Como agir?

As coisas que você possui,
acabam possuindo você.
– Tyler Durden, em
Clube da Luta

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Você pensa que não tem escolha. O mundo está posto1. Você não tem escolha. Você terá que fazer aquilo que esperam de você. Sua revolta foi capitalizada pelos publicitários do individualismo. Suas perguntas já foram respondidas por especialistas. Seu papel é acreditar nas respostas, respirar profundamente e tocar o barco. Não importa que não seja seu barco. Não importa que esteja furado. Quem é você para querer navegar por outras margens? Quem você pensa que é para questionar o veículo arduamente construído e navegado pelos outros escravos?

Novos clichés?

Karl Marx reconheceu que gente sem alternativa é gente acorrentada. Daí ele propôs quebrar as correntes. E o que ele sugeriu? Trocar umas correntes por outras!2 Conta-se que Sam Goldwyn uma vez liderou uma reunião para discutir novos programas de televisão. No final do encontro, ele teria dito: ‘Então estamos de acordo – o que precisamos são alguns novos clichés’.

Anthony Weir saiu para comprar transcendência e voltou com um telefone. Você precisa saber como o passado e o futuro condicionam o presente. Tanto individualismo e tudo o que você conseguiu foi um desconcertante senso íntimo de insegurança. Os publicitários sabem mais sobre sua psicologia do que você mesmo. Alimente o medo das pessoas. Depois ofereça algumas lucrativas opções de alívio temporário. Síndrome de Estocolmo. Elas nem perceberão que estão sendo abusadas.

Você não pode criar uma sociedade de abusos sem que cada pessoa abusada não aprenda que é conveniente abusar. O abuso precisa ser camuflado com um verniz de normalidade. Inimigos deverão ser criados para focalizar as energias do medo e da frustração sistêmica. Programas deverão ser instalados para parecer que algo está sendo feito. Os alfinetes e molas da engrenagem precisam sentir que há algum sentido – qualquer sentido – e que nada irá desabar do dia para a noite. O fato de que os programas vivem fracassando não importa. O fato de que a engrenagem está enferrujando não significa nada – desde que possamos colocar mais óleo; desde que possamos ser assegurados de que tudo dará certo no final, e que tenhamos nossos 100 gramas de milho e um ou dois meios de “dar um tempo” – antes do próximo turno, antes da próxima preocupação, antes do próximo saque.

A normalidade é tão evidente por si mesma.  Todas essas “coisas”, elas parecem naturais. Sua identidade aparece tão intrínseca. Seus credos parecem tão certeiros. As normas e regras parecem prontas e em nada podem ser questionadas. É preciso continuar a todo custo, porque, naturalmente, mudar o que tem “funcionado desde sempre” só pode levar ao caos! O julgamento implica que se algo não é ruim, então deve ser bom. E se é bom então não há razão para mudá-lo. Se algo é bom, então com certeza mais dele é melhor, certo?

Os sistemas são feitos para ser estáveis. Um pouco de estabilidade é vital. Imagine você que seu corpo não tivesse nenhuma estabilidade. Que tipo de geléia você seria? Imagine que você não pudesse confiar em ninguém (ops!), como você poderia fazer negócios? Um pouco de estabilidade é saudável e esperado. Mas como estabilidade é bom, com certeza mais estabilidade é melhor, não é? Talvez você esteja um pouco viciado em um dos lados da moeda! Por isso não se trata mais de criatividade nas escolas. Trata-se de responder as respostas certas. As escolas são meras linhas de reprodução. Sua “educação” é dirigida para a continuidade, a cristalização do passado e a rotina correta. Após todos esses anos de escolarização, o que você sabe sobre hipóteses e design da mudança? Após todas essas décadas de especialização, o que você sabe sobre qualidades emergentes e imaginação? Você tem usado sua atenção todos os dias, mas o que você sabe sobre o que ela é capaz de fazer quando um pouco de atenção é oferecida para sua atenção? A educação não se importa com isso. Dá muito trabalho tratar as pessoas como indivíduos. E além do mais, indivíduos livres poderão questionar todo o sistema e isso já seria intolerável. Não, é preciso que a educação produza novos clichês.

