Meu nome não é morte

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Morre-se muitas vezes em um único dia. Vê-se isso quando olhamos para nosso próprio corpo. Em nenhum momento o corpo está rejuvenescendo. Pelo contrário. Noutro ângulo, se olharmos para a mente, observaremos que nosso senso de continuidade é produzido por instantes de consciência. Onde foi parar o instante de consciência anterior a este? Logo mais, pergunte-se onde foi parar esse atual instante de consciência. Transformou-se. Passou. Ainda assim se quer que a morte seja um grande mistério!

A morte é apenas um nome em língua portuguesa para um momento considerado dramático de impermanência. O drama apenas demonstra desconhecimento da natureza de sujeitos e objetos. Você termina de pintar uma parede, ali mesmo começou a entropia, começou a transformação, as reações que irão transformar a forma. A natureza da forma: mudar constantemente. Daí, a parede careta pode ser pintada com cores da moda. E aí mofar e virar pó e assim por diante…

Distraídos como somos pelo hábito de paralisar a forma (nome e forma), alimentamos uma certa fantasia de durabilidade, constantemente desafiada por imprevistos circunstanciais e psicológicos. Não estranha que precisemos nos reassegurar o tempo todo. Do contrário, descobriríamos que não somos sólidos. Recalcados, tememos o descontrole (morte?) e idolatramos a segurança (vida?). Desejamos estabilidade porque somos oriundos de uma instabilidade radical.

As coisas escapam por nossas mãos; nossas mãos escapam de nossos corpos. Os pensamentos escapam por nossa mente; a mente escapa de nós mesmos. Todas as coisas que apreciamos serão apenas um lembrança. A lembrança se apagará, como milhares de outras lembranças que você nem se lembra de terem feito sua cabeça. Um belo dia você descobre que não se lembra mais da voz da pessoa amada. Perde a face da pessoa que você jurou lembrar. Olha para trás e tem apenas alguns fragmentos. Você os chama de “mim”.

Sem falar de que, agora mesmo, tudo aquilo que mantém você na ilusão de autonomia está se transformando: o clima, a geopolítica, os recursos, as mentalidades…

Virou cocô, o belo prato de comida.

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