Casas do Interser

Íntegra do ensaio Casas do Interser: Despertando para a Interdependência da Diversidade, publicado no livro “E que Viva a Vida”, lançado pela Ong Baobá.

 Quando isto é, aquilo surge,
Como curto quando há longo.
Devido à produção disto, aquilo é produzido,
Como a luz surge da produção de uma chama.
– Nagarjuna, em
Guirlanda Preciosa


Encontramos muitas pessoas proclamando o tempo de salvar o planeta1. Como se a vida não tivesse passado por situações mais catastróficas do que conviver com nossa avidez (Raubwirtchaft) e auto-engano. A Terra irá se virar sem nós. Em sua história, somos tão recentes quando o ponto final de um livro com bem escritas trezentas páginas, e ainda em curso.  Representamos pouco no contexto da história da biodiversidade, e ainda assim nosso impacto é estrondoso.

É certo sim que, em nossa ânsia pela perfeição do conforto, levamos dor e extinção a um número crescente de seres. Está claro que, através de nosso antropocentrismo, degeneramos ecossistemas inteiros. E também parece evidente que, apesar disso tudo, a vida continuará – diferente e dinâmica. Sem seres humanos – frágeis criaturas com corpo de carbono – a vida seguirá com suas experimentações. Quão improvável é que certos organismos passem a se alimentar de nossos detritos plásticos?2.

A margem do planeta é consideravelmente maior do que a nossa. Uma pequena variação na temperatura global ou uma perturbação nos ciclos de água e serão muitos os humanos mortos por dia. Já somos muitos os humanos que morrem diariamente. Apenas hoje, 22 mil crianças irão morrer de fome3. Salvar o planeta é uma dessas pretensões tão humanas. O planeta prosseguirá, conosco ou não. Está aí girando há quatro bilhões de anos, muitas vezes congelado. A questão não é sobre salvar o planeta, mas sobre a continuidade da espécie humana nele.

O Conhecimento e a Gestão da Casa

A ecologia sempre foi inevitável. Mesmo no início do século XX, sabia-se que os biólogos deveriam atingir a compreensão da vida como um todo, incluindo o gerenciamento do capital natural. Tendo raiz nas ciências biológicas, a ecologia amadureceu para se tornar uma ciência integrativa, “uma ponte tão necessária entre a ciência e a sociedade” (C. P. Snow, 1963).

A palavra ecologia deriva do grego oikos (“casa”) e logos (“conhecimento”). O termo economia também deriva da raiz grega oikos, mas nomia significa “gerencialmento”. Portanto, ecologia se traduz como o “conhecimento da casa”, enquanto economia significa “gestão da casa”. Ambas têm a mesma raiz, portanto são aliadas e complementares. Consequentemente, foi possível o desenvolvimento de uma nova disciplina interfacial, a economia ecológica, que integra o conhecimento e o gerenciamento da casa em uma visão coerente4.

Por causa das conquistas tecnológicas (e de nosso especiecismo), pode parecer que dependemos menos do ambiente natural. Esquecemos da nossa dependência contínua do ambiente, em termos de seus serviços (ar, etc.) e produtos (minerais, etc.). Muitos simplesmente assumem que os bens e serviços naturais são ilimitados ou repostos pela inovação tecnológica, o que explica a ausência do custo ambiental nas equações econômicas modernas. Conforme adentramos o século XXI, avolumam-se as evidências de que as questões econômicas são indissociáveis dos temas ambientais.

São insistentes as informações que retratam a humanidade como “um agente geológico poderoso” (V. Vernadsky, 1998). Nossa sociedade urbano-industrial afeta os ecossistemas, além de criar acordos inteiramente novos, surpreendendo a estabilidade e a capacidade de resiliência dos sistemas ambientais. Em um mundo finito, é urgente que nosso tecnoecossistema (cidade, comércio, etc.) faça interface mutualística com os ecossistemas de suporte à vida.

