Auto-engano?

colagem Mario Wagner

“Mundo das Dez Mil Coisas”, eles diziam. Hoje, dez vezes dez mil coisas são encontradas num diminuto pen-drive.

O corpo humano é frágil. Os bebês mal podem andar sobre as duas pernas. Alimentados, protegidos, amados e instruídos – se tudo der certo –, estão sob a constante ameaça da morte.

Tememos a indiferença. O abandono ameaça o viver. Assombrados pelo sussurro da inexistência, gritamos, esperneamos, chamamos a atenção. “Olhe papai”. “Veja mamãe”.

Propelidos pelo impulso de existência, afirmamos uma defesa.  Colecionando conteúdos, inferimos um colecionador. Contamos a história de nossa seleção de histórias.

O modelo famoso, pergunte a ele o que aconteceu quando passou a andar sobre uma cadeira de rodas. Pergunte a si o que aconteceu quando descobriu novos brinquedos.

Dotados de um penetrante instinto de aprender, instituímos escolas, professores, disciplinas, técnicas… Capazes de penetrar truques, e ainda hábeis em enganar a percepção.

criação de Fabio La Fauci e Daniele Sigalot

Maquiagens, plásticas, auto-confiança, hipertrofias, vitimizações, cinemas, carros, máscaras… E já que podemos aprender, descobriremos as sutilezas das maiores grosserias.

Com quantas maneiras você vê o mundo e a si? Jóia de realizar desejos ou matagal de espinhos? Trampolim ou sonho? Corpo? Probabilidade?

Vemos o mundo de uma maneira e não de outra? Por causa de nossas premissas? Por força de nossas dores? Por razão de ausências e legados? Como se faz para manter um ídolo?

Ídolo: objeto capaz de influenciar todos os demais objetos sem, contudo, ser influenciado ele mesmo pelos objetos que influencia.

O radical da ecologia – não bem uma novidade – é a exibição de um mundo interdependente. O que é você sem o sol sem você sem amigos sem supermercado sem saúde sem clareza?

As tiranias íntimas e coletivas dependem de um inimigo. Os tiranos dependem de ídolos. Suas polarizações dependem do medo e da ganância do rebanho emaciado que lhes confere poder.

Somos abertos, sentimos dor. Podemos ser feridos, tentamos nos proteger. Morremos, cultivamos medicinas. Curiosos, inventamos telescópios e microscópios.

Aprendizes, elaboramos visões. Estão aqui, na pauta das conversas, nos pronunciamentos dos economistas, dos sacerdotes e dos militares. Sagazes, investigaremos a natureza das visões.

Se as visões fossem absolutas, como poderiam ser refutadas, desconsideradas, depreciadas, esquecidas, estupradas, distorcidas, remixadas, compartilhadas, abandonadas ou dissolvidas?

Veja o mundo pelos olhos de uma abelha. Quantos centímetros tem o olhar antropocêntrico? Por bondade, observe o mundo pelos olhos daquelas que virão seis gerações após sua morte.

A história não está morta. O fim da história não é um estado de resignação onde tudo já está equacionado e você só precisa se enquadrar naquilo que os outros acham ser o seu lugar. Não.

O fim da história é uma possibilidade que você, enquanto criador e criatura de sua própria mitologia, tem de se liberar de toda a bagagem que tem carregado em sua mentecoração.

O fim da história é o poder de mudar de rumo, escapar ao rumo, deixar os ciclos, adentrar por própria clareza a garrafa do enredo, e ir além, diretamente além do medo e do auto-engano.

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4 comentários sobre “Auto-engano?

  1. A liberdade criada a partir da ignorância.
    É o que estou(amos) sempre buscando.

    Qual liberdade que não é criada a partir da ignorância?
    Existe de fato uma liberdade “auto-liberadora” que não é manipulável pelos conceitos?
    Onde meus conceitos estão armazenados?
    Eles são partes da minha armadura de plástico blolha que me protege da realidade?
    Seriam eles – os conceitos – a base que sustenta o meu casúlo de Poliamida²³ S.A.?

    Estou trocando 2Kg de conceitos por alguma quantia qualquer de liberdade.
    Ahhhhhh… Eu quase esqueci que a liberdade não pode ser comprada!

    Merda…

  2. Os “guerreiros sem armas” são os mais perigosos… – para si e para os outros -, pois penetram-se e penetram também a carne de outros sem que o sangue escorra e a consciência surja…

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