Cérebro em chamas?

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Nossos filhos?

foto Ana C. Barcalla

Aqueles de vocês que já tiveram filhos sabem. Se já tiveram a fortuna de cuidar de filhotes sabem: eles não são nossos. Eles não respondem ao nosso comando sempre que desejamos. Eles crescem e se tornam… eles, elas, it.

Nós que somos mães sabemos bem. Nossos filhos não são nossos. Falamos a eles e somente uma parte de nossos ‘ensinamentos’ permanece com eles. A outra parte sai pelo ouvido – sem ser integrada – do mesmo modo que adentrou.

Nós que somos pais sabemos. Nossos filhos são surpreendentes. Frustram frequentemente nossas expectativas. Fazem o contrário. Dão com o que consideramos errado. Bolam problemas. Aparecem como desafios.

Nossos filhos não são nossos. E apesar de nós, morderão as pernas de nossos amigos. E dirão o que não pode ser dito. E latirão no alto da madrugada! Elas andarão por si mesmas, deixando-nos a ver navios. E talvez tenhamos que invocar: “Não enquanto estiver sob o meu teto!”.

E essa invocação não será necessariamente porque somos egoístas, e o teto é só nosso. Não. Invocaremos essa frase por desespero, porque amamos e nunca nosso teto estará indisponível para eles ou elas. E por que estaríamos desesperados ao ponto de invocar um tal argumento?

Porque temos a memória e a experiência que nossos filhotes não têm [no tocante a esse X assunto]. Sabemos da invisibilidade da letal eletricidade. Temos a vivência da humanidade que a ingenuidade desconhece ou desconsidera. Por amor, iremos invocar a mais irada das máscaras.

De modo geral, todos nós temos alguém em alta conta. Essa capacidade de valorização é familiar, e frequentemente se manifesta através de nossas mães, pais, filhotes, amigos…

O que não aprendemos na escola é que essa capacidade é plástica. Até recentemente acreditávamos que o cérebro era imutável. Hoje em dia sabemos que o cérebro é dotado de uma qualidade chamada de neuroplasticidade.

O mesmo pode ocorrer com a atenção, apesar da grande maioria de nossos professores nunca ter citado que nossa atenção pode ser treinada para se reprogramar, do mesmo modo que os halterofilistas fazem com os músculos.

Se nossa atenção pudesse penetrar as aparências, o que seria visto? Nossos filhos seriam vistos tais quais são? Haveria abertura para recepcionar as insistentes dissonâncias que emergem como dificuldades no decorrer não de nossas vidas, mas de um simples dia?

Poderíamos lidar melhor com o fato de que nos carregamos e a todas as nossas expectativas de sucesso e aceitação? Talvez pudéssemos ter uma mente espaçosa o suficiente para sorrir para a claustrofobia…

Mas não sabemos. Porque nossos filhos são nossos. Assim como somos nós de nós mesmos. E tudo parece ser de algum modo nosso. A cozinha, nossa. Nossos filhos, nossos. A dor, nossa. Quem somos, nosso. Nossa história, nossas ideologias, nós, tudo nós, tudo nosso, a partir da fração.

Tanta insegurança só pode temer a dissonância, a ocorrência do inesperado e, por fim, a morte e a dor: da perda; da transformação de nossas ideologias e pesadelos em realidade. E daí manter ou lutar, assegurar ou evitar, ou simplesmente dar-se conta da insatisfação de comer doze potes de Nutellla.

Nossos filhos não são nossos. Eles crescerão e assumirão a experiência de ser quem são. Assim como nós, apesar das melhores aspirações de nossos pais, amigos e augustos protetores. De certa forma, ser é uma tremenda maldição.

Somos, e daí haverá espaço para a criatividade? Ser, e haverá espaço para a impermanência? Ou estaremos crédulos de que somos o que somos, projetos acabados? E assim até a morte?

Um pouco de atenção para penetrar a pele, os títulos, as categorias e as intenções. Um pouco de atenção para liberar a função pela qual fazemos o que fazemos. Um pouco de atenção para ver nossos filhos pelo que são. E ir além; e voltar, talvez sem nunca ter ido…

Que as crianças possam criar. Que suas espantosas criações assombrem nossos apegos a modelos acabados. Que elas nos liberem de nosso totalitarismo. Que elas despertem em nós lágrimas e sorrisos oceânicos.

Policentrismo?

ilustração Cayce Zavaglia

“(…) Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.(…)”

– David Foster Wallace, via
Ricardo Lombardi