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Liberdade de escolha?

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Personalidade fixa?

Em dezembro de 1946, Leo Lerman, editor da revista Harper’s Bazaar, pediu a Anaïs Nin que escrevesse uma curta autobiografia para a publicação. Ela declinou o convite com uma carta:

Querido Leo

[…]

Eu me vejo e a minha vida a cada dia de um modo diferente. O que eu posso dizer? Os fatos mentem. Tenho sido Don Quixote, sempre criando um mundo por conta própria. Eu sou todas as mulheres nas novelas, e ainda assim sou outra que não está nas novelas. Levei mais de sessenta volumes de diário até agora para contar sobre minha vida. Como Oscar Wilde, coloquei apenas minha arte em meu trabalho e meu gênio em minha vida. Minha vida não é possível de contar. Eu mudo a cada dia, mudo meus padrões, meus conceitos, minhas interpretações. Sou uma série de humores e sensações. Atuo em mil papéis. Choramingo quando percebo que outras pessoas estão atuando neles por mim. Meu self real é desconhecido. Meu trabalho é meramente uma essência dessa vasta e profunda aventura. Eu crio um mito e uma lenda, uma mentira, um conto de fadas, um mundo mágico, que colapsa todo dia e me faz sentir como se estivesse indo à la Virginia Woolf. Eu tentei não ser neurótica, não romântica, não destrutiva, mas posso ser tudo isso disfarsado.

É impossível fazer meu retrato por causa de minha mobilidade. Não sou fotogênica por causa de minha mobilidade. Paz, serenidade e integração são desconhecidos meus. Meu clima familiar é a ansiedade. Eu escrevo enquanto respiro, naturalmente, fluidamente, espontaneamente, a partir de um transbordamento, não como um substituto para a vida. Estou mais interessada em fazer amor do que em escrever. Mais interessada em me tornar uma obra de arte do que em criar uma. Sou mais interessante do que aquilo que escrevo. Acima de tudo, tenho o dom do relacionamento. Eu não tenho confiança em mim mesma e grande confiança nos outros. Preciso de amor mais do que de comida. Tropeço e cometo erros, e frequentemente quero morrer. Quando eu pareço mais transparente é provavelmente quando acabei de sair do fogo. Sempre caminho para o fogo, e saio dele viva. Nada disso é para a Harper’s Bazaar.

Penso que a vida é trágica, não cômica, porque não tenho desapego. Tenho sido culpada de idealização, culpada de tudo exceto desapego. Sou culpada de fabricar um mundo no qual eu possa viver e convidar outros a viver nele, mas fora dele não consigo respirar. Sou culpada de uma vida muito séria, muito grave, mas nunca de uma vida superficial. Eu tenho vivido em minhas profundezas. Minha primeira tragédia me mandou para o fundo do mar; vivo em um submarino, e muito raramente venho à superfície. Adoro costumes, a espuma da estética, noblesse oblige, e escritores poéticos. Aos quinze anos eu queria ser Joana D’arc, e depois, Don Quixote. Nunca acordei de minha familiaridade com miragens, e provavelmente terminarei em um claustro de ópio. Nada disso é adequado para a Harper’s Bazaar.

Sou aparentemente gentil, instável, e cheia de pretensões. Morrerei como um poeta morto por não-poetas, não renunciarei a nenhum sonho, não me resignarei a nenhuma feiura, não aceitarei nada do mundo que não tenha sido aquilo que criei por mim mesma. Eu escrevi, vivi, amei como Don Quixote, e no dia de minha morte direi: ‘Com licença, foi tudo um sonho’, e então posso encontrar alguém que dirá: ‘De modo algum, foi tudo verdade, absolutamente verdadeiro.’

— Anaïs Nin, em
The Diary of Anais Nin, Vol. 4: 1944-1947

via

A visão dinâmica de Nin encontra ressonância com a pesquisa do filósofo Julian Baggini que, no livro The Ego Trick: The Search of the Self, afirma:

“O tópico da identidade pessoal a rigor é não-existente. É importante reconhecer que não somos o tipo de coisas que simplesmente aparecem no nascimento, continuam a existir, sempre as mesmas, daí morrem na beira do abismo ou vão para algum outro reino. Nós somos essas notáveis coleções de coisas ordenadas. Devido a sermos tão ordenados é que somos capazes de nos pensar como pessoas singulares. Mas não há aí nenhuma pessoa singular, o que significa que estamos mudando para sempre.”

