Reunião de condomínio

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A menina olhou para o homem e disse: — Porque vocês são otários, seus filhos irão sofrer. Quando seus filhos sofrerem, vocês irão para o inferno.

Não era com desdém que os olhos vítreos do homem fuzilavam a menina. Na sala, a inicial aparência de descontração transformara-se em tensão e mal-estar completos. Talvez fosse efeito da iluminação fluorescente, mas as faces das pessoas estavam pálidas,  lívidas. Por baixo das cadeiras, insinuava-se um cheiro de azedume.

A menina havia se sentado. Seus olhinhos fitavam o homem como um relâmpago fita um canavial. Após um suspiro, ela continuou:

— Era uma vez uma menininha melodramática no supermercado com a avó. Para chamar a atenção, cria uma ceninha histérica, aos berros e esperneando como uma danadinha. Do nada, pelo outro lado do corredor, aparece um homem. Decididamente, caminha até ela e, olhos nos olhos, diz: “— Que marra! Você já se esqueceu? Você não se lembra? Mal posso acreditar. Atenção!” A avó não entende patavina. A menininha olha-o de volta e sorri.  O homem vai embora.

Na sala, pode-se ouvir o silêncio ser pipocado por plocs (de bolhinhas estourando) e cracks (de rachaduras se abrindo) nas cabeças dos ouvintes. Após um instante, os pés de alguns voltam a tremelicar como britadeiras. Alguém pensa que vai tossir, mas é alarme falso. Tratava-se apenas da mais recém preocupação refazendo a reação de sempre.

Descontraindo os lábios ressequidos, o síndico propõe: — Todos a favor da remoção do problema para o mais longe possível digam “ni”.

— Niiii.

— A moção está aprovada. Acerta-se pela remoção do problema para o mais longe possível. Atar e executar.

Após uma breve pausa de estupefação, o síndico faz o último pronunciamento: — Boa noite.

As pessoas vão se levantando, caiadíssimas. Do confinamento em seus sorrisos botulínicos murmuram ares retesados. Enquanto isso, o síndico havia se aproximado da menina e já lhe dizia: — Porque sou um otário, levarei todos os que amo. Ralo abaixo.

Imediatamente após recitar aquelas palavras, o síndico foi chamado pelo homem que havia proposto a remoção do problema para o mais longe possível. O homem aproveitou para parabenizar o síndico pela condução das atividades e que esperava a execução da remoção do problema para o mais longe possível para amanhã mesmo. Até falou de uma empresa especializada em remover problemas para o mais longe possível.

Quando deixaram a sala para trás, esqueceram-se de apagar as luzes. Subiram pelos elevadores até suas celas, tendo ânimo para ligar os televisores nas novelas de modo que ouviam ladainhas enquanto ingeriram lá seus soníferos. Após algum tempo, dormiram. Foram mergulhando em sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos. Sequer podiam ouvir quando um trovão adamantino — raríssimo — ribombou como eco de um raio na hora mais escura da madrugada.

Depois da reunião

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