Cultura do medo?

Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que fazem uso dele; e o medo do flagelo do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele.

(…)

O destemor pode ser um dom, mas talvez algo ainda mais precioso seja a coragem adquirida através da aventura, a coragem que vem de cultivar o hábito de recusar deixar o medo ditar as ações de alguém, a coragem que poderia ser descrita como ‘graça apesar da pressão’  — graça que é renovada repetidamente na face da dura e contínua repressão.

Dentro de um sistema que nega a existência de direitos humanos básicos, o medo tende a ser a ordem do dia. Medo do encarceramento, medo da tortura, medo da morte, medo de perder os amigos, a família, a propriedade ou os meios de vida, medo da pobreza, medo do isolamento, medo da falha. Um tipo ainda mais sutil de medo é aquele que mascara como senso comum ou até como sabedoria, condenando como tolice, irresponsabilidade, insignificante ou fútil os pequenos e diários atos de coragem que ajudam a preservar o auto-respeito e a inerente dignidade humana. Não é fácil para pessoas condicionadas pelo medo imposto por lei férrea o princípio de que o poder é válido para a auto-libertação do enervante miasma do medo. Ainda assim, sob o poder esmagador da maquinaria do estado, a coragem se eleva de novo e de novo, pois o medo não é o estado natural do homem civilizado.

— Aung San Suu Kyi, em
Freedom from Fear: And Other Writings

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