Medo?

via peace

“Ora por cima da cabeça, ora por baixo dos meus pés, a floresta tenta me incutir medo. Bafeja meu pescoço com seu hálito gelado, crava em minha pele mil olhares aguçados. Sou um objeto estranho que ela tenta expulsar. Mas, aos poucos, aprendo a ignorar as ameaças. Afinal, esta floresta é parte de mim – é o que começo a pensar a partir de determinada altura. Estou viajando para dentro de mim mesmo. Do mesmo modo que o sangue viaja por meus vasos sanguíneos. O que vejo é o meu lado interno, e a sensação de ameaça nada mais é que eco do medo em meu coração. As teias de aranha que aqui existem são produtos de meu espírito, e os pássaros que gritam sobre a minha cabeça foram criados por mim mesmo. Esta imagem cresce dentro de mim e vai se enraizando. Como  que impelido por batidas de um imenso coração, avanço pela trilha. O caminho conduz ao meu local especial. À fonte de luz que tece a escuridão, ao lugar que origina o eco sem som. Para lá estou indo a fim de ver o que existe. Levo em mãos uma carta importante, hermeticamente fechada: sou o mensageiro secreto de mim para mim mesmo.”
—  Haruki Murakami, em
Kafka à beira-mar
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