Lutar ou fugir?

“Composizione non finita – infinita”, de G. Bertozzi e S. Dal Monte

Eric Hobsbawm chamou o século XX de “Era de Extremos”, um período caracterizado pela brutalidade sem precedentes. Quando perguntado sobre sua visão para o século XXI, o historiador respondia que as próximas décadas não seriam agradáveis.

O extremista Bin Laden não se sentia confortável com a vida moderna. Acreditava que os valores modernos eram um acinte ao estilo de vida pré-moderno. O mulçumano parecia não enxergar qualquer possibilidade de diálogo ou de atualização. Seu radicalismo pode ser interpretado como uma maneira de proteger os símbolos com os quais se identificava. Bin Laden acreditava que seus valores estavam ameaçados. Lutar ou fugir?

O impulso de auto-preservação é uma corredeira poderosa. Bem canalizada, derruba obstáculos. Em sua forma doentia, é um senhor terrível e egocêntrico. Laden respondeu com gélida fúria e vingança, optando por atacar e destruir as vidas e os valores que pareciam ameaçar seu mundo. Subsidiando sua consciência, uma voz que lhe consolava: “- O bem está ao seu lado. Eles são demoníacos, maléficos. Nós estamos certos.” Sem nuances, Laden tomou sua posição como absoluta, justificou seus planos e avançou em sua “cruzada contra o mal”.

Seguindo o ataque, o Papa pronunciou-se: “- O mal não terá a última palavra.” Não que precisasse, porque a grande maioria dos norte-americanos – unidos pela perda, pela dor e crença de que os Estados Unidos são o maior país do mundo – já tinha ouvido sua própria voz: “- Somos bons, amamos a liberdade e a justiça. Eles são desumanos, maléficos. Nós estamos certos e aplicaremos a justiça aos responsáveis por nossa dor”. Justificados, iniciaram sua “cruzada contra o mal”.

A polarização quer saber quem está certo, quem está errado. A polarização não permite nuances, portanto, é uma das forças do extremismo. Como um filtro, barra a complexidade, deixando passar apenas partículas monológicas. Lutar ou fugir?  Qualquer resposta parece depender de uma variedade de contextos. Por exemplo, de acordo com o código de inspiração zen, a melhor luta é não lutar, e a verdadeira espada é nenhuma espada. Porém, é ingênuo quem pensa que o samurai nunca poderá usar sua espada.

Após anos de caçada, conta-se que Bin Laden foi morto. Os canais de televisão mostraram cenas de celebração – o mundo respira mais aliviado? Fora e dentro de nossas identidades pessoais e coletivas, acabou-se o pesadelo do terrorismo fundamentalista e do dogmatismo?  Afirma-se que o corpo de Laden foi jogado ao mar. Isso destruiu o sistema de ideias e credos que movia o extremista?

Uma Era de Extremos. Uma Era de (auto-afirmações e) respostas extremas. Um período no qual alegamos ter todos os conhecimentos (e dúvidas) abrangentes. Um tempo quando projetamos injustamente nossas premissas (se é que estamos cientes delas) e expectativas, além de tomar uma realidade de diversidade como um cenário monológico. Nada mais para aprender. Apenas postos para assegurar.

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