Morri na Maré

“Uma querra” — diz Luis Hebeche — “não é feita apenas de batalhas sangrentas, mas de algo mais originário que Heráclito chamava de “pólemons”, isto é, um confronto espiritual…”

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Encruzilhado?

O velho Cherokee olha para o menino e diz: “Há uma luta acontecendo dentro de mim. É uma batalha terrível entre dois lobos.” O menino olha para o velho, curioso. “Um dos lobos é maldoso, raivoso, invejoso, arrogante, ganancioso, cheio de resentimento, auto-piedade, orgulho e egoísmo.” O menino fraze os lábios. O velho continua: “O outro lobo é bondoso, pacífico, generoso, benevolente, digno, humilde e confiante.”

O menino pensa por instante, e pergunta: “Qual deles irá ganhar?” E o velho Cherokee responde: “Aquele que for alimentado.”

Auto-engano?

colagem Mario Wagner

“Mundo das Dez Mil Coisas”, eles diziam. Hoje, dez vezes dez mil coisas são encontradas num diminuto pen-drive.

O corpo humano é frágil. Os bebês mal podem andar sobre as duas pernas. Alimentados, protegidos, amados e instruídos – se tudo der certo –, estão sob a constante ameaça da morte.

Tememos a indiferença. O abandono ameaça o viver. Assombrados pelo sussurro da inexistência, gritamos, esperneamos, chamamos a atenção. “Olhe papai”. “Veja mamãe”.

Propelidos pelo impulso de existência, afirmamos uma defesa.  Colecionando conteúdos, inferimos um colecionador. Contamos a história de nossa seleção de histórias.

O modelo famoso, pergunte a ele o que aconteceu quando passou a andar sobre uma cadeira de rodas. Pergunte a si o que aconteceu quando descobriu novos brinquedos.

Dotados de um penetrante instinto de aprender, instituímos escolas, professores, disciplinas, técnicas… Capazes de penetrar truques, e ainda hábeis em enganar a percepção.

criação de Fabio La Fauci e Daniele Sigalot

Maquiagens, plásticas, auto-confiança, hipertrofias, vitimizações, cinemas, carros, máscaras… E já que podemos aprender, descobriremos as sutilezas das maiores grosserias.

Com quantas maneiras você vê o mundo e a si? Jóia de realizar desejos ou matagal de espinhos? Trampolim ou sonho? Corpo? Probabilidade?

Vemos o mundo de uma maneira e não de outra? Por causa de nossas premissas? Por força de nossas dores? Por razão de ausências e legados? Como se faz para manter um ídolo?

Ídolo: objeto capaz de influenciar todos os demais objetos sem, contudo, ser influenciado ele mesmo pelos objetos que influencia.

O radical da ecologia – não bem uma novidade – é a exibição de um mundo interdependente. O que é você sem o sol sem você sem amigos sem supermercado sem saúde sem clareza?

As tiranias íntimas e coletivas dependem de um inimigo. Os tiranos dependem de ídolos. Suas polarizações dependem do medo e da ganância do rebanho emaciado que lhes confere poder.

Somos abertos, sentimos dor. Podemos ser feridos, tentamos nos proteger. Morremos, cultivamos medicinas. Curiosos, inventamos telescópios e microscópios.

Aprendizes, elaboramos visões. Estão aqui, na pauta das conversas, nos pronunciamentos dos economistas, dos sacerdotes e dos militares. Sagazes, investigaremos a natureza das visões.

Se as visões fossem absolutas, como poderiam ser refutadas, desconsideradas, depreciadas, esquecidas, estupradas, distorcidas, remixadas, compartilhadas, abandonadas ou dissolvidas?

Veja o mundo pelos olhos de uma abelha. Quantos centímetros tem o olhar antropocêntrico? Por bondade, observe o mundo pelos olhos daquelas que virão seis gerações após sua morte.

A história não está morta. O fim da história não é um estado de resignação onde tudo já está equacionado e você só precisa se enquadrar naquilo que os outros acham ser o seu lugar. Não.

O fim da história é uma possibilidade que você, enquanto criador e criatura de sua própria mitologia, tem de se liberar de toda a bagagem que tem carregado em sua mentecoração.

O fim da história é o poder de mudar de rumo, escapar ao rumo, deixar os ciclos, adentrar por própria clareza a garrafa do enredo, e ir além, diretamente além do medo e do auto-engano.

Disfarsas?

ilustração Bill Watterson

Minha mãe e meu pai não são o que parecem.
Seus fingimentos quase me enlouquecem.
Eu sei de suas técnicas, sei dos seus planos.
Meus pais são alienígenas disfarçados de humanos.

Pousaram na Terra, numa nave gigante.
Agem como adultos, com um jeito pedante.
Sempre negam tudo, fingindo virtude.
Mas me fazem de escravo e roubam minha juventude.

A cada manhã, assim que o sol nasce,
Minha mãe e meu pai põem seu disfarce.
Máscaras frouxas, não encaixam direito.
Cheias de rugas, devem estar com defeito.

A gravidade da Terra deixa seu andar lento.
Não me deixam correr, é um grande tormento.
Escravos do relógio e do que é rotineiro,
São como máquinas, trabalham o ano inteiro.

Têm horror a frituras e à televisão.
Não podem ser gente: da Terra não são.
Seus olhos de Aliens estão sempre em mim
E me enfiam na mente tudo o que é ruim.
Pras suas loucuras esperam sempre “Amém”,
Pois querem que eu seja um deles também.

– Calvin e Haroldo, em
O Mundo é Mágico

Polinização cruzada?

colagem Philipp Igumnov

“Agora sabemos o suficiente para saber que nunca saberemos tudo. É por isso que precisamos de arte: ela nos ensina como viver com o mistério. Somente o artista pode explorar o inefável sem nos oferecer uma resposta, pois algumas vezes não há resposta. John Keats chamou a esse impulso romântico de ‘capacidade negativa.’ Ele disse que certos poetas, como Shakespeare, tinham ‘a habilidade de permanecer nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem qualquer busca inflamada pelo fato e pela razão.’ Keats percebeu que só porque algo não pode ser solucionado, ou reduzido em leis da física, isso não significa que não seja real. Quando nos aventuramos para além da fronteira de nosso conhecimento, tudo o que temos é a arte.

Mas antes que possamos chegar a uma quarta cultura, nossas duas culturas existentes precisam modificar seus hábitos. Primeiramente, as humanidades devem sinceramente se engajar com as ciências. Henry James definia o escritor como alguém para o qual nada se perde; os artistas devem considerar seu chamado e não ignorar as inspiradoras descrições científicas da realidade. Todo humanista deveria ler Nature.

Ao mesmo tempo, as ciências devem reconhecer que suas verdades não são as únicas verdades. Nenhum conhecimento tem monopólio sobre o conhecimento. Essa simples ideia será a premissa inicial para qualquer quarta cultura. Como Karl Popper, um eminente defensor da ciência, escreveu: ‘É imperativo que desistamos da ideia de fontes últimas de conhecimento, e admitamos que todo conhecimento é humano; que ele está misturado com nossos erros, com nossos preconceitos, com nossos sonhos, e com nossas esperanças; que tudo o que podemos fazeré tentar a verdade mesmo que esteja além de nosso alcance. Não existe nenhuma autoridade além da busca pelo senso crítico.”

– Jonah Lehrer, em
Proust Was a Neuroscientist