Férias do barulho?

“O turista [de hoje], também ele, cumpre um dever. Há algo masoquista em comer a comida local, fazer esportes radicais, tolerar aquele calorão. O mundo do trabalho, é claro, já invadiu seu paraíso: é preciso acordar cedo, é preciso comer não sei o quê, é preciso, é preciso. O pacote que contratou agora o persegue.”

— Nuno Ramos, em
O Turista Infeliz

via

Contadores de história?

Andrew Stanton acredita que em meio ao movimento das histórias, há constâncias. Uma dessas constantes é a propensão humana para preencher espaços.

Segundo Elif Shafak, as histórias proporcionam um senso de centralidade, continuidade e coerência – uma espécie de cola existencial. Contudo, podem perder sua magia quando são vistas como mais do que histórias.

Para J.J. Abrams, o catalisador da imaginação é o mistério. Em cada história, uma pergunta fundamental e provocante atrai a atenção como uma caixa misteriosa.

E há um link para uma videobiografia de Alan Moore, onde o autor descreve os impulsos que se fazem expressar por meio das histórias.

Realize-se ou se arrependa?

Bronnie Ware passou os últimos anos trabalhando como enfermeira para pacientes moribundos. Ela registrou as últimas epifanias dessas pessoas em um blog chamado Inspiration and Chai, a partir do qual ela escreveu o livro The Top Five Regrets of the Dying.

foto Sally Mann

Os cinco maiores arrependimentos antes de morrer:

1. Gostaria de ter tido coragem de viver de acordo comigo mesmo, não de ter vivido de acordo com as expectativas alheias.

“Este foi o arrependimento mais comum de todos. Quando as pessoas se dão conta de que suas vidas estão quase no fim e olham para trás com clareza, é fácil perceber quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não honrou nem a metade de seus sonhos e teve que morrer sabendo que isso se devia a escolhas que fizeram, ou não fizeram. A saúde traz uma liberdade que poucos reconhecem, até que um dia ela passa.”

2. Gostaria de não ter trabalhado tanto.

“Esse [arrependimento] veio de cada um dos pacientea homens que eu cuidei. (…) Todos os homens que eu cuidei se arrependiam enormemente de ter gasto tanto de suas vidas no moinho de uma existência para o trabalho.”

3. Gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos.

“Muitas pessoas reprimiram seus sentimentos com o objetivo de manter a paz com os outros. Como resultado, eles arranjaram-se em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem elas eram verdadeiramente capazes de se tornar. Muitas desenvolveram doenças relativas ao amargor e ao ressentimento que carregaram como resultado [da auto-repressão].”

4. Gostaria de ter mantido contato com meus amigos.

“Frequentemente elas não iriam verdadeiramente perceber todos os benefícios dos velhos amigos até as semanas anteriores à morte, de modo que não era mais possível buscá-los. Muitos tinham se aprisionado tanto em suas próprias vidas que deixaram amizades de ouro escapar com o passar dos anos. Houve muitos arrependimentos profundos acerca de não dar o tempo e o valor devidos à amizade. Todos sentem falta de seus amigos quanto estão morrendo.”

5. Gostaria de ter me deixado ser mais feliz.

“Esse [arrependimento] é surpreendentemente comum. Muitos [pacientes] não se davam conta até o final de que a felicidade é uma escolha. Eles se mantiveram estacionados em velhos padrões e hábitos. O chamado ‘conforto’ da familiaridade inundou suas emoções, bem como suas vidas físicas. O medo da mudança os fez fingir para os outros e para si mesmos que estavam contentes quando, no fundo, ansiavam sorrir com propriedade e trazer a leveza de volta a suas vidas.”

via The Guardian
com Caos Ordenado

Tempo de compreender?

via Ponto Eletrônico

“Até pouco tempo, quando, numa família burguesa, uma filha engravidava antes do casamento, quando um jovem se drogava, ou quando se revelava homossexual, fechavam-se correndo portas e janelas, mentia-se fora e, se possível, dentro, para proteger a decência. A lógica do amor nos leva aos poucos para outros horizontes, outras atitudes, para lógicas de compreensão mais abertas e, por aí, mais coletivas. Quando uma família experimenta um acidente de percurso (ou, pelo menos o que ela percebe, com ou sem razão, como tal), no mais das vezes, hoje, ela se abre para novas sensibilidades, alarga o horizonte, mais do que o fecha. Por isso o privado se torna cada vez mais um fator de abertura para os outros, logo, para a esfera pública, e não o contrário.”

Luc Ferry, em
A revolução do amor

Monocultura?

via deviantart

“Um padrão governante que uma cultura obedece é uma história-mestra – uma narrativa em sociedade que domina as demais, diminuindo a diversidade e formando uma monocultura. Quando você está dentro de uma história-mestra em um período particular da história, você tende a aceitar a definição de realidade dela. Você inconscientemente acredita e atua em certas coisas, e desacredita e fracassa em agir em outras coisas. Esse é o poder da monocultura; ela é capaz de nos direcionar sem que nós saibamos muito sobre ela.

“(…) Uma monocultura não significa que todos acreditam exatamente nas mesmas coisas ou agem exatamente da mesma maneira, mas que nós acabamos compartilhando crenças-chave e assunções que direcionam nossas vidas. Porque a monocultura é grandemente deixada desarticulada até ser desalojada anos depois, nós aprendemos sobre suas fronteiras através de tentativa e erro. Nós, de algum modo, passamos a conhecer como anda a história-mestra, ainda que ninguém nos tenha dito exatamente o que a história é, ou quais são suas regras. Nós desenvolvemos um forte senso do que é esperado de nós no trabalho, em nossas famílias e comunidades – mesmo que por vezes escolhamos não corresponder a essas expectativas. Normalmente não nos perguntamos em primeiro lugar de onde essas expectativas surgem. Elas apenas existem – ou elas existem até que nos encontremos desejando que as coisas fossem de algum modo diferentes, apesar de não sabermos exatamente o que mudaríamos, ou como.

“(…) A vida independente começa com a descoberta do que significa viver ao lado da monocultura, dadas as circunstâncias particulares dela,  em sua vida e tempo particulares, o que não pode ser duplicado para mais ninguém. A partir de sua própria luta para viver uma vida independente, uma estrutura paralela pode eventualmente nascer. Mas o desenvolvimento e a visibilidade dessa estrutura paralela não é a meta – a meta é viver muitas histórias, dentro de um espectro ampliado de valores humanos.”

– F. S. Michaels, em
Monoculture