Cultura do medo?

Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que fazem uso dele; e o medo do flagelo do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele.

(…)

O destemor pode ser um dom, mas talvez algo ainda mais precioso seja a coragem adquirida através da aventura, a coragem que vem de cultivar o hábito de recusar deixar o medo ditar as ações de alguém, a coragem que poderia ser descrita como ‘graça apesar da pressão’  — graça que é renovada repetidamente na face da dura e contínua repressão.

Dentro de um sistema que nega a existência de direitos humanos básicos, o medo tende a ser a ordem do dia. Medo do encarceramento, medo da tortura, medo da morte, medo de perder os amigos, a família, a propriedade ou os meios de vida, medo da pobreza, medo do isolamento, medo da falha. Um tipo ainda mais sutil de medo é aquele que mascara como senso comum ou até como sabedoria, condenando como tolice, irresponsabilidade, insignificante ou fútil os pequenos e diários atos de coragem que ajudam a preservar o auto-respeito e a inerente dignidade humana. Não é fácil para pessoas condicionadas pelo medo imposto por lei férrea o princípio de que o poder é válido para a auto-libertação do enervante miasma do medo. Ainda assim, sob o poder esmagador da maquinaria do estado, a coragem se eleva de novo e de novo, pois o medo não é o estado natural do homem civilizado.

— Aung San Suu Kyi, em
Freedom from Fear: And Other Writings

Nossos filhos?

foto Ana C. Barcalla

Aqueles de vocês que já tiveram filhos sabem. Se já tiveram a fortuna de cuidar de filhotes sabem: eles não são nossos. Eles não respondem ao nosso comando sempre que desejamos. Eles crescem e se tornam… eles, elas, it.

Nós que somos mães sabemos bem. Nossos filhos não são nossos. Falamos a eles e somente uma parte de nossos ‘ensinamentos’ permanece com eles. A outra parte sai pelo ouvido – sem ser integrada – do mesmo modo que adentrou.

Nós que somos pais sabemos. Nossos filhos são surpreendentes. Frustram frequentemente nossas expectativas. Fazem o contrário. Dão com o que consideramos errado. Bolam problemas. Aparecem como desafios.

Nossos filhos não são nossos. E apesar de nós, morderão as pernas de nossos amigos. E dirão o que não pode ser dito. E latirão no alto da madrugada! Elas andarão por si mesmas, deixando-nos a ver navios. E talvez tenhamos que invocar: “Não enquanto estiver sob o meu teto!”.

E essa invocação não será necessariamente porque somos egoístas, e o teto é só nosso. Não. Invocaremos essa frase por desespero, porque amamos e nunca nosso teto estará indisponível para eles ou elas. E por que estaríamos desesperados ao ponto de invocar um tal argumento?

Porque temos a memória e a experiência que nossos filhotes não têm [no tocante a esse X assunto]. Sabemos da invisibilidade da letal eletricidade. Temos a vivência da humanidade que a ingenuidade desconhece ou desconsidera. Por amor, iremos invocar a mais irada das máscaras.

De modo geral, todos nós temos alguém em alta conta. Essa capacidade de valorização é familiar, e frequentemente se manifesta através de nossas mães, pais, filhotes, amigos…

O que não aprendemos na escola é que essa capacidade é plástica. Até recentemente acreditávamos que o cérebro era imutável. Hoje em dia sabemos que o cérebro é dotado de uma qualidade chamada de neuroplasticidade.

O mesmo pode ocorrer com a atenção, apesar da grande maioria de nossos professores nunca ter citado que nossa atenção pode ser treinada para se reprogramar, do mesmo modo que os halterofilistas fazem com os músculos.

Se nossa atenção pudesse penetrar as aparências, o que seria visto? Nossos filhos seriam vistos tais quais são? Haveria abertura para recepcionar as insistentes dissonâncias que emergem como dificuldades no decorrer não de nossas vidas, mas de um simples dia?

Poderíamos lidar melhor com o fato de que nos carregamos e a todas as nossas expectativas de sucesso e aceitação? Talvez pudéssemos ter uma mente espaçosa o suficiente para sorrir para a claustrofobia…

Mas não sabemos. Porque nossos filhos são nossos. Assim como somos nós de nós mesmos. E tudo parece ser de algum modo nosso. A cozinha, nossa. Nossos filhos, nossos. A dor, nossa. Quem somos, nosso. Nossa história, nossas ideologias, nós, tudo nós, tudo nosso, a partir da fração.

Tanta insegurança só pode temer a dissonância, a ocorrência do inesperado e, por fim, a morte e a dor: da perda; da transformação de nossas ideologias e pesadelos em realidade. E daí manter ou lutar, assegurar ou evitar, ou simplesmente dar-se conta da insatisfação de comer doze potes de Nutellla.

Nossos filhos não são nossos. Eles crescerão e assumirão a experiência de ser quem são. Assim como nós, apesar das melhores aspirações de nossos pais, amigos e augustos protetores. De certa forma, ser é uma tremenda maldição.

