Ícaro?

desenho YDK Morimoe

Festeja-se o indivíduo, o homem no centro da medida de todas as coisas. Não faz muito tempo, as pessoas tinham outras preocupações. Suas visões eram largas o bastante para incluir dimensões não-humanas. Atualmente, mais da metade da população mundial de pessoas vive em cidades, lotadas em modelos antropomórficos.

É difícil não se ufanar com a sensação de ser espécie dominante num planeta que é verdadeira panacéia de abundância para os sentidos.  Convivendo com bestas e fúrias, saímos de cavernas para dois quartos com suíte. Com o fogo, imaginação e arte, construímos cidades de vapor, átomo e luz.

As tecnologias de telecomunicação abrem a banda da interação. O mundo diminui, as pessoas se conectam através de dispositivos que desafiam limites, como apêndices aceleradores do instantâneo. Não apenas tornam-se mais altas e fortes. Ficam mais rápidas, como predadoras perfeitas. E essa Terra é vossa.

A alegria do ufanismo antropocêntrico é abafada apenas pelas angústias de humanidade. Nas mais augustas festas, encontram-se mendigos. Entre os convidados, há dissidentes; e foi adulterada parte da bebida. A morte flana de ombro em ombro, pelos muitos corpos desacompanhados. Esteiras de seres invisíveis servem de capacho aos pés dos convivas.

Os bebês choram quando têm fome. Fazem caca quando vontade, e não sabem se limpar. Não podem ser deixados ao sol e nem fechados dentro de carros. São assim profundamente dependentes. Deixados por si mesmos, os bebês não irão vingar. Pais amorosos reconhecem o grau de dependência do bebê e sacrificam descanso para cuidar das necessidades dele.

Contudo, naturalmente, os bebês são apenas uma fase do processo. Se tudo der certo, seus corpos ganharão em força, altura e rapidez. Mais cedo do que se pensa, confrontam os pais com suas próprias visões surgidas sabe-se lá de onde. Através da interação com outros grupos, o ex-bebê credencia-se a ser um indivíduo – isto é, pessoa atenta e crítica aos limites e relações de seu corpo. Dotada de razão, supõe-se livre para julgar e intervir.

Esse indivíduo está normalmente seguro de uma história única – sua história. Sendo gregário, reconhece em algum grau a história social que contextualiza sua particularidade. Sua história não inclui apenas a si, mas a outras pessoas, circunstâncias e acontecimentos críticos. As emoções, manifestando-se a partir dessas constelações de contato e interação, fornecem ao indivíduo a sensação de exclusividade histórica.

Ao longo da história, o indivíduo será confrontado por dependências e atos de superação. Deverá ser capaz de reconhecer e dissipar neuroses sociais, pesadelos coletivos, ilusões reificadas. Contudo, nem sempre tais obstáculos podem ser transpostos sem dificuldade, especialmente quando domina uma cultura do medo baseado em preocupações de ganho e perda.

Esse indivíduo no centro do mundo é sustentado por uma rede sem fim de fluxos de bens de consumo e energia. O preço de sua independência ideológica não nega sua dependência ecológica. Esse homem medida de todas as coisas é também medido por tudo aquilo que mede. Considere o que tem medido e veja qual tem sido o seu tamanho.

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