Bagageiro?

Levamos conosco uma bagagem invisível. Malas e baús de informação e emotividade que carregamos para quase todos os cantos. Raramente aprofundamos o entendimento sobre como e porque é que passamos a carregar essa tremenda bagagem. Frequentemente acreditamos e sentimos que esses conteúdos são nossos.

Desde pequenos, aprendemos e somos ensinados a identificar coisas. Nossos pais recitam todos os nomes das coisas que devemos aprender a chamar. Daí acreditamos que aquela “coisa” “ali” realmente se chama “árvore”, “inimigo” ou “mamãe”. Somos treinados em um tipo de raciocínio que afirma que se uma coisa é boa ela não é ruim.

A inventividade, a liberdade de não estar preso à forma e quase todo o pensamento divergente – a capacidade de criar e enxergar diferentes perspectivas para uma mesma questão – são, com o tempo, deteriorados em favor da conformidade. Estereotipados e estilhaçados, caminhamos para nos tornar alfinetes na engrenagem que já estava lá.

Fixados no raciocínio “ou [isto] ou [aquilo]”, temos dificuldade em enxergar as coisas como pontes. Se algo chamado sociedade atrapalha, então deve ser destruída. Se aquelas mulheres não agem como nós, então devem ser totalmente diferentes da gente.

Educação, por que é tão difícil exercitar o pensamento construtivo? Como é fácil criticar, desacreditar ou destruir qualquer coisa percebida como oponente. Do mesmo modo, temos incrível e indisfarçável dificuldade em tomar a divergência e a dissonância como plataformas onde podemos treinar poderes como compaixão e sabedoria. Quase sempre estamos em copas, defensivos e prontos a afundar qualquer coisa que não seja do modo como pensamos ou queremos.

Não espanta que a grande maioria das pessoas sofra de variadas neuroses. Nem que a gente precise de mais e mais prisões, mais e mais armas de destruição, mais e mais calmantes. Não espantam os muros altos e as cercas elétricas, nem os carros com os vidros fechados. Não espanta que haja tanto medo, tanto jogo de cena, desconfiança e ineficiência.

Temos o hábito de pensar negativamente. É muito fácil para nós detectar tudo aquilo que não gostamos. De fato, somos capazes de passar horas e anos repetindo uma mesma reclamação e até moldar nossas vidas com base no desgosto. Encontrar problemas não é algo necessariamente ruim, mas a incapacidade de ultrapassar o diagnóstico para uma etapa de tratamento é um tipo de paralisia.

Frequentemente somos paralisados pelo peso de nossas bagagens. Não podemos entrar em um lugar porque tudo aquilo que carregamos conosco trava nossos passos. Não podemos conversar com uma pessoa porque nossas ideias e sentimentos já atuam como muros. Acabamos sozinhos, abocanhados por uma inconfundível carência ou senso de deslocamento. Separando o mundo em pedaços – zonas, nações, clãs, tipos, classes; em “eu” e “aquele” -, terminamos reduzidos a uma ilha artificial e tensa.

Se não estamos completamente destruídos pelo peso de nossas malas e baús, podemos lembrar que esses conteúdos não estavam sempre lá. Com alguma sorte, poderemos voltar a ver o que significa ter espaço e tempo livres. Oxalá encontraremos um sentido, muito mais rico, para o que chamamos atualmente de liberdade. Se não estivermos completamente soterrados por tudo aquilo que nos diferencia, poderemos nos dar conta de que ainda temos muito em comum (argh!).

Será preciso listar aqui tudo aquilo que temos em comum para que possamos ver que a ênfase na diferença é um exagero largo? Esquecendo o que temos em comum perdemos a memória de que nossas dores são também as dores do mundo. Se não temos nada em comum, então não podemos conversar, não podemos compartilhar, não podemos compreender e nem podemos amar. Sequer poderemos amar.

Ô, podemos ver!  Ver com nossos olhos, que temos em comum. Sentir com nosso corpo sensível, que temos em comum com os bichos, as árvores e a terra. Ainda precisamos nos alimentar, exatamente como os outros precisam de nutrientes e zelo. Quando o que amamos se perde, sofremos; e compartilhamos emoções familiares, como a raiva, a inveja e o orgulho.

Apesar de nossas religiões e ciências reafirmarem nosso vigoroso desconhecimento, agimos como se a verdade exalasse de nossos poros. A humildade – nada menos que o senso de que podemos aprender uns com os outros porque somos tanto em comum – é cada vez mais rara, mesmo entre pregadores da palavra e do ensinamento.

É como se todos estivéssemos tão cheios que não nos restasse muito mais do que explodir quase todo o tempo. Como se todos estivéssemos tão vazios que não pudéssemos deixar de consumir tudo aquilo que tocamos. Contudo, como é não-carregar essas malas e baús cheios de verdades absolutas, pré-conceitos, julgamentos, sentimentos, traumas, desconfianças, ignorância e um exército de filtros?

E afinal de contas, o que é mesmo que nos impede de abrir nossas mãos? Anotar: Gerar ciência daquilo que impede o movimento natural da mão. E outra: começar pelas valises e pochetes.

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3 comentários sobre “Bagageiro?

  1. gostei breno. a minha tendência é cada vez mais ir liberando as malas, malões e malinhas. ufa! é um grande alívio e dá uma enorme sensação de liberdade!

  2. vc tão breno e eu tão ni, ahá! seguinte me avisa por telefone das coisa, tenho me livrado dessa “mala” chamada internet! dai só vejo depois de acontecido. sempre no coração amando o amável e o odiável. seguindo sem medir a distância. sem medir a altura. sem medir o tempo. sendo e pertencendo sem ser e pertencer. conversando com o silêncio. intemperies são companhia. caminhando sem obrigação. sem nenhum desafio. respirando fundo. repartindo amor até com o cão. amo

  3. Rios e mais rios que passam por mim. O que você escreveu é uma aula de flutuabilidade. Preciso reler este texto sempre, todos os dias. Preciso lembrar que preciso nadar e não afundar. O fundo é escuro e lamacento e eu não posso ficar por muio tempo. Preciso estar na superfície destes meus caminhos fluviais. De lá poderei ver os momentos de parar e de seguir. No final, seguir sempre. Lembrar sempre que é preciso esquecer. Continue me inspirando. Meu coração agradece a você.

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