Somos, e daí haverá espaço para a criatividade? Ser, e haverá espaço para a impermanência? Ou estaremos crédulos de que somos o que somos, projetos acabados? E assim até a morte?

Um pouco de atenção para penetrar a pele, os títulos, as categorias e as intenções. Um pouco de atenção para liberar a função pela qual fazemos o que fazemos. Um pouco de atenção para ver nossos filhos pelo que são. E ir além; e voltar, talvez sem nunca ter ido…

Que as crianças possam criar. Que suas espantosas criações assombrem nossos apegos a modelos acabados. Que elas nos liberem de nosso totalitarismo. Que elas despertem em nós lágrimas e sorrisos oceânicos.

Efeito borboleta?

arte Paul Prudence

“Quando percebemos na própria experiência que para atingir a felicidade não é preciso agarrar mas soltar, não é preciso procurar experiências agradáveis mas se abrir ao que é verdadeiro no momento, essa transformação de energia libera a compaixão dentro de nós. Nossa mente não mais se limita a afastar a dor nem a agarrar o prazer. A compaixão é a resposta natural de um coração aberto. Quando sossegamos e nos abrimos ao que está acontecendo a cada momento, sem apego nem aversão, desenvolvemos uma atitude de compaixão diante de cada experiência. A partir dessa atitude que desenvolvemos na prática, podemos começar a manifestar a verdadeira ação compassiva no mundo.”

Joseph Goldstein e Jack Kornfield, em
Seeking the Heart of Wisdom

Policentrismo?

ilustração Cayce Zavaglia

“(…) Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.(…)”

– David Foster Wallace, via
Ricardo Lombardi

Volte-se?

Essa história começa com um encontro de cem monarcas. Cada um deles havia conseguido criar e manter as condições para a vitalidade de seus reinos, cujos habitantes eram prósperos e felizes.

Durante o reencontro usaram de sua clarividência para ver além do alcance de seus reinos e conferiram que seus mundos mais pareciam ilhas de bem-aventurança num oceano de miséria.

Visionários, previram que era uma questão de tempo até que os habitantes de seus reinos fossem afetados por um tal estado de iniquidade.

A história prossegue contando como esses monarcas manifestaram uma panacéia de soluções temporárias e últimas, acessíveis a todos os seres.

Qual critério poderia ter sido utilizado por eles para alentar a ideia de que os habitantes de seus reinos estavam sob ameaça?

“Nenhum homem é uma ilha”, ouvimos dizer. Um homem não nasce do nada. Ele é um todo-parte. Ele nasce de uma mulher e depende dos minerais, vegetais e animais para sobreviver. Ele depende do sol.

Um homem depende da cultura e de todas as histórias e legados disponibilizados para ele por todos os ancestrais. Ele depende do corpo e do coração. Ele depende da educação, e até de salários. E de mais?

O critério da interdependência básica que parece irmanar todos os seres e fenômenos pode ter sido utilizado pelos cem monarcas para antever que suas ilhas não eram imunes ao movimento oceânico.

Acompanhamos uma crescente insatisfação com os modelos político-econômicos hegemônicos em países como Síria, Egito, Chile, Espanha, Grécia e Inglaterra. Quem são os insatisfeitos?

Os insatisfeitos são aqueles que têm fome. Do que têm fome? De valores, de comida, de dignidade, de espaço, de direitos, de cultivo, de trabalho, de liberdade, de sentido…

 Žižek observa que vivemos em uma sociedade que reforça o ideal da liberdade de escolha, mas que, na prática, apresenta apenas duas opções: viver segundo as regras ou a violência.

Todos nós temos uma dignidade, isto é, uma vontade de ser. A publicidade abusa desse direcionamento. Percebemos que todas as propagandas atuais têm um alvo: você.

Confundimo-nos uns aos outros com nossas ideias de que a afluência de prazeres sensoriais (incluindo pensamentos) pode realmente nos elevar da miséria. Contudo, quanto mais temos, mais carentes somos.

Com Marx sabemos o papel estruturante da materialidade. A fome de um faminto não é de abstração intelectual. Com Maslow aprendemos que as necessidades sociais e fisiológicas interdependem.

O desejo quer ser saciado, mas sua fome não tem fim. Num planeta com recursos finitos, uma sociedade baseada numa economia de infinita geração de desejos ruirá.

Os atuais levantes populares são a ponta de um iceberg. Eles são baseados em um crescente descontentamento com a iniquidade e a opressão. Contudo, os revoltosos irão substituir uma ditadura por outra?

Há muito se sabe que tomar o poder pela força e pelo número é quase sempre a parte mais fácil. O mais difícil tem sido pensar governos plurais e sustentáveis, transparentes e não-violentos.

Como lembra marimessias, “talvez as grandes revoluções, que acabam sendo a imposição de uns sobre outros (…) estejam perdendo espaço.” O que fazer quando nossas vacas sagradas caducam?

Os seres humanos se gabam de ser inventivos. Que urgente tempo favorável o momento presente para demonstrar isso.