Projeto Novo Recife?

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Cabeça vazia, oficina do diabo?

“Cabeça vazia, oficina do diabo.” Vejamos.

Por cabeça, compreende-se mente, visto que cabeça sem mente serve, no máximo, como alimento para vermes. Por oficina, local de atividade. A palavra diabo informa negativamente, por convenção, o termo vazio. Em suma, a frase sugere que: Se sua mente não está fabricando ela é comandada pelo diabo.

Diabo, contam as fábulas, é uma encarnação do mal. Portanto: “Se sua mente não está em atividade ela é comandada pelo mal.”

Às falhas.

1)  Oficina

Mente é atividade: do pensar, do sentir, do perceber e do ser. É giral de identificações, imagens, ecos, sonhos, contos, memórias, raciocínios, esforços, sentimentos, pulsões, etc., etc.

Se cabeça vazia é oficina do mal, cabeça cheia é a oficina do bem? Será? Vide: a) destruição dos ecossistemas de suporte vital; b) degradação sistêmica do tecido social; c) precariedade da cultura; e d) pandemia de psicopatias.

Os fenômenos elencados acima, notoriamente deletérios, são abastecidos e agigantados pela… atividade mental. Portanto, faz mais sentido afirmar: “Cabeça em atividade, oficina do diabo.”

2) Vazio

Em física, vazio é termo que se aplica à ausência de matéria, campos e radiação. Aqui a atuação do tal diabo está grandemente dificultada: uma cabeça vazia, por definição, não contém objetos e, portanto, sujeitos. A rigor, uma mente vazia é imune a diabos: não sendo uma entidade, não pode ser encontrada.

O termo vazio ainda designa o que não tem existência autônoma. Considerando que o diabo depende de suas vítimas, pode ser afirmado como vazio.

3) Diabo

Por depender de vítimas, o diabo tem autonomia relativa.

Os demônios – se existem – dependem dos pensamentos, sensações, percepções e consciência de suas vítimas. Por sua vez, tais faculdades dependem de um suposto sujeito que se identifica com elas e diz: “Isso sou eu”, assim à vante, por todos os elos da cadeia.

Se há um diabo, esse depende da mente. Mas a mente depende de alguém que se reduza ao ponto de se identificar com a atividade. Se há algo temível, provavelmente é a ignorância acerca da sereia que é a mente.

A frase “Cabeça vazia, oficina do diabo” fica, assim, exorcizada.

Decoradores?

“A estratégia vital da ideologia capitalista é nos persuadir de que nossos interesses individuais estão sempre em contraposição aos interesses dos outros. Ganância é bom, a virtude do egoísmo, a competição é saudável, todo este lixo. Para Badiou, o problema há muito tem sido o de que nós podemos ver a verdade, e nos recusamos a introduzi-la em nosso Mundo. Nós podemos nos tornar sujeitos reacionários ou obscurantistas. Podemos ter interesses individuais que se contrapõem a verdade, por exemplo, se minha riqueza pessoal deriva de acumulações, a verdade que o capitalismo necessariamente requer a pobreza e a opressão da maioria da espécie humana e a destruição do planeta é contrária ao meu interesse pessoal. Eu responderia negando essa verdade (o reacionário) ou insistindo que o capitalismo é eterno e tem existindo desde que há humanos, que a base dos dois primeiros humanos interagindo é a existência universal do valor de troca (o obscurantista). É difícil motivar alguém que colhe todo o ganho de nossa estrutura social de que há qualquer vantagem em abandonar sua ideologia.”

 Tom Pepper, aqui

Banksy e os publicitários

arte Banksy

É um mau sinal que os publicitários gostem de se conceder prêmios por sua ‘genialidade’ quando participam de um contexto que levou ao ápice o culto narcisista ao gênio individual? Não há nada de espantoso na autocongratulação publicitária.

Os profissionais da publicidade estão a serviço de muitos mestres, começando por seus próprios egos, passando por causas, ideologias e deleites estéticos. Singelos, beijam as mãos daqueles que puderem pagar mais por seus préstimos, como é comum a partida dos jogadores capitalistas.

Porque os publicitários, com todas as suas técnicas e pesquisas de comportamentos inspiradas pelo racionalismo, são uma invenção do capitalismo. A afirmação de que a publicidade sempre existiu, quando muito, pode ser considerada um auto-laudatório chiste.  Os meios publicitários e sua inclusão na disciplina de marketing são, sobretudo, uma invenção moderna. Previsivelmente, em sua busca por reflexos pavlovianos, as mensagens publicitárias estão focadas no indivíduo e na realização de uma felicidade objetiva e imediata, inspirada no hedonismo e possessividade.

Os publicitários são como grampos e alfinetes de uma maquinaria que está a serviço de valores específicos, entre os quais a sugestão de que o contentamento é impossível. Toda a parafernália publicitária de variações sobre o mesmo tema trabalha quase que exclusivamente sob a égide de valores inspirados num faminto consumismo de objetos descartáveis, relacionado a fenômenos como a pedagogia da distração, economia do antagonismo (e da escassez) e, evidentemente, controle social.

Cada vez mais são conhecidos os efeitos do modelo econômico subsidiado pelo mainstream pubicitário. No campo biológico, o esgarçamento e falência dos sistemas de suporte vital, com as decorrentes catástrofes sócio-ambientais que pipocam no noticiário, como Gremlins na chuva, quando não ao nosso lado. No campo social, uma ideologia de hipercompetição inspirada na maximização de vantagens individuais sob pena de ser devorado por outros tubarões de aquário. No campo psicológico, um impreenchível vazio, assolador e desconcertante, cujas drogas – legais e ilegais – não são capazes de satisfazer. No campo político, Estados reduzidos a vassalos de interesses corporativos cuja sobrevivência a qualquer custo é a teologia dominante.

Um crescente coro de questionamentos e insurgências avolume-se diante desse cenário, cuja promoção, em parte, deve-se aos artifícios dos publicitários. Há pouco, Banksy divulgou um breve manifesto onde escancara sua frustração.

Os publicitários, ele diz, “lançam comentários frívolos de ônibus implicando que tu não és sexy o bastante e que toda a diversão está acontecendo em outro lugar. Estão na TV fazendo tua namorada se sentir inadequada. Têm acesso as tecnologias mais sofisticadas que o mundo jamais viu e eles te intimidam com ela.” E ajunta: “À merda com isso. Qualquer anúncio em um espaço público que não te deixa escolha, tu tenha-o visto ou não, é teu. É teu para tomar, modificar e reusar. Tu podes fazer o que quiser com ele. Pedir permissão é como pedir que mantenha a pedra alguém que acabou de jogá-la na sua cabeça.”

Os publicitários são conhecidos por se apropriar de movimentos estéticos em sua severa fome por referências. Recentemente, buscaram refrescar sua linguagem utilizando a arte de rua como ornamento para seus sortilégios. Agora encontram um dos mais legendários representantes dessa forma contracultural de expressão diante deles, com uma lata de spray na mão e um rosto que não pode ser capitalizado.