Materialismo espiritual?

AGORA, SE VOCÊ interpretar esse texto assuma alguma responsabilidade. Boa fortuna.

Tomar as aparências como sólidas é uma das características do materialismo. Um materialismo cada vez mais comum é aquele conhecido por materialismo espiritual.

O materialismo espiritual acontece quando as ferramentas espirituais feitas para liberar a vítima do sofrimento tornam-se fonte de sofrimento adicional para a vítima.

Mais do que no sofrimento, as religiões são baseadas em ideologias sobre o que fazer com o sofrimento. Para onde esse sofrimento leva e por que é assim.

Atenção ao lidar com as marcas de fantasia. Não transforme símbolos em realidades últimas irreconciliáveis. Isto é como atirar no próprio pé.

Ambientes curativos pressupõe compreensão mútua mais do que arrogância, mais do que certeza absoluta, mais do que autoridade.

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Ponto cego?

Viver dói. O risco de extinção é comum a todos. Mesmo fatos auspiciosos podem ser como cercos. As pessoas, por exemplo. Tipo, hoje em dia.

O que as pessoas chamam de felicidade são meros intervalos. O que há entre os intervalos? Dor. Por assim dizer, “na luta”.

As pessoas lutam para manter sua dignidade. Lutam para manter seus gostos. Lutam para saldar suas dívidas. Lutam para se divertir. Lutam para pensar. Lutam para morar. Lutam para relaxar.

Viver dói. As maiores indústrias, todas prometem alguma forma de alívio: Anestésicos, sadomasoquistas, produtos orgânicos, biotecnologias, devoções, governos.

As pessoas se embruxam por qualquer coisa. Elas se fingem de machucadas. Manipulam a atenção alheia. Fazem-se de desentendidas. Levam vantagem. Falam astuciosamente.

O alheio pressupõe o familiar. O conhecimento das pessoas reflete seletividade. Quer ver? Conte os diferentes estados de consciência e as inteligências. Some ao número de emoções.

Não confunda ideologia por ontologia. Um erro clássico é atribuir verdade absoluta ao que é uma preferência. Faculdade das pessoas: embarcar em suas próprias fantasias.

O intervalo entre o berço e o túmulo demarca o sobreviver e o procriar. Vê-se isso: na “luta” cotidiana das pessoas; na tradicionalidade de suas instituições.

O bebê humano aprende a enganar antes mesmo de falar. Para satisfazer os próprios desejos, afirma sua vontade, atrai a atenção e manipula reações.

Vamos do exagero à manobra divisionária, indo pela meia-verdade, omissão sutil e distorção. “Quantas intenções viciosas há (…) numa frase inocente e pura!”

As pessoas alucinam. Elas veem coisas onde não há coisas. Elas se desmentem. Sonham acordadas, maquinando fabulações, cárceres do envisionar.

A tragédia da confiança sincera tem exemplos de grandes proporções, dentro e fora de casa.

Reunião de condomínio

via

A menina olhou para o homem e disse: — Porque vocês são otários, seus filhos irão sofrer. Quando seus filhos sofrerem, vocês irão para o inferno.

Não era com desdém que os olhos vítreos do homem fuzilavam a menina. Na sala, a inicial aparência de descontração transformara-se em tensão e mal-estar completos. Talvez fosse efeito da iluminação fluorescente, mas as faces das pessoas estavam pálidas,  lívidas. Por baixo das cadeiras, insinuava-se um cheiro de azedume.

A menina havia se sentado. Seus olhinhos fitavam o homem como um relâmpago fita um canavial. Após um suspiro, ela continuou:

— Era uma vez uma menininha melodramática no supermercado com a avó. Para chamar a atenção, cria uma ceninha histérica, aos berros e esperneando como uma danadinha. Do nada, pelo outro lado do corredor, aparece um homem. Decididamente, caminha até ela e, olhos nos olhos, diz: “— Que marra! Você já se esqueceu? Você não se lembra? Mal posso acreditar. Atenção!” A avó não entende patavina. A menininha olha-o de volta e sorri.  O homem vai embora.

Na sala, pode-se ouvir o silêncio ser pipocado por plocs (de bolhinhas estourando) e cracks (de rachaduras se abrindo) nas cabeças dos ouvintes. Após um instante, os pés de alguns voltam a tremelicar como britadeiras. Alguém pensa que vai tossir, mas é alarme falso. Tratava-se apenas da mais recém preocupação refazendo a reação de sempre.

Descontraindo os lábios ressequidos, o síndico propõe: — Todos a favor da remoção do problema para o mais longe possível digam “ni”.

— Niiii.

— A moção está aprovada. Acerta-se pela remoção do problema para o mais longe possível. Atar e executar.