Ralph Waldo Emerson, citado em A General Theory of Love, descreve o fenômeno da identidade pessoal com palavras mais coloridas:

“O sonho nos entrega ao sonho, e não há fim para a ilusão. A vida é um comboio de humores como um colar de contas, e, ao passar por elas, provam ser muitas lentes coloridas que pintam o mundo ao modo de cada matiz…”

O Príncipe e o Mago

Era uma vez um jovem príncipe, que acreditava em tudo, exceto três coisas. Não acreditava em princesas, não acreditava em ilhas, não acreditava em Deus. Seu pai, o rei, disse-lhe que tais coisas não existiam. Como não havia princesas ou ilhas nos domínios do pai, e nenhum sinal de Deus, o príncipe acreditou no pai.

Um dia, porém, o príncipe fugiu do palácio e dirigiu-se ao país vizinho. Lá, para seu espanto, viu ilhas por toda a costa, e nessas ilhas viu criaturas estranhas e perturbadoras, às quais não se atreveu a dar nome. Quando estava procurando um barco, um homem vestido de noite dele se aproximou na beira da praia.

– Estas ilhas são de verdade? – perguntou o jovem príncipe.
– Claro que são ilhas verdadeiras – disse o homem vestido de noite.
– E aquelas estranhas e perturbadoras criaturas?
– São todas autênticas e genuínas princesas.
– Então, também Deus deve existir! – bradou o príncipe.
– Eu sou Deus – replicou o homem vestido de noite, com uma reverência.

O jovem príncipe retornou a casa tão depressa quanto pôde.

– Então, estais de volta – disse o pai, o rei.
– Vi ilhas, vi princesas, vi Deus – disse o príncipe num tom reprovador.

O rei não se abalou.

– Não existem ilhas de verdade, nem princesas de verdade, nem um Deus de verdade.
– Eu os vi!
– Diga-me como Deus estava vestido.
– Deus estava vestido de noite.
– As mangas de sua túnica estavam arregaçadas?

O príncipe lembrou-se que estavam. O rei sorriu.

– Isso é o uniforme de um mago. Você foi enganado.

Com isto, o príncipe retornou ao país vizinho e foi para a mesma praia, onde mais uma vez encontrou o homem todo vestido de noite.

– Meu pai, o rei, contou-me quem és – disse o príncipe indignado. – Tu me enganaste da última vez, mas não o farás novamente. Agora sei que estas não são ilhas de verdade, nem aquelas criaturas são princesas de verdade, porque tu és um mago.

O homem da praia sorriu.

– És tu que estás enganado, meu rapaz. No reino de teu pai existem muitas ilhas e muitas princesas. Mas tu estás sob o encanto de teu pai, logo não podes vê-las.

O príncipe, cabisbaixo, voltou para casa. Quando viu o pai, fitou-o nos olhos.

– Pai, é verdade que tu não és um rei de verdade, mas apenas um mago?

O rei sorriu e arregaçou as mangas.

– Sim, meu filho, sou apenas um mago.
– Então, o homem da praia era Deus.
– O homem da praia era outro mago.
– Tenho de saber a verdade, a verdade além da magia.
– Não há verdade além da magia – disse o rei.

O príncipe ficou profundamente triste.

– Eu me matarei – disse ele.

O rei, pela magia, fez a morte aparecer. A morte ficou junto à porta e acenou para o príncipe. O príncipe estremeceu. Lembrou-se das ilhas belas mas irreais e das princesas belas mas irreais.

– Muito bem – disse ele -, eu aguento com isto.
– Vê, meu filho – disse o rei -, tu, também, agora começa a ser um mago.

(Reproduzido de The Magus, por John Fowles, Dell Publishing Co, Inc.; pp. 499-500)