências e interesses. Acima de tudo, suas mitologias protejam uma espécie de senso comum auto-referente. O que isso significa?

Os gatos contemplam os gorilas como gorilas. Os gorilas apenas raramente contemplam felinos. Gatos e gorilas, na história dos seres humanos, são meras notas de rodapé de almanaque – salvas notáveis exceções. Os espadartes contemplam ciborgues humanóides predadores em obscura verbete de seu vasto expressilário críptico.

O cânon de Cobalto Cromo. Raramente fala-se sobre essa pequena enciclopédia da natureza dos verbos. Por que um transverso oceânico é desconhecido de tantos intelectuais? Estão em pontes diferentes da lenda. Rezalenda.

Em nenhum momento, em sua autobiografia, o gato gorila de Soseki refere-se ao cânon de Cobalto Cromo. Não espanta. O cânon é um lume desconhecido. Entre as fêmeas gorilas tecedeiras comentaristas, Remi Mugarh é a única a citar (em seu clássico Sequência de Mirabolices) o “legendário cânon desconhecido”.  Diz Mugarh: “Cobalto Cromo reúne verbos de toda natureza e tempo. Na entrada ‘Adentrar’ registra: ‘Espaço’.”

Ao buscar o Vasto Mínimo Comentário Inflamável (VMCI), de M. Sinoide, deparamos com uma notinha: “Acerca do CCC: Que espaço há para adentrar?” Contudo, entre os Sinoideanistas, não há consenso acerca do significado da sigla. Moroidas (Krun, código de barras, mire ali) defende que a sigla deve ser traduzida por: “Campo Conflituoso Cco”. Para Gerais (Ama, logo ali, interjeição), a sigla significa: “Convite Chuvoso do Corisco”. Permanece sigla cujo status é de incerteza aberta.

Notícias da fronteira, estação Olhos de Barravento.

Outras transmissões de Vajraclown

Mantra?

com imagem de
Ivan Rodero

“A linguagem nas culturas de tradição oral tende a manter-se em sintonia com os ritmos e ressonâncias específicas da paisagem sonora local. É influenciada pelo canto dos pássaros e pela voz de outros animais, pelo silvo dos ventos através das árvores e pelos padrões específicos de luz e sombra que imperam na região. Para esses povos, a linguagem é um discurso ativo _um grito, uma canção e um suspiro. Falar é participar diretamente da vida dinâmica da Terra. No entanto, aqueles de nós nascidos nas sociedades alfabetizadas, intelectualizadas, tendem a supor que a linguagem é um atributo exclusivo do ser humano. Quando falamos, não sentimos que estamos participando de um mundo vivo maior ou conversando com ele, mas sim que estamos ‘representando’ o mundo, mantendo-nos separados dele, observando-o de fora. Em vez de nos unir ao mundo além-do-humano, a linguagem nos separa dele. Isso é uma maneira radicalmente distinta de experienciar a linguagem em relação ao uso que faziam dela os nossos ancestrais de cultura oral.”

– David Abram, via
O Blog das Perguntas