Devore-me ou te renovo?

Poucos de nós realmente sabem a história da construção do pensamento democrático. Há quem acredite que a democracia é definida pela vontade da maioria. Obviamente, uma democracia marcada exclusivamente pela vontade da maioria deveria ser chamada de tirania.

Uma democracia deve equacionar os diferentes interesses de modo que os diferentes pontos de vista não se aniquilem mutuamente. Por incrível que pareça – civilizados como dizem que estamos -, não é nada fácil. Por toda parte há violência: nas melhores famílias, entre as pessoas, nos governos e empreendedores, no sistema de ensino, no trânsito, no militarismo, no mundo fashion, na indústria alimentícia, no telejornal – a violência é onipresente.

O que se chama de democracia é um movimento, uma intenção e um processo em curso. Não vive numa democracia uma pessoa dominada por seu governo, feita alienada por opção e condição do governo. Quando falamos em democracia, precisamos entender: não se trata apenas de economia.

Uma democracia é um arranjo e um tipo de organização. Acredite quem quiser que o arranjo adotado pelos chamados democratas está pronto e acabado. Não é incomum flagrar supostos democratas agindo como bestas totalitárias, devotas do obscurantismo e da superstição.

Frequentemente deparamos com gente dita democrática que irá defender com unhas e dentes seus luxos e acessos, mesmo que alimentem a miséria e a violência para uma grande maioria. Todos sabem que nossa atenção é seletiva, e que temos uma tendência autocomplacente. Independência ou morte, não é mesmo?! Dizem que somos superiores aos animais, mas o que temos feito para sobreviver desafia essa simples pretensão.

Fiquem os animais em paz, os humanos já têm problemas de mais! Não conseguem se organizar e estar à altura de sua própria inventividade. Temos medo e vivemos recalcados em meio a distrações apaziguadoras ou autoafirmantes. Apesar do instinto de aprender, preferimos conviver com certezas e respostas prontas. Matamos uns aos outros por toda sorte de ideias, inclusive pelas melhores!

Convivemos com a mentira como se ela tivesse se tornado verdadeira. São tempos ao contrário, quando as portas de nossos paraísos pessoais são passagem para os infernos. A essência dos ensinamentos é abandonada pelo culto a personalidades míticas inventadas, selecionadas e modificadas por dezenas de gerações há milênios.

A existência de mentalidades conservadoras é fundamental se não quisermos reinventar a roda o tempo todo. Podemos aprender técnicas incríveis e truques realmente mágicos com os velhos e velhas ancestrais, que já estiveram lá, sobreviveram e voltaram. Sem a conservação seríamos triturados pela destruição criativa. Você não chegaria a completar dois anos de idade!

Mas conservadores não são donos da verdade. Muitos fatos históricos são apenas versões, contos do vigário, estratégias de poder e controle social, ou respostas a contextos específicos.

A grande questão entre inovadores e conservadores está na visão. Os últimos primam pela formalidade de estruturas e fórmulas, enquanto os inovadores chegam a brincar com a forma. Por isso se pede respeito aos mais velhos, a adesão ao modelo estruturado, ao modo como as coisas são feitas e as palavras ditas. Poucos de nós chegam realmente a estudar as forças que nos condicionam. Não espanta que nossa visão possa ser tão rica em pré-conceito e automatismo e bastante pobre em capacidade investigativa e imaginação criativa. Estamos simplesmente tentando sobreviver a mais um dia, não querendo pensar muito, realmente exaustos de atuar como hamsters em rodinhas girantes.

Há uma dose incomensurável de cansaço nos olhos das pessoas. E a elas é dito que precisam trabalhar mais, ou que ficarão desempregadas. (O desemprego é uma grande invenção.) E todos sabem que há muitas contas para pagar se você quiser ser alguém. É um bom cenário se a intenção é gerar violência e desconfiança sistêmicas e moldar mentalidades obsessivas, reativas e impressionáveis. Ninguém passa 15 anos nas escolas sem sair delas pensando que há respostas corretas. Naturalmente, muitas pessoas estão na defensiva, e precisam de válvulas de escape.

Nossas democracias não estão prontas simplesmente porque não estamos prontos. Estamos em curso. Nunca antes estivemos conectados como hoje e a linguagem está cheia de novas metáforas. Os debates são marcados pelo choque de visões e tempos. Felizmente não há fórmulas, o que exige presença para lidar com a onipresente tensão de não saber, de ter que soltar, de estar agarrado a um navio afundando, de ter asas e não poder voar, de voar alto demais e perder o ar – tudo é parto. E quando a criança nasce é apenas o começo.

A mudança é inevitável. Se você ainda não prestou atenção nesse detalhe, talvez possa começar olhando para seu próprio corpo. O que fazemos com a mudança – se vamos reagir a ela, se vamos surfá-la, se vamos contorná-la, se vamos nos dissolver nela –  tem a ver com nossa idade. Atenção, porque nem sempre o que fazemos é expressão de nossa liberdade, apenas o resultado de nossa configuração.

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