Como eu quero mudar o quê?

Quando você pergunta o que pode fazer para mudar algo, ou cair fora desse drenante maquinário energético, o que você tem em mente? Uma revolução? Você pretende trocar uma hierarquia por outra? Você supõe que um novo super-poderoso irá salvar você de si mesmo? Talvez você não queira ter o trabalho de ser criativo e entrar em contato com desconfortos. Talvez você esteja satisfeito com modelos totalitários. Talvez você não esteja tão descontente quanto pensa. Quando você pergunta o que pode fazer para mudar as coisas, você se lembra que uma dessas “coisas” é você? Você está disposto a mudar? Você está disposto a abandonar suas zonas de segurança? Você se sente estimulado a encontrar campos de dissonância? Quer mesmo treinar novos modos de cognição? Quando pergunta o que pode fazer, você tem em mente aonde quer chegar e por quê?

Há muitos revolucionários de plantão, apenas esperando a hora para trocar uma frase de ordem por outra3. Apenas aguardando o momento para substituir uma vileza por outra. Tudo em nome da “nova ordem” – de um novo reino de mil anos. Esses revolucionários não sabem brincar. Quando chegam ao poder usam os mesmos métodos e as mesmas censuras de seus antecessores. Comem da mesma abundância. Rogam-se de direitos irrefutáveis. São uns paternalistas incorrigíveis. Clamam por mais esforços de seus liderados. Afinal, esses revolucionários querem liderar ou liberar? Como podem ser revolucionários se estão usando os mesmos aparelhamentos ao mesmo tempo autocomplacentes e temíveis?

Você que pergunta sobre como mudar, talvez não se trate de combater. Talvez seja menos sobre ser “Anti-“ alguma coisa. ‘Você nunca muda as coisas lutando contra a realidade que existe’, diz Buckminster Fuller. ‘Para mudar alguma coisa, construa um novo modelo que torne obsoleto o modelo existente agora’. Abra suas mãos. Deixe que caiam as malas (e modelos) sem alça que nunca foram seus. Você pode tentar copiar os passos de seus antepassados (e de seus amigos), mas também pode criar sua jornada (e ela é só sua?) – e assim ser tão original quanto os velhos foram no passado varrido pelo tempo. Mas isso ainda não lhe diz o que fazer, certo?

Talvez você precise aprender a caminhar com as próprias pernas. Talvez você precise levar algumas quedas e lidar com o orgulho e a humildade. Talvez necessite destravar seu processo de questionamento e a capacidade penetrante de sua atenção. Talvez esteja na hora de arejar suas próprias histórias do que é e do que não é. Talvez tenha chegado o tempo de entrar em contato com a paciência e perseverança necessárias para investigar as premissas de sua visão. E quem sabe não seja a hora de cultivar novos modos de enxergar a vida. Há quem possa indicar o caminho. Mas você ainda terá que andar por si mesmo. E há quem possa indicar certas dificuldades no caminho. E você ainda terá que lidar com seus medos. E há armadilhas no caminho. E você pode voltar a cair quando pensar que já está andando direitinho. E há impostores e vampiros. E talvez você mesmo seja um deles. E há sua tendência a ser quem pensa que é. E você terá que ir além da sua trama de pensamentos. E há uma incógnita, uma dose de mistério. E você não terá a certeza que é como o ópio. Você não precisa criar a roda o tempo todo. Mas você precisará andar pelo fio da meada. E seu equilíbrio será dinâmico. E haverá contradições e equívocos. E música, dança e miragens. Portanto, nada de novo, pois todas essas características podem ser encontradas onde você estiver.

Eu quem?

