Formosuras?

“Os verdadeiros problemas muitas vezes se expressam por meio de paradoxos, e é impossível  resolvê-los. Deve-se encontrar um equilíbrio entre aquilo que tenta ser puro e aquilo que se torna puro através de sua relação com o impuro. Assim, pode-se constatar até que ponto é inviável a existência (…) que teima em permanecer à margem da rude textura do mundo.

… Toda forma, uma vez criada já está moribunda. (…) Uma forma magnífica não é necessariamente o veículo apropriado para transmitir uma experiência de vida quando o contexto histórico se modifica.

Em termos gerais, podemos concluir que a tradição, no sentido que damos à palavra, significa “imutabilidade”. É uma forma imutável, mais ou menos obsoleta, reproduzida por automatismo. Existem raras exceções, como no caso em que a qualidade da antiga forma é tão extraordinária que ainda hoje preserva sua vitalidade, como certas pessoas muito velhas que permanecem incrivelmente vivas e comoventes. No entanto, toda forma é mortal. Não há forma, inclusive a nossa, que não esteja sujeita à lei fundamental do universo: a lei do desaparecimento. Toda religião, todo conhecimento, toda tradição, toda sabedoria supõem nascimento e morte.

Nascimento é assumir uma forma, quer se trate de um ser humano ou de uma frase, palavra ou gesto. (…) Todos têm seus ciclos, e o mesmo ocorre com as ideias e com as memórias.

(…) Chegamos assim ao âmago da questão: na vida, nada existe sem forma. A todo instante, especialmente quando falamos, somos forçados a procurar a forma. Mas devemos ter em mente que essa forma pode ser um obstáculo total à vida, que não tem forma em si mesma. (…) A forma é necessária, porém não é tudo.”

— Peter Brook, em
A Porta Aberta

decay-4via

“Como num discurso que começa impetuoso e aos poucos se torna inseguro e desconexo, a trilha se estreita conforme prossigo e se perde na relva rasteira. Não vejo sinais de melhoramentos e aos poucos vai ficando difícil saber se o que existe diante de mim ainda é trilha ou apenas algo semelhante a ela. E então, o caminho repentinamente desaparece engolfado num mar de fetos verdejantes.

  Haruki Murakami, em
Kafka à beira-mar

Do que é feito o mundo?

Laurent Laveder

Uma noite, um ladrão visitou a choupana de Ryōkan, na base de uma montanha. Logo deu-se conta de que não havia quase nada para roubar. Mesmo assim, levou o que havia: uma muda de roupa e uma caneca. Quando Ryōkan retornou, percebeu que um ladrão havia levado todos os seus pertences: uma muda de roupa e uma caneca. Sentando-se, olhou para a janela. Então disse:

A lua
na janela –
ele não a levou.