Cidade?

Uma vez um guia adentrou a cidade. Ao retornar dela, ele disse: “Oh, estou preenchido de alegria. Havia uma tal exaltação na presença do Amar.”

Então uma pessoa próxima pensou: “Existia o Amar e uma exaltação; que maravilha! Eu devo ir ver por mim mesmo”.

Essa pessoa adentrou a cidade e ao regressar dela, disse: “Horrível. Quão horrível o mundo é! Todos pareciam estar nas goelas uns dos outros; essa foi a imagem que vi. Senti uma grande depressão, como se todo o meu corpo tivesse sido quebrado em pedaços.”

“Sim”, o guia disse, “você está certo.”

“Mas como se explica?”, a pessoa próxima disse, “Por que você estava tão feliz ao voltar e eu estou quebrado em pedaços?”

O guia disse: “Você não caminhou no ritmo que eu caminhei pela cidade.”

Reunião de condomínio

via

A menina olhou para o homem e disse: — Porque vocês são otários, seus filhos irão sofrer. Quando seus filhos sofrerem, vocês irão para o inferno.

Não era com desdém que os olhos vítreos do homem fuzilavam a menina. Na sala, a inicial aparência de descontração transformara-se em tensão e mal-estar completos. Talvez fosse efeito da iluminação fluorescente, mas as faces das pessoas estavam pálidas,  lívidas. Por baixo das cadeiras, insinuava-se um cheiro de azedume.

A menina havia se sentado. Seus olhinhos fitavam o homem como um relâmpago fita um canavial. Após um suspiro, ela continuou:

— Era uma vez uma menininha melodramática no supermercado com a avó. Para chamar a atenção, cria uma ceninha histérica, aos berros e esperneando como uma danadinha. Do nada, pelo outro lado do corredor, aparece um homem. Decididamente, caminha até ela e, olhos nos olhos, diz: “— Que marra! Você já se esqueceu? Você não se lembra? Mal posso acreditar. Atenção!” A avó não entende patavina. A menininha olha-o de volta e sorri.  O homem vai embora.

Na sala, pode-se ouvir o silêncio ser pipocado por plocs (de bolhinhas estourando) e cracks (de rachaduras se abrindo) nas cabeças dos ouvintes. Após um instante, os pés de alguns voltam a tremelicar como britadeiras. Alguém pensa que vai tossir, mas é alarme falso. Tratava-se apenas da mais recém preocupação refazendo a reação de sempre.

Descontraindo os lábios ressequidos, o síndico propõe: — Todos a favor da remoção do problema para o mais longe possível digam “ni”.

— Niiii.

— A moção está aprovada. Acerta-se pela remoção do problema para o mais longe possível. Atar e executar.

Após uma breve pausa de estupefação, o síndico faz o último pronunciamento: — Boa noite.

As pessoas vão se levantando, caiadíssimas. Do confinamento em seus sorrisos botulínicos murmuram ares retesados. Enquanto isso, o síndico havia se aproximado da menina e já lhe dizia: — Porque sou um otário, levarei todos os que amo. Ralo abaixo.

Imediatamente após recitar aquelas palavras, o síndico foi chamado pelo homem que havia proposto a remoção do problema para o mais longe possível. O homem aproveitou para parabenizar o síndico pela condução das atividades e que esperava a execução da remoção do problema para o mais longe possível para amanhã mesmo. Até falou de uma empresa especializada em remover problemas para o mais longe possível.

Quando deixaram a sala para trás, esqueceram-se de apagar as luzes. Subiram pelos elevadores até suas celas, tendo ânimo para ligar os televisores nas novelas de modo que ouviam ladainhas enquanto ingeriram lá seus soníferos. Após algum tempo, dormiram. Foram mergulhando em sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos. Sequer podiam ouvir quando um trovão adamantino — raríssimo — ribombou como eco de um raio na hora mais escura da madrugada.

Depois da reunião

Do que é feito o mundo?

Laurent Laveder

Uma noite, um ladrão visitou a choupana de Ryōkan, na base de uma montanha. Logo deu-se conta de que não havia quase nada para roubar. Mesmo assim, levou o que havia: uma muda de roupa e uma caneca. Quando Ryōkan retornou, percebeu que um ladrão havia levado todos os seus pertences: uma muda de roupa e uma caneca. Sentando-se, olhou para a janela. Então disse:

A lua
na janela –
ele não a levou.

Encruzilhado?

O velho Cherokee olha para o menino e diz: “Há uma luta acontecendo dentro de mim. É uma batalha terrível entre dois lobos.” O menino olha para o velho, curioso. “Um dos lobos é maldoso, raivoso, invejoso, arrogante, ganancioso, cheio de resentimento, auto-piedade, orgulho e egoísmo.” O menino fraze os lábios. O velho continua: “O outro lobo é bondoso, pacífico, generoso, benevolente, digno, humilde e confiante.”

O menino pensa por instante, e pergunta: “Qual deles irá ganhar?” E o velho Cherokee responde: “Aquele que for alimentado.”

Causa causo?

com imagem de Universo filatélico

De histórias é a vida. Identidades históricas são as marcas de nossas personalidades. Naturalizadas, dão as cartas de toda situação, como sistemas operacionais e interfaces.

Pensamos ser as histórias que são como nossas. Cada um tem uma mitologia da existência. Nossas vidas são o conteúdo histórico íntimo e cultural em ação.

Escorregamos em atividades intermediadas por histórias. Adotamos roteiros habituais e afazeres contextuais sem pestanejar, até quando folgamos.

A história da economia dialoga com a história do desejo. O conto do desejo ouve uma novela de opiniões, causos de alívio, narrativas de carência. Uma única razão está mais para um emaranhado de raízes.

Raízes podem expandir os sensos individuais e coletivos tanto quando podem servir aos mitos da liberdade. Identidades históricas alimentam conflitos, guerras e neuroses, tanto quanto podem apoiar a cura, estados de graça ou refinadas celas de prisão.

O que fariam as histórias sem gente identificada com elas? Notamos que as histórias precisam acessar nossas emoções e racionalidade. Identificados com histórias e provocações, elaboramos grandes mitologias – que de tão grandes chegam mesmo a delimitar a visão.

Mitos não são histórias do passado. Continuam atuais, em tudo o que faz sentido, desde um anúncio de publicidade, passando pelo messianismo tecnológico, emparedados nos muros que enclausuram nossas casas; no centro das razões de nossos trabalhos; nas telas dos cinemas; nas manchetes econômicas e nas respostas dos governos…