Deseja paz?

No primeiro dia do ano os ocidentais comemoram o Dia Mundial da Paz. O Dia da Fraternidade Universal cai na mesma data. Nosso calendário é cíclico, conectado como está aos ciclos da natureza. No mundo natural, as estações se sucedem, aparecendo, desenvolvendo-se e abrindo passagem para seu oposto. Depois, retornam.

O Dia Mundial da Paz é uma oficialidade, um lembrete que evoca o fenômeno conhecido como paz. Do mesmo modo, o fenômeno da fraternidade é oficialmente lembrado no primeiro dia de janeiro. Contudo, qual é a nossa direta experiência acerca desses dois fenômenos? O que de fato representam em nós as palavras “paz” e “fraternidade”?

As festividades de fim de ano sugerem nossa consciência da dinâmica circular da vida. Nessa época do ano, alguns de nós diligentemente se aplicam a pensar no processo de suas atividades, refletindo sobre conclusões, aberturas e fases. As pendências são reconhecidas e novos sonhos são visualizados. Alastra-se uma indisfarçável “desejose”, e a maioria das pessoas formula um corpo de desejos para si, para aqueles que dizem amar e até mesmo para todos os demais seres.

No discurso dessas pessoas o desejo de paz é volumoso. Muitas saem por aí desejando paz, um mundo de paz, paz para os povos e assim por diante. O desejo de paz trai, nessas pessoas, a percepção da ausência de paz. Não haveria qualquer razão para o desejo de paz se, por outro lado, não sofrêssemos com a percepção de sua ausência. E de fato, não podemos deixar de ver e sentir na pele a violência da vida, das instituições e dos indivíduos. Tais fenômenos não apenas justificam mercados inteiros, mas condicionam decisivamente nossos próprios estilos de vida.

Desejando paz e fraternidade, testemunhamos um mundo incompleto e processual. Alienados da paz e da bondade, ficamos carentes. Então dizemos “Que 2012 seja um ano de muita paz”. Temos saudade de um estado de paz e de fraternidade, e somos pródigos de histórias sobre quando o mundo era livre do sofrimento e da angústia, da agressividade e do medo. Alguns chamam essa antiga experiência de bem aventurança de “Era de Ouro” – um tempo sem doença, sem envelhecimento, sem morte. Uma Era sã, um período de rica abundância e precioso contentamento.

Essa Era parece ter sido perdida. Notavelmente, algumas religiões baseiam seu sentido no retorno ou re-ligação a esse estado de pacífica radiância. Muitas vezes, a salvação oferecida por suas doutrinas e métodos aponta diretamente para o fim do sofrimento. Alguns vão para o paraíso, enquanto outros expõem o nirvana. Outros voltam para casa, ao passo que ainda outros se dissolvem no inominável. Apesar dos diferentes nomes que possam dar a experiência livre de dor, todas elas, em algum grau, compartilham uma percepção de descontentamento com o “estado atual de coisas”. Essas tradições, por díspares que pareçam, estão firmadas no discurso comum de uma salvação. Quem poderia ser salvo se não estivesse em apuros?

Portanto, os desejos de paz apontam diretamente para uma percepção da ausência de paz. A ciência, em sua atual busca por controle e longevidade, é outra tradição influenciada pela mesma insatisfatória percepção de sofrimento. Naturalmente, algumas de suas mais festejadas conquistas estão claramente no campo da medicina e do conforto.

Assim, a festiva ponta do iceberg das celebrações de fim de ano guarda uma base de profunda carência e descontentamento. Importa reconhecer a presença dessa base, caso seja para não perder o que está camuflado em meio a tantos fogos de artifício, viços e porres. Métodos produzidos como lembretes e meios para determinadas finalidades – relata nossa milenar história comum – foram e têm sido subvertidos com efeitos colaterais contrários aos desejados.

O fenômeno da paz tão arduamente desejado pode ser encontrado em meio ao surto de uma desejose? O fenômeno da fraternidade pode ser gerado por uma mentalidade besuntada de insatisfação? Apesar da estratégica significância dessas questões para o cultivo da paz e da fraternidade, sua presença nas conversas de fim de ano é curiosamente infrequente. E não parece ser suficiente surtar em uma explosão de expressões de desejo, já que isso é basicamente o que se tem feito, sem grandes alterações na economia de nossas vidas nem em nossas ecologias mentais.

Por essa razão, a positiva aspiração de desejar a paz e a fraternidade não pode ser dissociada do seu raio de ação, ou transformação. Seguramente, isso não implica que o cultivo da aspiração seja desimportante e secundário. Pensar assim seria contraproducente, simplesmente porque o agir humano está fundado em uma intenção. Naturalmente, a intencionalidade é sustentada por premissas – um corpo, nem sempre consciente, de afirmações e sentimentos que estruturam e condicionam nossas intenções. Imagine-se uma pessoa sedenta. Após caminhar por dias em um deserto, encontra-se em uma lagoa salobra. Pensando que irá satisfazer sua sede com aquela água, bebe-a sem notar que o sódio no líquido não pode conduzi-la a um estado de satisfação. Sua premissa – a água pode aliviar minha sede – não é válida ali e, efetiva e ironicamente, poderá gerar exatamente o efeito do qual se pretendia escapar: a sede.

Não é possível que o surto de desejos esteja entre as causas do estado de insatisfação que ele pretende aliviar? Não seria isso o mesmo que oferecer ao vampiro a missão de guardar o estoque de sangue? Talvez alguma paz possa ser obtida ao se beber água salgada, contudo como essa paz poderia durar se mais sede é um efeito natural da interação do sal em nossos corpos? Isso significa que o sal é ruim? Da mesma forma, talvez, seja com o desejo.

Pessoas genuinamente interessadas na realização de seus desejos de paz, fraternidade e felicidade não podem escapar da necessidade de avaliar extensiva e frequentemente suas premissas e realizações. Deverão se capazes de plantar as sementes daquilo que pretendem germinar. Se forem incapazes de fazer isso ou contarem apenas com a sorte, a realização de suas aspirações terá poucas chances de vingar, e elas continuarão desejando o que, de outra forma, pode estar mais presente do que sentem e imaginam.

via Chico

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