Delírios permeáveis?

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Formosuras?

“Os verdadeiros problemas muitas vezes se expressam por meio de paradoxos, e é impossível  resolvê-los. Deve-se encontrar um equilíbrio entre aquilo que tenta ser puro e aquilo que se torna puro através de sua relação com o impuro. Assim, pode-se constatar até que ponto é inviável a existência (…) que teima em permanecer à margem da rude textura do mundo.

… Toda forma, uma vez criada já está moribunda. (…) Uma forma magnífica não é necessariamente o veículo apropriado para transmitir uma experiência de vida quando o contexto histórico se modifica.

Em termos gerais, podemos concluir que a tradição, no sentido que damos à palavra, significa “imutabilidade”. É uma forma imutável, mais ou menos obsoleta, reproduzida por automatismo. Existem raras exceções, como no caso em que a qualidade da antiga forma é tão extraordinária que ainda hoje preserva sua vitalidade, como certas pessoas muito velhas que permanecem incrivelmente vivas e comoventes. No entanto, toda forma é mortal. Não há forma, inclusive a nossa, que não esteja sujeita à lei fundamental do universo: a lei do desaparecimento. Toda religião, todo conhecimento, toda tradição, toda sabedoria supõem nascimento e morte.

Nascimento é assumir uma forma, quer se trate de um ser humano ou de uma frase, palavra ou gesto. (…) Todos têm seus ciclos, e o mesmo ocorre com as ideias e com as memórias.

(…) Chegamos assim ao âmago da questão: na vida, nada existe sem forma. A todo instante, especialmente quando falamos, somos forçados a procurar a forma. Mas devemos ter em mente que essa forma pode ser um obstáculo total à vida, que não tem forma em si mesma. (…) A forma é necessária, porém não é tudo.”

— Peter Brook, em
A Porta Aberta

Reunião de condomínio

via

A menina olhou para o homem e disse: — Porque vocês são otários, seus filhos irão sofrer. Quando seus filhos sofrerem, vocês irão para o inferno.

Não era com desdém que os olhos vítreos do homem fuzilavam a menina. Na sala, a inicial aparência de descontração transformara-se em tensão e mal-estar completos. Talvez fosse efeito da iluminação fluorescente, mas as faces das pessoas estavam pálidas,  lívidas. Por baixo das cadeiras, insinuava-se um cheiro de azedume.

A menina havia se sentado. Seus olhinhos fitavam o homem como um relâmpago fita um canavial. Após um suspiro, ela continuou:

— Era uma vez uma menininha melodramática no supermercado com a avó. Para chamar a atenção, cria uma ceninha histérica, aos berros e esperneando como uma danadinha. Do nada, pelo outro lado do corredor, aparece um homem. Decididamente, caminha até ela e, olhos nos olhos, diz: “— Que marra! Você já se esqueceu? Você não se lembra? Mal posso acreditar. Atenção!” A avó não entende patavina. A menininha olha-o de volta e sorri.  O homem vai embora.

Na sala, pode-se ouvir o silêncio ser pipocado por plocs (de bolhinhas estourando) e cracks (de rachaduras se abrindo) nas cabeças dos ouvintes. Após um instante, os pés de alguns voltam a tremelicar como britadeiras. Alguém pensa que vai tossir, mas é alarme falso. Tratava-se apenas da mais recém preocupação refazendo a reação de sempre.

Descontraindo os lábios ressequidos, o síndico propõe: — Todos a favor da remoção do problema para o mais longe possível digam “ni”.

— Niiii.

— A moção está aprovada. Acerta-se pela remoção do problema para o mais longe possível. Atar e executar.

Após uma breve pausa de estupefação, o síndico faz o último pronunciamento: — Boa noite.

As pessoas vão se levantando, caiadíssimas. Do confinamento em seus sorrisos botulínicos murmuram ares retesados. Enquanto isso, o síndico havia se aproximado da menina e já lhe dizia: — Porque sou um otário, levarei todos os que amo. Ralo abaixo.

Imediatamente após recitar aquelas palavras, o síndico foi chamado pelo homem que havia proposto a remoção do problema para o mais longe possível. O homem aproveitou para parabenizar o síndico pela condução das atividades e que esperava a execução da remoção do problema para o mais longe possível para amanhã mesmo. Até falou de uma empresa especializada em remover problemas para o mais longe possível.

Quando deixaram a sala para trás, esqueceram-se de apagar as luzes. Subiram pelos elevadores até suas celas, tendo ânimo para ligar os televisores nas novelas de modo que ouviam ladainhas enquanto ingeriram lá seus soníferos. Após algum tempo, dormiram. Foram mergulhando em sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos. Sequer podiam ouvir quando um trovão adamantino — raríssimo — ribombou como eco de um raio na hora mais escura da madrugada.

Depois da reunião