Ponto cego?

Viver dói. O risco de extinção é comum a todos. Mesmo fatos auspiciosos podem ser como cercos. As pessoas, por exemplo. Tipo, hoje em dia.

O que as pessoas chamam de felicidade são meros intervalos. O que há entre os intervalos? Dor. Por assim dizer, “na luta”.

As pessoas lutam para manter sua dignidade. Lutam para manter seus gostos. Lutam para saldar suas dívidas. Lutam para se divertir. Lutam para pensar. Lutam para morar. Lutam para relaxar.

Viver dói. As maiores indústrias, todas prometem alguma forma de alívio: Anestésicos, sadomasoquistas, produtos orgânicos, biotecnologias, devoções, governos.

As pessoas se embruxam por qualquer coisa. Elas se fingem de machucadas. Manipulam a atenção alheia. Fazem-se de desentendidas. Levam vantagem. Falam astuciosamente.

O alheio pressupõe o familiar. O conhecimento das pessoas reflete seletividade. Quer ver? Conte os diferentes estados de consciência e as inteligências. Some ao número de emoções.

Não confunda ideologia por ontologia. Um erro clássico é atribuir verdade absoluta ao que é uma preferência. Faculdade das pessoas: embarcar em suas próprias fantasias.

O intervalo entre o berço e o túmulo demarca o sobreviver e o procriar. Vê-se isso: na “luta” cotidiana das pessoas; na tradicionalidade de suas instituições.

O bebê humano aprende a enganar antes mesmo de falar. Para satisfazer os próprios desejos, afirma sua vontade, atrai a atenção e manipula reações.

Vamos do exagero à manobra divisionária, indo pela meia-verdade, omissão sutil e distorção. “Quantas intenções viciosas há (…) numa frase inocente e pura!”

As pessoas alucinam. Elas veem coisas onde não há coisas. Elas se desmentem. Sonham acordadas, maquinando fabulações, cárceres do envisionar.

A tragédia da confiança sincera tem exemplos de grandes proporções, dentro e fora de casa.

Encruzilhado?

O velho Cherokee olha para o menino e diz: “Há uma luta acontecendo dentro de mim. É uma batalha terrível entre dois lobos.” O menino olha para o velho, curioso. “Um dos lobos é maldoso, raivoso, invejoso, arrogante, ganancioso, cheio de resentimento, auto-piedade, orgulho e egoísmo.” O menino fraze os lábios. O velho continua: “O outro lobo é bondoso, pacífico, generoso, benevolente, digno, humilde e confiante.”

O menino pensa por instante, e pergunta: “Qual deles irá ganhar?” E o velho Cherokee responde: “Aquele que for alimentado.”

Gato-gorila?

por Vajraclown
Glenn Brown

“O fundamento do amor reside na plena compreensão mútua”, diz o gato de Soseki. Natsume Soseki. O gato ainda não tem nome. O felino mia: “É da natureza de todo ser humano encher-se de empáfia e ufanar-se da própria autoridade.” Esse gato é um gorila!

Ismael é o nome do gorila. Todos sabem a situação dos gorilas. Estão cercados. O que nem todos sabem é que há contadores de histórias entre os gorilas. Há grandes fêmeas gorilas tecedeiras comentaristas. E também entre os gatos, naturalmente, há legendários artistas da contação.

As histórias dos gatos e gorilas narram casos familiares de sua espécie. Mitos pessoais e coletivos ambientados num cenário de convivências e interesses. Acima de tudo, suas mitologias protejam uma espécie de senso comum auto-referente. O que isso significa?

Os gatos contemplam os gorilas como gorilas. Os gorilas apenas raramente contemplam felinos. Gatos e gorilas, na história dos seres humanos, são meras notas de rodapé de almanaque – salvas notáveis exceções. Os espadartes contemplam ciborgues humanóides predadores em obscura verbete de seu vasto expressilário críptico.

O cânon de Cobalto Cromo. Raramente fala-se sobre essa pequena enciclopédia da natureza dos verbos. Por que um transverso oceânico é desconhecido de tantos intelectuais? Estão em pontes diferentes da lenda. Rezalenda.

Em nenhum momento, em sua autobiografia, o gato gorila de Soseki refere-se ao cânon de Cobalto Cromo. Não espanta. O cânon é um lume desconhecido. Entre as fêmeas gorilas tecedeiras comentaristas, Remi Mugarh é a única a citar (em seu clássico Sequência de Mirabolices) o “legendário cânon desconhecido”.  Diz Mugarh: “Cobalto Cromo reúne verbos de toda natureza e tempo. Na entrada ‘Adentrar’ registra: ‘Espaço’.”

Ao buscar o Vasto Mínimo Comentário Inflamável (VMCI), de M. Sinoide, deparamos com uma notinha: “Acerca do CCC: Que espaço há para adentrar?” Contudo, entre os Sinoideanistas, não há consenso acerca do significado da sigla. Moroidas (Krun, código de barras, mire ali) defende que a sigla deve ser traduzida por: “Campo Conflituoso Cco”. Para Gerais (Ama, logo ali, interjeição), a sigla significa: “Convite Chuvoso do Corisco”. Permanece sigla cujo status é de incerteza aberta.

Notícias da fronteira, estação Olhos de Barravento.

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