Húmus?

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Todos recebem uma visita da morte. Há controvérsia bastante sobre ela e o que acontece com a consciência (e se isso importa) depois da morte. O número de pessoas matriculadas em religiões que professam o morrer – em vida, póstumo, como seja – confessa nossa atração pela morte.

Morrer não basta. É preciso viver até o fim. Viver é uma espécie de arte, absurdamente refinável.  A arte não está necessariamente presa ao sentido, nem é forçosamente utilitária. É da natureza da arte a ciência da forma. Viver é forma.

Formas de vida existem tantas quantas contam a biologia e a imaginação. Tremendas formas de vida habitam um mero palmo de húmus. Mesmo entre as pessoas, são tantos os estilos de vida na história que mal poderiam ser contabilizados. Palavras como cornucópia e panacéia estão francamente associadas com a abundância da vida.

A arte da vida consiste em lidar com essa abundância, inclusive em sua ausência. A morte visita a vida a todo instante. Chega e caminha com a vida por estações e possibilidades. Riem e choram juntas e depois andam de mãos dadas, em silêncio, seguidas por seus discípulos.

Nessas visitas foram os dinossauros, mamutes e mares. Vida e morte dançam, os satélites giram e se perdem. Discutem, e soterram reis e rainhas. Jogando com as forças da transformação, projetam uma miríade de mundos. E os varre, num átimo.

O que vemos são os sobreviventes e as novidades da vida. Não se trata da sobrevivência do mais forte nem do mais fraco. Todos passarinho ou passarão. Trata-se apenas de viver até o fim.

Viver até o fim significa compreender o fim da vida. Se a vida tem uma finalidade, ou duas, ou nenhuma – compreende-se isso, e bem. Os seres humanos são quase sempre dotados de razão e normalmente afortunados com capacidade de aprender. Compreender é uma de suas habilidades afetivas.

A vida é o meio onde se vive o fim e a finalidade da vida. Cada qual vive e morre muitas vezes ao cabo de uma vida. Acontece o tempo todo com sensações e memórias, implacavelmente natimortas. Acontece com as personalidades, no crepúsculo dos ídolos, em plena sala de aula – o fim da vida segundo cada escola, por toda a infância e a adolescência. Ocorre nos livros e nos currículos ocultos. Finalidades sussurradas, acondicionadas em condicionantes e tônicos.

Compreende-se isso: o fim, por via da visão e revisão da finalidade da ação, sua intencionalidade e natureza. A vida humana tem fim, sua finalidade é ser humana, do começo ao fim, conforme a realização de suas potências e circunstâncias.

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