Entremeados?

via Chico

I tell you we must die
_ Jim Morrison

 

Temos um longo caminho pela frente. As utopias têm essa tendência ao sentido, e compartilham quase sempre uma certa insatisfação com o momento presente. As utopias são bem vindas.

Neste momento, somos bilhões de pessoas habitando um ponto azul na periferia de uma galáxia dentre incontáveis outras. Lembremo-nos disso.

Agora mesmo, uma sirene de ataque e guerra aterroriza alguns de nós. Agora mesmo, estamos a girar apesar de parecer que a Terra está parada. Movimento e ausência de movimento convivem ao mesmo tempo neste espaço.

Nenhum de nós está exatamente onde todos os outros estão. Isto significa que nosso privilégio a uma identidade é um bem compartilhado por todos. Por que então guerreamos contra nossas caras-metades?

Estamos presos pela jóia de nossas culturas. Nossas identidades nos aparecem como fascínios. Apegados à luz de nossas histórias e conquistas, mal podemos ver que o mesmo ocorre com todos os outros.

Buscamos no outro aquilo que não podemos dar. Exigimos dos outros que nos compreendam, mas somos incapazes de compreender a incompreensão. Somos fúteis em nossas altas expectativas.

ilustração: Flávio Grão

É bom sonhar quando estamos acordados. As utopias não deveriam representar expurgos genocidas. Contudo, se tivessem a intenção do expurgo e da morte, então deveriam ser reconhecidas como tal e chamadas “distopias”.

Nosso custo tem sido socializado com todos, mas o lucro queremos para nós. Gostamos da palavra exclusividade. Gostamos de estar por cima, mesmo quando preferimos estar por baixo. Somos dúbios sobre nossos interesses.

Nenhum de nós parece imune aos seus próprios hábitos. Poderíamos reconhecer isso. “Somos quem somos, não nos diga o que fazer”, é o que dizemos. “Somos assim, morreremos assim”. Que monológicos!

Por que deveríamos nos surpreender? Estamos bêbados de independência e ideologia. Mal podemos enxergar meia dúzia de passos além de nosso nariz, que dirá “calçar o sapato do outro”.

O outro, que invenção. Dizem que o Diabo gosta que pensem que ele não existe. Dizem que o Diabo é o outro. Mas quem é o outro? Quem inventa o outro? Quem responde ao outro? Quem faz uso dele?

Nós fazemos uns  aos outros. Somos inteiramente responsáveis por nossas criações e pelas balelas que nos contamos, para nos aliviar dos riscos. O outro somos nós – nossos mestres, pais, amigos…

Raios! Por que essa afirmação deveria significar que não somos quem pensamos/sentimos ser? Aos que podem ver: somos as duas situações ao mesmo tempo, o que explica uma parte da onipresente tensão social.

Somos ambos/e. E ainda assim não somos isto nem aquilo. Ao mesmo tempo. Quão difícil transitar o fio da meada! Estamos muito prontos para definir, classificar, categorizar, denominar, rotular e julgar.

Nossa sociedade agora apoia e promove o excesso. Todos têm que ter tudo aquilo que todos têm. Num planeta finito? Por sorte, a tecnologia irá nos salvar, porque ela certamente irá criar mais e mais e mais e mais coisas!

Sim, a tecnologia pode ser uma boa aliada, está claro. Mas também pode ser a mãe de todas as guerras e desfalques. E o que seria da tecnologia sem nossas intenções e percepções de mundo?

A tecnologia pode até ser neutra, mas possui guarda-costas humanos. Portanto, não se trata da tecnologia. Que tendência é essa de nos subtraírmos da equação que provocamos?

Somos tão afortunados, temos a potencialidade do alienamento e da abertura compreensiva. Se estamos presos numa mesma cela, a experiência da cela é única para cada um de nós. Temos asas, mas ainda podemos voar sem elas.

Estamos no centro da equação, mas não podemos nos enganar: a equação é policêntrica e não necessariamente linear.

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