Esforço neurótico?

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Volte-se?

Essa história começa com um encontro de cem monarcas. Cada um deles havia conseguido criar e manter as condições para a vitalidade de seus reinos, cujos habitantes eram prósperos e felizes.

Durante o reencontro usaram de sua clarividência para ver além do alcance de seus reinos e conferiram que seus mundos mais pareciam ilhas de bem-aventurança num oceano de miséria.

Visionários, previram que era uma questão de tempo até que os habitantes de seus reinos fossem afetados por um tal estado de iniquidade.

A história prossegue contando como esses monarcas manifestaram uma panacéia de soluções temporárias e últimas, acessíveis a todos os seres.

Qual critério poderia ter sido utilizado por eles para alentar a ideia de que os habitantes de seus reinos estavam sob ameaça?

“Nenhum homem é uma ilha”, ouvimos dizer. Um homem não nasce do nada. Ele é um todo-parte. Ele nasce de uma mulher e depende dos minerais, vegetais e animais para sobreviver. Ele depende do sol.

Um homem depende da cultura e de todas as histórias e legados disponibilizados para ele por todos os ancestrais. Ele depende do corpo e do coração. Ele depende da educação, e até de salários. E de mais?

O critério da interdependência básica que parece irmanar todos os seres e fenômenos pode ter sido utilizado pelos cem monarcas para antever que suas ilhas não eram imunes ao movimento oceânico.

Acompanhamos uma crescente insatisfação com os modelos político-econômicos hegemônicos em países como Síria, Egito, Chile, Espanha, Grécia e Inglaterra. Quem são os insatisfeitos?

Os insatisfeitos são aqueles que têm fome. Do que têm fome? De valores, de comida, de dignidade, de espaço, de direitos, de cultivo, de trabalho, de liberdade, de sentido…

 Žižek observa que vivemos em uma sociedade que reforça o ideal da liberdade de escolha, mas que, na prática, apresenta apenas duas opções: viver segundo as regras ou a violência.

Todos nós temos uma dignidade, isto é, uma vontade de ser. A publicidade abusa desse direcionamento. Percebemos que todas as propagandas atuais têm um alvo: você.

Confundimo-nos uns aos outros com nossas ideias de que a afluência de prazeres sensoriais (incluindo pensamentos) pode realmente nos elevar da miséria. Contudo, quanto mais temos, mais carentes somos.

Com Marx sabemos o papel estruturante da materialidade. A fome de um faminto não é de abstração intelectual. Com Maslow aprendemos que as necessidades sociais e fisiológicas interdependem.

O desejo quer ser saciado, mas sua fome não tem fim. Num planeta com recursos finitos, uma sociedade baseada numa economia de infinita geração de desejos ruirá.

Os atuais levantes populares são a ponta de um iceberg. Eles são baseados em um crescente descontentamento com a iniquidade e a opressão. Contudo, os revoltosos irão substituir uma ditadura por outra?

Há muito se sabe que tomar o poder pela força e pelo número é quase sempre a parte mais fácil. O mais difícil tem sido pensar governos plurais e sustentáveis, transparentes e não-violentos.

Como lembra marimessias, “talvez as grandes revoluções, que acabam sendo a imposição de uns sobre outros (…) estejam perdendo espaço.” O que fazer quando nossas vacas sagradas caducam?

Os seres humanos se gabam de ser inventivos. Que urgente tempo favorável o momento presente para demonstrar isso.