Formosuras?

“Os verdadeiros problemas muitas vezes se expressam por meio de paradoxos, e é impossível  resolvê-los. Deve-se encontrar um equilíbrio entre aquilo que tenta ser puro e aquilo que se torna puro através de sua relação com o impuro. Assim, pode-se constatar até que ponto é inviável a existência (…) que teima em permanecer à margem da rude textura do mundo.

… Toda forma, uma vez criada já está moribunda. (…) Uma forma magnífica não é necessariamente o veículo apropriado para transmitir uma experiência de vida quando o contexto histórico se modifica.

Em termos gerais, podemos concluir que a tradição, no sentido que damos à palavra, significa “imutabilidade”. É uma forma imutável, mais ou menos obsoleta, reproduzida por automatismo. Existem raras exceções, como no caso em que a qualidade da antiga forma é tão extraordinária que ainda hoje preserva sua vitalidade, como certas pessoas muito velhas que permanecem incrivelmente vivas e comoventes. No entanto, toda forma é mortal. Não há forma, inclusive a nossa, que não esteja sujeita à lei fundamental do universo: a lei do desaparecimento. Toda religião, todo conhecimento, toda tradição, toda sabedoria supõem nascimento e morte.

Nascimento é assumir uma forma, quer se trate de um ser humano ou de uma frase, palavra ou gesto. (…) Todos têm seus ciclos, e o mesmo ocorre com as ideias e com as memórias.

(…) Chegamos assim ao âmago da questão: na vida, nada existe sem forma. A todo instante, especialmente quando falamos, somos forçados a procurar a forma. Mas devemos ter em mente que essa forma pode ser um obstáculo total à vida, que não tem forma em si mesma. (…) A forma é necessária, porém não é tudo.”

— Peter Brook, em
A Porta Aberta

Contadores de história?

Andrew Stanton acredita que em meio ao movimento das histórias, há constâncias. Uma dessas constantes é a propensão humana para preencher espaços.

Segundo Elif Shafak, as histórias proporcionam um senso de centralidade, continuidade e coerência – uma espécie de cola existencial. Contudo, podem perder sua magia quando são vistas como mais do que histórias.

Para J.J. Abrams, o catalisador da imaginação é o mistério. Em cada história, uma pergunta fundamental e provocante atrai a atenção como uma caixa misteriosa.

E há um link para uma videobiografia de Alan Moore, onde o autor descreve os impulsos que se fazem expressar por meio das histórias.

Auto-engano?

colagem Mario Wagner

“Mundo das Dez Mil Coisas”, eles diziam. Hoje, dez vezes dez mil coisas são encontradas num diminuto pen-drive.

O corpo humano é frágil. Os bebês mal podem andar sobre as duas pernas. Alimentados, protegidos, amados e instruídos – se tudo der certo –, estão sob a constante ameaça da morte.

Tememos a indiferença. O abandono ameaça o viver. Assombrados pelo sussurro da inexistência, gritamos, esperneamos, chamamos a atenção. “Olhe papai”. “Veja mamãe”.

Propelidos pelo impulso de existência, afirmamos uma defesa.  Colecionando conteúdos, inferimos um colecionador. Contamos a história de nossa seleção de histórias.

O modelo famoso, pergunte a ele o que aconteceu quando passou a andar sobre uma cadeira de rodas. Pergunte a si o que aconteceu quando descobriu novos brinquedos.

Dotados de um penetrante instinto de aprender, instituímos escolas, professores, disciplinas, técnicas… Capazes de penetrar truques, e ainda hábeis em enganar a percepção.

criação de Fabio La Fauci e Daniele Sigalot

Maquiagens, plásticas, auto-confiança, hipertrofias, vitimizações, cinemas, carros, máscaras… E já que podemos aprender, descobriremos as sutilezas das maiores grosserias.

Com quantas maneiras você vê o mundo e a si? Jóia de realizar desejos ou matagal de espinhos? Trampolim ou sonho? Corpo? Probabilidade?

Vemos o mundo de uma maneira e não de outra? Por causa de nossas premissas? Por força de nossas dores? Por razão de ausências e legados? Como se faz para manter um ídolo?

Ídolo: objeto capaz de influenciar todos os demais objetos sem, contudo, ser influenciado ele mesmo pelos objetos que influencia.

O radical da ecologia – não bem uma novidade – é a exibição de um mundo interdependente. O que é você sem o sol sem você sem amigos sem supermercado sem saúde sem clareza?

As tiranias íntimas e coletivas dependem de um inimigo. Os tiranos dependem de ídolos. Suas polarizações dependem do medo e da ganância do rebanho emaciado que lhes confere poder.

Somos abertos, sentimos dor. Podemos ser feridos, tentamos nos proteger. Morremos, cultivamos medicinas. Curiosos, inventamos telescópios e microscópios.

