Teto da dívida?

Em toda essa conversa sobre a dívida americana não se ouve falar do meio ambiente. Entretanto, toda essa crise tem sua fundamentação na relação dos empreendedores e gestores político-econômicos com o meio ambiente.

Removendo montanhas – Daniel Shea

Uma cédula de dinheiro não é nada mais do que um pedaço do meio ambiente sendo transformado em recurso por nós. Ao pagar as compras em um caixa de supermercado, o consumidor está “pagando” por partes de meio ambiente em calda, em chips, à vácuo. Onde o consumidor vê uma garrafa de cerveja, ali está o meio ambiente fracionado em recurso.

Quando o espectador vem a ter com uma notícia sobre o aumento do PIB, ele deveria ter em mente que o PIB é um índice dependente da extração e desperdício de frações ambientais. Portanto, o aumento do PIB não representa uma notícia necessariamente feliz e alvissareira.

O PIB está interessado apenas nas atividades associadas a valores monetários. Ignorando todos os valores não-monetários da economia, o PIB nasce manco e restringe o conceito de riqueza. Além disso, o PIB torna-se francamente disfuncional ao computar como riqueza custos sociais como conflitos, acidentes, litígios e gastos com saúde. Lembra-nos Ralph Nader: “Toda vez que acontece um acidente de carro o PIB cresce.”

Por trás da fachada de neutralidade técnica, o PIB é estimulado por valores demasiado humanos: egoísmo, cobiça, gula e orgulho, que moldam uma visão marcada pelo reducionismo, imediatismo e triunfalismo; e condicionam uma atitude hipercompetitiva, possessiva e oligarca por parte dos “jogadores” econômicos e partes interessadas.

Removendo montanhas – Daniel Shea

Mercados livres existem apenas na cabeça de Milton Friedman e seus discípulos. No duro, os mercados são controlados por grandes corporações com papel decisivo nas políticas públicas que, entre outros efeitos, forçam os consumidores a se tornar investidores involuntários em guerras, colapsos ecossistêmicos e demandas artificiais. Haja “Mão Invisível”!

O dogma econômico atual exclui o custo ambiental de seus cálculos. Isso significa que algo ou alguém está arcando e subsidiando esses custos para nós. “Inflação” é o nome que damos ao que acontece quando esse algo ou alguém não consegue mais arcar com os custos de nossas demandas. “Inflação”, diz Hazel Henderson, “é apenas a soma de todas as variáveis que os economistas deixaram de fora de seus modelos.”

Entre as variáveis abandonadas pelo economistas está o “capital natural” –  a base de todas as chamadas “matérias-primas” e a fonte de toda a energia que usamos como “recurso” para sustentar nossos estilos de vida. Sacando cada vez mais da poupança natural, construímos uma dívida. E a fim de calotear a dívida, excluímos os custos ambientais (e sociais) de nossas economias, como se não quiséssemos ver o resultado completo de nossas ações. Mas onde a dívida foi parar? Ora, ela está nos engolfando e engolindo.

Removendo montanhas – Daniel Shea

Então, como aumentar o teto da dívida pode realmente solucionar o problema? Não pode. Aumentar o teto da dívida significa simplesmente ampliar o limite do saque.

Portanto, toda a crise da dívida pode ser vista como uma manifestação de uma crise ambiental catalisada pelo consumismo sem o qual uma economia baseada no crescimento infinito não passará. Além disso, a crise ambiental pode ser enxergada como um fenômeno alimentado por uma crise de percepção, movida por um conjunto de crenças-sensações incoerentes com a lógica de funcionamento e manutenção da vida.

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2 comentários sobre “Teto da dívida?

  1. A percepção da divindade do Ser- sem a compreensão da sua eternidade – faz desejar o infinito no infinitesimal de apenas uma volta do carrossel.

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