Entre nossas altas probabilidades, podemos dizer que continuaremos a crescer em número; que teremos que atacar a poluição aos sistemas vitais (atmosfera, água, etc.); que precisaremos fazer uma importante transição no uso da energia fóssil para outras fontes, mais limpas e renováveis; e que a humanidade irá ultrapassar sua capacidade de suporte, atravessando ciclos de colapso e pontos de corte. “O desafio no futuro”, dizem Barrett e Odum (2000), “não será como evitar a ultrapassagem, mas sim, como sobreviver a ela reduzindo as dimensões do crescimento, do consumo e da poluição.”

Sobram estudos avaliando a difícil situação da humanidade5. Os alertas sobre a necessidade de mudanças fundamentais são mais comuns. Com a população mundial crescendo a uma taxa sem precedente de quase 80 milhões de pessoas por ano6, torna-se iminente que “a ciência e a tecnologia não sejam capazes de evitar tanto a degradação irreversível do meio ambiente como a pobreza constante em boa parte da população” (Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos e Sociedade Real de Londres, 1992).

Obcecados pelo usufruto e crescimento das posses materiais, e limitados por uma visão moldada pelo imediatismo7, desconsideramos que “as civilizações se tornam instáveis e entram em colapso quando o alto custo da manutenção resulta em uma burocracia que gera demandas excessivas sobre o setor produtivo” (K. Butzer, 1980). Gananciosos como crianças egocêntricas, sofremos os efeitos da grande dificuldade de amadurecer e transcender a noção de que o mundo é nosso supermercado particular. Congratulamo-nos com o texto bíblico (Gênesis 1:28) que diz aos fieis para “frutificar e multiplicar”, mas optamos por esquecer outra passagem (Lucas 12:42), onde somos aconselhados a nos tornar “mordomos”, isto é, servidores, zeladores e guardiões do mundo e de todos os seres vivos.

Em termos práticos, isso significa a criação de uma holoeconomia que considere igualmente o capital de mercado e o capital natural. Felizmente, essa integração entre economia e ecologia vem ganhando atenção8. A educação, por seu peso na transmissão da cultura básica, também precisa ser reformulada para transcender a visão predominantemente dicotômica (homem vs. natureza; homem vs. homem) e “bancária”9, que lhe caracteriza atualmente.

Finalmente, parece fundamental que a perceptível dualidade em nosso senso comum precisa ser reconhecida, caso desejemos cultivar uma sociedade sustentável e equânime, capaz de estreitar as largas iniquidades10 que imperam em nossas relações sócio-ambientais e que, em última análise, estão no seio das causas da violência generalizada que aterroriza nossos dias e noites11.

Uma Casa, Muitas Moradas

O conhecimento agora é global. Isso significa que a sabedoria e a reflexão pré-modernas, modernas, pós-modernas e integrais estão disponíveis a quem desejar acessá-las. Na aldeia global, todas as culturas estão ao dispor e expostas umas às outras. É o tempo do encontro de culturas centradas em diferentes perspectivas de si mesmas (Eu; Nós; Todos nós) e do mundo (Dentro; Fora; Dentro e Fora)12. Tensões resultantes podem ser a chave para preciosos aprendizados acerca da natureza de nossas auto-imagens e perspectivas culturais, destravando aspectos latentes de nossas potencialidades.

Observando uns aos outros, podemos dar conta de uma irregularidade em nosso desenvolvimento. Howard Gardner sintetizou esse conceito ao cunhar a idéia de inteligências múltiplas13. Em suma: os seres humanos possuem uma variedade de inteligências específicas (por exemplo, musical, cognitiva, interpessoal, valores, emocional, etc.), e a maioria das pessoas é excelente em algumas delas, mas pouco eficiente em outras. Parte da sabedoria da solidariedade foca o reconhecimento dessa diversidade e aprende a lidar com ela.

Essa sabedoria da convivência é ampliada pela compreensão das ondas de desenvolvimento que marcam o florescimento pessoal e cultural – um avanço no entendimento da subjetividade e da intersubjetividade, possível a partir de inúmeras pesquisas transculturais. Essas ondas (ou estágios, ou níveis) de desenvolvimento sugerem a inevitabilidade da pluralidade de visões de si e do mundo, e a ocorrência de lógicas pessoais e culturais distintas14. Assim, uma mesma “coisa” passa a ter dimensões correlativas, ou seja, é percebida diferentemente a partir de como e de onde é observada. Daí, a nítida ocorrência das diferentes abordagens e noções para a espiritualidade, a ciência, o ambiente e a ética, isto é, para os mundos “de dentro” (eu; nós) e “de fora” (isto; istos).