Qual é então a diferença? Exatamente aquela que você irá fazer. Mas lembre-se: Marshall McLuhan disse que você marchará para o futuro com seus olhos no espelho retrovisor. Apresentar uma solução caduca com cores da hora e em alta definição não faz de sua solução algo melhor. Portanto, prepare-se para as dores do parto. Considere ainda que novas ideias que não levantam cautela e protestos provavelmente não são tão boas assim. Pessoas confortáveis com ideias caducas têm dificuldade em ver as inadequações da velha ideia. Portanto, não conte com essas pessoas, elas não têm muita escolha além de resistir e desconfiar. Também é vantajoso minimizar seu engajamento em críticas. Criticar é mais fácil do que criar alternativas. Portanto, foco na criatividade, na geração de espaços de possibilidades e hipóteses. Pode acontecer de você precisar dar o primeiro passo, superando o chamado “efeito de fronteira”. Cuidado com a lógica: ela tende a sair de uma certeza para outra, apenas para reafirmar a si mesma. Investigue a plasticidade de sua atenção e cultive perspectivas mais do que respostas. Atravesse suas perspectivas com a capacidade penetrante da atenção. Habitue-se a digerir dissonâncias. Habitue-se a digerir ressonâncias. Avance sobre sua própria carcaça e adentre ou crie novos campos de aprendizado e lucidez. Comece por seu próprio quarto. Melhor, comece por si mesmo.

Notas
1 Vide, por exemplo, o caso dos intelectuais, segundo Gilles Lipovetski: “A posição dos intelectuais – os quais desempenharam importante papel no nascimento da modernidade – não mais pode ser a mesma. Hoje, eles partilham dos mesmos valores que o conjunto dos membros da sociedade; propõem interpretações divergentes, não outro modelo coletivo. Nessas condições, a necessidade de ‘engajar-se’ é menor: o que importa é menos tomar partido para defender isto ou aquilo do que compreender um pouco melhor ‘como é que isso funciona’ na própria realidade.” (Os Tempos Hipermodernos, pg 108).
2 O poderoso insight de Marx foi perceber que a materialidade afeta as realidades subjetiva e intersubjetivas. Ao redor de um determinado modo de produção gravitará uma visão de mundo. Como os modos de produção evoluem mais rapidamente que as visões de mundo, haverá tensão e contradição – que Marx equaciona dentro da luta de classes. O que Marx falha em reconhecer é que não há um modo de produção único nem apenas uma visão de mundo, mesmo dentro de uma mesma sociedade. Note-se ainda que Marx percebeu que a história é significativa, e estabeleceu uma crucial conexão entre os desdobramentos históricos e os modos de produção. (Se essa história – ou “revolução” – é linear e progressivista, há dúvidas). A partir dele não é mais possível falar de revolução e transformação social apenas em termos de “ideias”, “consciência” ou “cultura”. Com ele, qualquer transformação social precisa incluir a materialidade. Por outro lado, ao reduzir a consciência humana a um subproduto das realidades econômico-materiais, Marx cai no lado oposto do extremismo (mítico) que buscou superar. Porque Marx interpreta o mundo grandemente através dos olhos do materialismo científico, cai em uma espécie de reducionismo. Além disso, parecia acreditar que um estado de contentamento e equilíbrio (a igualdade entre as pessoas) seria atingido quando todos tivessem abundância material. Mas não faltam exemplos de que a prosperidade material não parece ser suficiente para saciar a fome das pessoas.
3 Revolucionários de todas as estirpes – políticas, acadêmicas, culturais – têm falhado em perceber que suas revoluções não podem ser monodimensionais. Portanto, não se trata apenas de criar um novo paradigma ou avançar para uma nova visão de mundo, nem demandar novas bases produtivas, nem novos sistemas sociais – mas realizar tudo isso junto. A dificuldade desse processo é óbvia e explica por que muitas revoluções sociais não passam de carnificinas e tiranias mal-disfarçadas.
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2 comentários sobre “Como agir?

  1. é ISSO AÍ. aTENÇÃO ,PRESENÇA! nÃO DÁ PARA MUDAR A HISTÓRIA FORA DELA E, dE UM MODO OU DE OUTRO, SOMOS OS BEM-FEITORES OU MAU-FEITORES DA NOSSA/VOSSA VIDA. é ISSO AÍ. bRIGADA. bOAS PALAVRAS SÃO BOAS AÇÕES. aMOR tELMA.

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