Aprendizes, elaboramos visões. Estão aqui, na pauta das conversas, nos pronunciamentos dos economistas, dos sacerdotes e dos militares. Sagazes, investigaremos a natureza das visões.

Se as visões fossem absolutas, como poderiam ser refutadas, desconsideradas, depreciadas, esquecidas, estupradas, distorcidas, remixadas, compartilhadas, abandonadas ou dissolvidas?

Veja o mundo pelos olhos de uma abelha. Quantos centímetros tem o olhar antropocêntrico? Por bondade, observe o mundo pelos olhos daquelas que virão seis gerações após sua morte.

A história não está morta. O fim da história não é um estado de resignação onde tudo já está equacionado e você só precisa se enquadrar naquilo que os outros acham ser o seu lugar. Não.

O fim da história é uma possibilidade que você, enquanto criador e criatura de sua própria mitologia, tem de se liberar de toda a bagagem que tem carregado em sua mentecoração.

O fim da história é o poder de mudar de rumo, escapar ao rumo, deixar os ciclos, adentrar por própria clareza a garrafa do enredo, e ir além, diretamente além do medo e do auto-engano.

Ouroboros?

a partir de Buddha Buzz,
por Vajraclown

Do Afeganistão, notícias budistas: “A batalha pelos Budas”. Arqueólogos na Montanha de Cobre estão correndo contra o prazo dado pelos chineses para dinamitar o local de templos e relíquias budistas, e construir “a maior mineradora de cobre do mundo fora da África”. Aí está o arqueólogo Abdul Qadir Temory diante de Mes Aynak, na Montanha de Cobre, onde as ruínas de 1.400 anos serão demolidas no início das obras da mineradora chinesa:

imagem: Alex Rodriguez, LA Times

Buscadas para falar sobre a iminência de demolição, as ruínas preferiram desconversar. Cada monte de areia desinformava isso e aquilo. Experiências e sentimentos contraditórios foram apresentados pelos tijolos de cobe das construções – tudo aparentemente levando para lugar nenhum. Depois de duas tentativas fracassadas de conversar com a liderança das ruínas, uma estátua de dois braços, continuamos sem resposta.

Chamadas a testemunhar qualquer informação que pudesse desvendar os desencontros das ruínas e o silêncio da estátua de dois braços, as estrelas do céu norturno responderam com fogos de artifício, sorrindo entre si. O sol contentou-se a emitir um melancólico vento solar sobre a questão das ruínas em Mes Aynak. Há uma grande sensação de descaso também por parte da lua, que em público telegrafou : “Ciclos”.

Durante nossa estadia na Montanha de Cobre, conversamos com alguns bichos locais, entre os quais a coruja, uma velha ave que afirma habitar aquela área por mais de 2 milanos. Perguntada sobre o valor histórico das ruínas, a coruja resumiu-se a um piu. Posteriormente, ao ser questionado sobre a importância da mineradora para a economia da região, um grilo espantosamente verde respondeu “Quem?”.

No terceiro dia, a montanha resolveu falar. Seu prognóstico, dado pelos chineses: ser explodida aos pedaços e triturada a céu aberto. Quando encontramos a montanha, ela estava envolta em um nevoeiro. Aos seus pés, Cobre brincava com algumas energias. “Pesadelos perseguem os sonhos de Cobre”, relatou a montanha.  “Encontro-o transtornado por imagens de consumo e cadeias de produção e desperdício”.

O gestor chinês da mineradora garantiu à reportagem que a montanha não sentirá dor alguma: “Vejam, é um mineral. Nós aqui estamos trabalhando por um país sustentável. Sem esse cobre certamente algo terrível acontecerá. Portanto, é uma questão de segurança nacional e temos orgulho dessa grande obra, que é a maior mineradora de cobre do mundo fora da África”.

O governo chinês estima que a mina de Mes Aynak renderá até 45 bilhões de sonhos.

“O local é muito importante porque era um grande hub da Estrada da Seda”, apontou um arqueólogo francês enquanto limpava pedaços de budas esculpidos por gregos de Alexandre o Grande. Quarenta arqueólogos trabalham para transferir a tempo as peças budistas para um futuro conservatório.

Há quem diga que o evento representa um conflito cultural por causa de interesses comerciais. Não parece fazer qualquer sentido, pelo menos para os interesses comerciais, que divulgaram nota onde afirmam que “não há conflito, apenas alguns baderneiros desocupados com caras chatas”. Ao saber disso, o conflito cultural caiu em prantos, vaticinando a própria morte.

Antes de deixarmos o sítio, arruinados pela sensação de tranquilidade dos arcos condenados pelos Médios, conseguimos registrar em fotografia os raros Bye Budas:

Bye Budas em Mes Aynak, sul de Kabul, Afeganistão