Ponto cego?

Viver dói. O risco de extinção é comum a todos. Mesmo fatos auspiciosos podem ser como cercos. As pessoas, por exemplo. Tipo, hoje em dia.

O que as pessoas chamam de felicidade são meros intervalos. O que há entre os intervalos? Dor. Por assim dizer, “na luta”.

As pessoas lutam para manter sua dignidade. Lutam para manter seus gostos. Lutam para saldar suas dívidas. Lutam para se divertir. Lutam para pensar. Lutam para morar. Lutam para relaxar.

Viver dói. As maiores indústrias, todas prometem alguma forma de alívio: Anestésicos, sadomasoquistas, produtos orgânicos, biotecnologias, devoções, governos.

As pessoas se embruxam por qualquer coisa. Elas se fingem de machucadas. Manipulam a atenção alheia. Fazem-se de desentendidas. Levam vantagem. Falam astuciosamente.

O alheio pressupõe o familiar. O conhecimento das pessoas reflete seletividade. Quer ver? Conte os diferentes estados de consciência e as inteligências. Some ao número de emoções.

Não confunda ideologia por ontologia. Um erro clássico é atribuir verdade absoluta ao que é uma preferência. Faculdade das pessoas: embarcar em suas próprias fantasias.

O intervalo entre o berço e o túmulo demarca o sobreviver e o procriar. Vê-se isso: na “luta” cotidiana das pessoas; na tradicionalidade de suas instituições.

O bebê humano aprende a enganar antes mesmo de falar. Para satisfazer os próprios desejos, afirma sua vontade, atrai a atenção e manipula reações.

Vamos do exagero à manobra divisionária, indo pela meia-verdade, omissão sutil e distorção. “Quantas intenções viciosas há (…) numa frase inocente e pura!”

As pessoas alucinam. Elas veem coisas onde não há coisas. Elas se desmentem. Sonham acordadas, maquinando fabulações, cárceres do envisionar.

A tragédia da confiança sincera tem exemplos de grandes proporções, dentro e fora de casa.

Me engana que eu gosto?

A Copa do Mundo da FIFA é propagandeada como um evento capaz de gerar riqueza e empregos. Contudo, estudo (pdf, em inglês) realizado pela Human Sciences Reserch aponta que esses benefícios podem não passar de propaganda enganosa.

Em 1994, a Copa do Mundo prometia aos Estados Unidos um lucro de U$4 bilhões. Contudo, ao final do megaevento, teria gerado um prejuízo entre U$5,5 e U$9,3 bilhões.

O caso da Copa de 2010, na África do Sul, é emblemático. O evento da FIFA foi divulgado como um catalizador para melhorar a condição de vida das pessoas historicamente desfavorecidas. O que se viu, entretanto,foi um resultado diametralmente oposto. O número de postos de trabalho diminuiu em 4,7%, ou seja, 627 mil pessoas perderam seus empregos.

Um ponto crítico é a dívida que se cria ao se deslocar recursos públicos (que iriam para necessidades básicas) para estádios e obras de mobilidade que não necessariamente melhoram a vida dos cidadãos. Este pode ser justamente o caso das obras na cidade do Natal, para o Copa de 2014, no Brasil. Estima-se que o estádio faraônico construído para os jogos naquela cidade se transforme em um elefante branco, ao mesmo tempo em que os projetos de mobilidade não privilegiam o transporte público, além de ainda devastar o meio ambiente e a vida de várias famílias que correm o risco de ser desapropriadas de suas casas.

Violação de Direitos Humanos na Copa do Brasil

Outro fator preocupante na edição brasileira da Copa é a quantidade generalizada de abusos a direitos constitucionais, relacionados no dossiê “Mega-eventos e violação de Direitos Humanos no Brasil” (pdf), lançado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas.

Dentre outras violações ao Estado Democrático de Direito, os Comitês Populares reuniram casos de despejos irregulares, precarização do trabalho, exceções e ilegalidades, discriminações e privatização de recursos públicos, além de outras violências inaceitáveis.