Após uma breve pausa de estupefação, o síndico faz o último pronunciamento: — Boa noite.

As pessoas vão se levantando, caiadíssimas. Do confinamento em seus sorrisos botulínicos murmuram ares retesados. Enquanto isso, o síndico havia se aproximado da menina e já lhe dizia: — Porque sou um otário, levarei todos os que amo. Ralo abaixo.

Imediatamente após recitar aquelas palavras, o síndico foi chamado pelo homem que havia proposto a remoção do problema para o mais longe possível. O homem aproveitou para parabenizar o síndico pela condução das atividades e que esperava a execução da remoção do problema para o mais longe possível para amanhã mesmo. Até falou de uma empresa especializada em remover problemas para o mais longe possível.

Quando deixaram a sala para trás, esqueceram-se de apagar as luzes. Subiram pelos elevadores até suas celas, tendo ânimo para ligar os televisores nas novelas de modo que ouviam ladainhas enquanto ingeriram lá seus soníferos. Após algum tempo, dormiram. Foram mergulhando em sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos. Sequer podiam ouvir quando um trovão adamantino — raríssimo — ribombou como eco de um raio na hora mais escura da madrugada.

Depois da reunião

Cabeça vazia, oficina do diabo?

“Cabeça vazia, oficina do diabo.” Vejamos.

Por cabeça, compreende-se mente, visto que cabeça sem mente serve, no máximo, como alimento para vermes. Por oficina, local de atividade. A palavra diabo informa negativamente, por convenção, o termo vazio. Em suma, a frase sugere que: Se sua mente não está fabricando ela é comandada pelo diabo.

Diabo, contam as fábulas, é uma encarnação do mal. Portanto: “Se sua mente não está em atividade ela é comandada pelo mal.”

Às falhas.

1)  Oficina

Mente é atividade: do pensar, do sentir, do perceber e do ser. É giral de identificações, imagens, ecos, sonhos, contos, memórias, raciocínios, esforços, sentimentos, pulsões, etc., etc.

Se cabeça vazia é oficina do mal, cabeça cheia é a oficina do bem? Será? Vide: a) destruição dos ecossistemas de suporte vital; b) degradação sistêmica do tecido social; c) precariedade da cultura; e d) pandemia de psicopatias.

Os fenômenos elencados acima, notoriamente deletérios, são abastecidos e agigantados pela… atividade mental. Portanto, faz mais sentido afirmar: “Cabeça em atividade, oficina do diabo.”

2) Vazio

Em física, vazio é termo que se aplica à ausência de matéria, campos e radiação. Aqui a atuação do tal diabo está grandemente dificultada: uma cabeça vazia, por definição, não contém objetos e, portanto, sujeitos. A rigor, uma mente vazia é imune a diabos: não sendo uma entidade, não pode ser encontrada.

O termo vazio ainda designa o que não tem existência autônoma. Considerando que o diabo depende de suas vítimas, pode ser afirmado como vazio.

3) Diabo

Por depender de vítimas, o diabo tem autonomia relativa.

Os demônios – se existem – dependem dos pensamentos, sensações, percepções e consciência de suas vítimas. Por sua vez, tais faculdades dependem de um suposto sujeito que se identifica com elas e diz: “Isso sou eu”, assim à vante, por todos os elos da cadeia.

Se há um diabo, esse depende da mente. Mas a mente depende de alguém que se reduza ao ponto de se identificar com a atividade. Se há algo temível, provavelmente é a ignorância acerca da sereia que é a mente.

A frase “Cabeça vazia, oficina do diabo” fica, assim, exorcizada.

Me engana que eu gosto?

A Copa do Mundo da FIFA é propagandeada como um evento capaz de gerar riqueza e empregos. Contudo, estudo (pdf, em inglês) realizado pela Human Sciences Reserch aponta que esses benefícios podem não passar de propaganda enganosa.

Em 1994, a Copa do Mundo prometia aos Estados Unidos um lucro de U$4 bilhões. Contudo, ao final do megaevento, teria gerado um prejuízo entre U$5,5 e U$9,3 bilhões.

O caso da Copa de 2010, na África do Sul, é emblemático. O evento da FIFA foi divulgado como um catalizador para melhorar a condição de vida das pessoas historicamente desfavorecidas. O que se viu, entretanto,foi um resultado diametralmente oposto. O número de postos de trabalho diminuiu em 4,7%, ou seja, 627 mil pessoas perderam seus empregos.

Um ponto crítico é a dívida que se cria ao se deslocar recursos públicos (que iriam para necessidades básicas) para estádios e obras de mobilidade que não necessariamente melhoram a vida dos cidadãos. Este pode ser justamente o caso das obras na cidade do Natal, para o Copa de 2014, no Brasil. Estima-se que o estádio faraônico construído para os jogos naquela cidade se transforme em um elefante branco, ao mesmo tempo em que os projetos de mobilidade não privilegiam o transporte público, além de ainda devastar o meio ambiente e a vida de várias famílias que correm o risco de ser desapropriadas de suas casas.

