Nós e os macacos

ilustração: estergm

Aparentemente, estamos todos enredados em nossas próprias tramas. Temos nossos próprios interesses, individualidades. Quem pode dizer aos macacos para se descuidarem de si mesmos? E dos membros de seus clãs?

É claro que os macacos não habitam o mundo sozinhos. Precisam do sol para comer suas bananas. É um problema radical pra eles quando chegam os humanos, com suas cidades e idéias sobre os macacos para uso cosmético ou científico.

Os seres humanos esquecem como dependem do sol. Os seres humanos dizem foda-se ao sol, com seus óculos escuros e black-outs. Na Terra, são os bichos que subverteram o dia e a noite, deuses da iluminação e dos estimulantes. É difícil não nos ufanarmos, mesmo miseravelmente.

Conta-se sobre a genialidade humana. A tecnologia e os tratados filosóficos testemunham em favor de suas capacidades extraordinárias. Mas não são o homem e a mulher e as crianças que consomem o mundo ao ponto de degradar as tramas alheias? Não são os humanos os super-animais produtores de fraldas que não se decompõem em 500 anos?

Está bom tempo para o reconhecimento da inexistência dessas coisas que chamamos de “nossas”. Mais precisamente, não é que elas não existam, é que ignoramos sua completude. Somos dados à memória seletiva e à abstração fugidia. A ciência sugere que deveríamos ser mais humildes acerca de nossas certezas. Desbundam na história revoluções de conhecimento e hegemonias superadas.

Temos aqui a possibilidade de nos educarmos. Podemos estudar os macacos e então, por exemplo, compreender que têm certas necessidades. Podemos até nos afeiçoar pelos macacos e aprender a apreciar suas macaquices. É sabido que nossas tramas são condicionadas por nossas sintonias.

Em resumo, podemos ampliar nossos escopos, reconhecendo outros elementos e relações, antes despercebidos. É curioso que a palavra conhecimento tenha raiz no termo atenção. E que todo o conhecimento acumulado pelo homem das cavernas até hoje sugira um grande desconhecimento, bastante desafiado pelo poder de aprender.

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