Polinização cruzada?

colagem Philipp Igumnov

“Agora sabemos o suficiente para saber que nunca saberemos tudo. É por isso que precisamos de arte: ela nos ensina como viver com o mistério. Somente o artista pode explorar o inefável sem nos oferecer uma resposta, pois algumas vezes não há resposta. John Keats chamou a esse impulso romântico de ‘capacidade negativa.’ Ele disse que certos poetas, como Shakespeare, tinham ‘a habilidade de permanecer nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem qualquer busca inflamada pelo fato e pela razão.’ Keats percebeu que só porque algo não pode ser solucionado, ou reduzido em leis da física, isso não significa que não seja real. Quando nos aventuramos para além da fronteira de nosso conhecimento, tudo o que temos é a arte.

Mas antes que possamos chegar a uma quarta cultura, nossas duas culturas existentes precisam modificar seus hábitos. Primeiramente, as humanidades devem sinceramente se engajar com as ciências. Henry James definia o escritor como alguém para o qual nada se perde; os artistas devem considerar seu chamado e não ignorar as inspiradoras descrições científicas da realidade. Todo humanista deveria ler Nature.

Ao mesmo tempo, as ciências devem reconhecer que suas verdades não são as únicas verdades. Nenhum conhecimento tem monopólio sobre o conhecimento. Essa simples ideia será a premissa inicial para qualquer quarta cultura. Como Karl Popper, um eminente defensor da ciência, escreveu: ‘É imperativo que desistamos da ideia de fontes últimas de conhecimento, e admitamos que todo conhecimento é humano; que ele está misturado com nossos erros, com nossos preconceitos, com nossos sonhos, e com nossas esperanças; que tudo o que podemos fazeré tentar a verdade mesmo que esteja além de nosso alcance. Não existe nenhuma autoridade além da busca pelo senso crítico.”

– Jonah Lehrer, em
Proust Was a Neuroscientist

Raias?

“Para compreender melhor as progressivas diferenças entre a ciência e a religião tudo o que alguém tem a fazer é ponderar quão frequentemente um livro sagrado muda com o tempo e compará-lo com a frequência com a qual um livro de química ou biologia é alterado ou modificado. Enquanto o primeiro pode mudar bem pouco, se muito, durante um posto período de tempo (por exemplo, o Corão, o Novo Testamento, o Gugu Granth Sahib), os últimos estão sob imensa pressão (de um conjunto de novas investigações e descobertas) para atualizar seus dados e descobertas ano a ano, se não mês a mês. Possivelmente, os reluzentes contrastes entre a religião e a ciência podem ser resumidos ao se olhar quanto cada uma delas admite estar errada e quão transparentes são em divulgar tais admissões, particularmente em relação a doutrinas centrais e teorias.

(…) A mais fundamental das observações pelas quais a ciência está constantemente nos lembrando é que o que pensamos é verdade pode não ser; daí convidar outras mentes a participar e co-verificar o que observamos pode conduzir a toda sorte de resultados imprevisíveis, desde a descoberta de novos planetas a novas medicinas. Mas a fim de permitir um entendimento participatório do universo (e não meramente nossa versão solipsista dele) somos solicitados àquela mais radical das coisas: devemos desejar confessar nossa própria ignorância e ansiar seguir as linhas de evidência para onde elas nos levam, mesmo que na jornada aconteça de inverterem nossas adoráveis ideias prévias ou verdades.

Como Richard Feynman, um dos arquitetos-chefe por trás da Eletrodinâmica Quântica, uma vez iluminou:

‘É na admissão de ignorância e na admissão de incerteza que se encontra a esperança de moto-contínuo dos seres humanos em alguma direção que não se confina, permanentemente bloqueada, como tantas vezes aconteceu em vários períodos da história do homem.'”

– David Christopher Lane, em
Gumby Land

Convergência?

ilustração: Mel Kadel 

“O problema é que agora estamos manuseando os instrumentos incrivelmente cirúrgicos da tecnologia com mãos trementes, e o que preocupava Huxley era que tal poder não pode ser manuseado construtivamente por homens ansiosos e alienados com uma atitude fundamentalmente hostil perante a natureza. Budistas Mahayana nunca tiveram nossa tecnologia; mas eles tinham arte, e a praticavam ao mais alto grau da perfeição (na China e Japão) como uma cooperação entre o homem e a natureza – de fato, como natureza em si. O que ocorreria se a mesma percepção – que a ciência pode ser um trabalho da natureza, e que o indivíduo é um corpo com seu ambiente – pudesse tornar-se o espírito informador da tecnologia Ocidental?”

– Alan Watts, em
Does it Matter?