Narciso 2.0?

imagem: Banksy

“Um fenômeno relacionado a esse é a transformação do verbo ‘curtir’ que, graças ao Facebook, deixa de ser um estado de espírito e passa a ser um ato que desempenhamos com o mouse – deixa de ser um sentimento para virar uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto que a cultura comercial oferece para o ato de amar. A propriedade espetacular de todos os produtos de consumo – especialmente aparelhos eletrônicos e aplicativos – é que são desenhados para ser imensamente curtíveis.(…)

Mas se você considerar a questão em termos humanos, e imaginar uma pessoa definida pelo desespero de ser curtida, o que você vê? Uma pessoa sem integridade, sem centro, é o que você vê. Em casos mais patológicos, você vê um narcisista – uma pessoa que não pode tolerar a mácula na auto-imagem dele ou dela que não ser curtível representa, e que a faz, portanto, retirar-se do contato humano ou ir ao extremo das profundezas do sacrifício da integridade para ser curtível.

Se você, contudo, dedicar sua existência a ser curtível e se assume que qualquer máscara bacana é necessária para realizá-lo, isso sugere que você tem estado desesperado para ser amado por quem você realmente é. E se você tiver sucesso em manipular outras pessoas para que curtam você, dificilmente deixará de sentir, em algum nível, escárnio por essas pessoas, porque elas caíram no seu teatrinho. (…) Produtos de tecnologia de consumo nunca fariam nada assim tão desagradável, já que não são pessoas. São, porém, grandes aliados e capacitadores do narcisismo. Junto ao inerente interesse deles em ser curtíveis está o desejo essencial de ser evidentemente bons para nós. Nossas vidas parecem bem mais interessantes quando são filtradas através da sexy página do Facebook. Nós estrelamos nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e a máquina confirma nosso senso de controle.

E, já que nossa tecnologia é realmente somente uma extensão de nós mesmos, não precisamos ter escárnio pelo modo como nos manipula do mesmo modo que podemos ter pelas pessoas reais. É um grande ciclo sem fim. Nós curtimos o espelho e o espelho curte a gente. Ser amigo de uma pessoa é meramente incluir a pessoa em nosso exclusivo salão de espelhos aduladores”.

– Jonathan Franzen, em
Liking is for Cowards

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