Portanto, o convívio em um mundo multicultural e policêntrico passa pelo reconhecimento não apenas de diferentes estados de consciência, mas também de ondas de desenvolvimento e inteligências múltiplas. Sem esse mapa (e ele é uma aproximação do território), provavelmente tomaremos a parte pelo todo, alegando ter todos os conhecimentos abrangentes e projetando injustamente nossas premissas e expectativas, além de tomar uma realidade de diversidade como um cenário monológico. Assim, agentes da paz, gestores, educadores, praticantes espirituais, ativistas sócio-ambientais, permacultores, políticos, aprendizes, dentre outros (auto-) transformadores, podem ganhar um instrumento favorável aos seus objetivos de equidade e sustentabilidade ao adotar uma abordagem que reconheça o aspecto dialógico da realidade, isto é, o modo como a cultura (ou intersubjetividade) molda as percepções individuais de fenômenos (e dharmas). Tal mapa pode favorecer o entendimento mútuo ao não esperar que bananas frutifiquem de trigais, insinuando os possíveis benefícios do treino em diversos níveis e tipos de linguagem; além de não incorrer no clássico erro de atribuir verdade absoluta ao que é, em parte, uma preferência cultural.

A Casa não é a Casa é a Casa

Conta-se que ninguém é tão sábio que não possa aprender, nem tão estúpido que não possa ensinar. Essa afirmação sugere que a consciência humana é um espaço de abertura, caracterizável como crescente complexidade interdependente. Assim, não há mestrado sem (auto-) aprendizado, nem global sem local, nem eu sem você – o que indica que a Casa é formada por elementos não-Casa. Isso significa que habitamos um paradoxo entre autonomia e dependência. Portanto, faz sentido aprender a cuidar uns dos outros – incluindo inimigos, desconhecidos e outras espécies da comunidade da vida – o que parece requerer que avancemos do atual senso hegemônico de independência para uma noção ampliada, mais inclusiva e lúcida, de interdependência. Uma tal visão advoga o treinamento da compaixão (por exemplo, meditação Tonglen), da equanimidade e do regozijo, além de asseverar o poder do diálogo, da escuta profunda, da atenção plena e do desprendimento material e conceitual – qualidades de interação vitais ao sucesso do projeto humano na Casa chamada Terra.

Referências

1. Dunlap, R. E. et al. Health of the planet: a george h. gallup memorial survey, 1993.
2. Weisman, A. O mundo sem nós, 2007.
3. UNICEF. State of the world’s children, 2010.
4. Farina, A. The cultural landscape as a model for the integration of ecology and economics, 2000. E ainda: Brown, L. Eco-economia, 2001.
5. IPCC. Climate change, 2007. E ainda: UNEP. Annual report, 2009. E mais: Worldwatch Institute. State of the world 2010: transforming cultures, 2010.
6. ONU. The world at six billion, 1999.
7. Ornstein, R; Ehrlich, P. New world, new mind: moving toward conscious evolution, 1989.
8. Constanza, R. Ecological economics: the science and management of sustainability, 1991. E ainda: Hawken et al. Natural capitalism: creating the next industrial revolution, 1999. E mais: Penteado, H. Ecoeconomia: uma nova abordagem, 2003.
9. Freire, P. Pedagogia do oprimido, 1970.
10. UNDP. A world of development experience, 2003.
11. World Resources Institute. World resources 2002-2004: decisions for the earth: balance, voice and power, 2002.
12. Wilber, K. Espiritualidade integral: uma nova função para a religião neste início de milênio, 2006.
13. Gardner, H. Estruturas da mente, 1983.
14, Como se pode compreender a partir das pesquisas de James M. Baldwin, Willian James, Michel Foucault, Abraham Maslow, Jean Piaget, Jacques Lacan, Jacques Derrida, Wilhelm Dilthey, Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer, Sri Aurobindo, Clare Graves, Susann Cook-Greuter, James Fowler, dentre outros investigadores dos “sinais de altitude” do desenvolvimento.
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