Contadores de história?

Andrew Stanton acredita que em meio ao movimento das histórias, há constâncias. Uma dessas constantes é a propensão humana para preencher espaços.

Segundo Elif Shafak, as histórias proporcionam um senso de centralidade, continuidade e coerência – uma espécie de cola existencial. Contudo, podem perder sua magia quando são vistas como mais do que histórias.

Para J.J. Abrams, o catalisador da imaginação é o mistério. Em cada história, uma pergunta fundamental e provocante atrai a atenção como uma caixa misteriosa.

E há um link para uma videobiografia de Alan Moore, onde o autor descreve os impulsos que se fazem expressar por meio das histórias.

Decoradores?

“A estratégia vital da ideologia capitalista é nos persuadir de que nossos interesses individuais estão sempre em contraposição aos interesses dos outros. Ganância é bom, a virtude do egoísmo, a competição é saudável, todo este lixo. Para Badiou, o problema há muito tem sido o de que nós podemos ver a verdade, e nos recusamos a introduzi-la em nosso Mundo. Nós podemos nos tornar sujeitos reacionários ou obscurantistas. Podemos ter interesses individuais que se contrapõem a verdade, por exemplo, se minha riqueza pessoal deriva de acumulações, a verdade que o capitalismo necessariamente requer a pobreza e a opressão da maioria da espécie humana e a destruição do planeta é contrária ao meu interesse pessoal. Eu responderia negando essa verdade (o reacionário) ou insistindo que o capitalismo é eterno e tem existindo desde que há humanos, que a base dos dois primeiros humanos interagindo é a existência universal do valor de troca (o obscurantista). É difícil motivar alguém que colhe todo o ganho de nossa estrutura social de que há qualquer vantagem em abandonar sua ideologia.”

 Tom Pepper, aqui

Monstros?

Estes são tempos memoráveis. Naturalmente, serão esquecidos. Mas, por hora, importa que estes sejam tempos interessantíssimos. Não se pode espirrar na China sem desencadear uma Belo Monte no Brasil. O mundo encolheu. As culturas entram em contato umas com as outras a uma velocidade vertiginosa. Elas se devoram, se misturam, sofrem, cooperam, emergem renovadas, se transformam…

O corpo de conhecimento acumulado é tremendo. Não apenas somos capazes de domar a força do vapor como de concentrar a luz em um feixe de laser. Descobrimos que aquelas histórias que pensávamos ser exclusivamente nossas já tinham sido contadas por povos remotos. Acordamos para uma interdependência radical cuja lógica põe em xeque reis de todos os tabuleiros. O mundo linear e progressista, positivista e otimista projetado por muitos agora precisa de muros altos, cercas elétricas, estados policiais e destruição para prosperar.

Não são tempos fáceis para as mentalidades cartesianas, retinhas e fundamentalistas. As réguas não apenas podem ser dobradas, mas descartadas de acordo com insuspeitas conveniências e inconveniências . Os seres humanos capazes de criar arte também constroem caveirinhas e caveirões, mísseis teleguiados e campos de concentração. Nossos melhores intelectos irão usar o poder de suas imaginações não apenas para liberar as pessoas do sofrimento, mas para conduzi-las de cárceres grosseiros aos mais sutis.

Já não é possível distinguir com clareza campos opostos, especialmente quando pessoas de bem são capazes das mais cavilosas vilanias. Para usar uma imagem de Clemente Nóbrega, talvez sejamos Flintstones às avessas. No desenho, os Flintstones eram personagens modernos vivendo em um tempo jurássico. Mas – você vê televisão, não vê? – nós parecemos mais com personagens jurássicos vivendo em tempos hiper-modernos. Bestas com maletas nucleares, trajados com finesse para a festa de gala do genocídio silencioso que ocorre bem debaixo de nossas ventas. Ah, os pequenos frascos!

Paradoxalmente, através das agruras podemos despertar. E a sensação insuportável de andar sobre a lava de um chão que se esgarça pode ser a causa de uma nova atenção. É possível agarrar cadáveres. Todos sabem disso. Mas também é possível aprender. E desaprender e atualizar. É possível honrar os velhos sem se tornar caquético. Não se trata de reproduzir o passado. Trata-se de habitar o espírito de curiosidade e renovação daqueles homens e mulheres. Todos sabem: nossas forças com frequência se transformam em nossas maiores fraquezas. Portanto, atenção! Suas fórmulas podem não ser a definitiva panacéia. Pelo contrário, podem até mesmo ter se transformado em asfixia. É com atenção − preste atenção −, e com atenção apenas, que se pode ouvir a natureza de suas consistências.