Violação de Direitos Humanos na Copa do Brasil

Outro fator preocupante na edição brasileira da Copa é a quantidade generalizada de abusos a direitos constitucionais, relacionados no dossiê “Mega-eventos e violação de Direitos Humanos no Brasil” (pdf), lançado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas.

Dentre outras violações ao Estado Democrático de Direito, os Comitês Populares reuniram casos de despejos irregulares, precarização do trabalho, exceções e ilegalidades, discriminações e privatização de recursos públicos, além de outras violências inaceitáveis.

Midas?

Escuta, escuta as palavras que gostaria de falar. Escuta, antes. Antes das palavras, dos nomes, dos acessos e surtos, atenção.

Há alguma coisa em nós? Eu quero dizer, há alguma coisa de especial em você? Digamos que você vista certas roupas; digamos que você precise de certas providências. Digamos que você seja capaz de ler.

Quantas línguas você tem? Não é uma entrevista para emprego. Apesar disso, você está empregado? Quantos anos você tem? Como vai sua cadeia de suprimentos?

Bônus: Com quantos pesadelos se faz um sonho?

O que faz seu dia? Quantas calorias levam o seu estilo de vida? E por falar nisso, qual o seu índice de gordura espiritual? E para um check-up mais completo: qual seu coeficiente de escravidão conceitual?

Escuta, escuta as palavras que gostaria de falar. Você sabe da guerra civil no Bahren? Imagina se você tem nascido no Bahren! Você seria a Cleópatra? Ou talvez você prefira outra persona? Jabba, o Hutt, talvez? Tem muita saída!

Quando foi a última vez que você fez uma faxina no corredor de Feitiços & Encantamentos? Não me diga que você não se recorda dos cômodos de sua casa! Quais as chances?! Para sua conveniência, o que é conveniente para você?

Ainda no tema “Memórias”, qual conhecimento traumático não pode faltar em um castelo de cartas marcadas? E uma questão de design: o que você não está vendo?

Fim da linha, o tempo acabou.

Som? Testando som! Som! Ah!

Pedro + Walk&Talk

Um instante, mocinha!  Um momentinho. Não é mole não, boy! Nada mole. Um instante basta, fi. Está justificado. Em um momento está decidido. Calma, mãezinha. Alto, paizinho. Ôô!

Ó!

Não é mole atender todos os dias. Não é mole ser presidente da república. Nada mole governar. Não é mole não, o carnaval do Brasil. Acordar todo dia, todo santo dia, é mole? Ficar passado com a indiferença. Ter que pagar a injustiça. Morrer o que se ama. Não é moleza, chuchu. Todo mundo chora e geme. Há quem ranja! Mas há quem não dê a mínima. E há ainda quem esteja em outra, e mais outra. Há! Nada fácil. Reconhecer o erro, considerar a parcialidade. Aprender a sair do meio. Largar o osso. Nops, nadinha mole.

Depois, aquilo que é mole para o papa não é mole para o bispo. Na própria igreja. No mesmo lar. Em casa, em família, com os amigos, íntimos. Ah, por favor, tio! Encontrar-se no meio de tantas vozes. Quais estão certas, quais também? Oh ni! O que fazer, e como? E quando? Quanto é o bastante? Busca consenso? Sorria, você está sendo filmado/a/…!

Do outro lado do mundo vêm as bocas desta plantação. Em um instante desdobra-se a parafernália do mundo, diretamente da gôndola. Não é mole se encontrar no acidente do outro. Que outro?

Vamos listar alguns nomes.

A quem servem os nomes e as coisas? A ordem? Ao progresso? O nome das coisas. Nomenclatura e vocabulário dos apontamentos. Das luas. Das qualidades. O nome das definições! Cavalinhos, humanos, bordas.

Truta, nunca houve um russo igual ao outro! Nem os gêmeos, nem eles concordam em tudo! Irmãozinhos siameses, quantos desentendimentos! Quanta confusão, Hidra de Lerna! Ou seria Hidra de Metas? Não, claro que não! Ou talvez, talvez? Não, não! Ora, por favor! A concórdia é um avião aposentado.

Madama, o que se chama é o indivíduo. É você, bebê. Não é mole ser uma pessoa no meio de tantas pessoas ou coisas. É de uma solidão, queridinha! É de uma fragilidade que só a religião da onipotência, major! Se não, ateus! E olhe!

É, não é mole não, compa!  Ou talvez seja! Mole como concreto líquido!