Baile de máscaras

via peewee gonzoid

Somos maiores que nossos nomes, e as funções sociais não nos podem conter. Nomes são tão reais quanto bolhas de sabão. Entretanto, é como se não o víssemos, dada a quantidade de disputas em torno de nomenclaturas.

Funções sociais são presas da cultura. Tendo a consistência do tempo, não possuem valor por si mesmas. Dependentes de condições, têm a textura da invenção. Mesmo assim, é como se não o víssemos, dado ao valor que atribuímos a hierarquias e especialidades.

Nomes e funções tornaram-se nossos cartões de visita. Apresentados em uma roda de desconhecidos usaremos nome e função social como protocolo de identificação. Queremos nos segurar do reconhecimento, do status e da validação.

Ao nos parear por nomes, títulos e funções, passamos a habitar um espaço imaginário, cujo tecido é a mesmo da fantasia. Porque nos escapa por entre os dedos, sua fugidia natureza precisa ser camuflada em coisa.

Coisas parecem existir por si mesmas. Comungam da aparência da independência, como se estivessem lá fora no mundo, ao longe, destacadas por separadas e ausentes de nós. Tratamo-nos como coisas, ou seja, como frações do que somos de fato.

Sobre o que de fato somos debruçam-se os investigadores da realidade: xamãs, iogues, religiosos, filósofos, cientistas, artistas… E a fim de comunicar suas revelações e construções, normalmente expressam-se pela linguagem.

Campo do símbolo, a linguagem é espaço de manifestação das formas, no qual nomes e funções manifestam-se, sucedem-se e se dissolvem, natimortas como os impérios da rocha e do pensamento.

A raiz do manifesto é o não-manifesto. Contam-se na história as culturas perdidas, os nomes esquecidos e as funções superadas. Para onde foram? Não seria isso que chamamos morte um nome pra uma das facetas da interdependência?

Ao perder de vista a natureza transitória e relativa dos nomes e formas, reduzimo-nos a miseráveis estereótipos. Somos mais que mães, mais que pais, mais que filhos. Somos mães e pais e filhos e isto e aquilo e poeira estelar. E o avesso, “nem isto nem aquilo”.

Mais do que nossos conceitos, do que nossos nomes, mais do que nossas funções, do que nossas formas, mais do que “nós”… Contudo, temos a liberdade de nos enquadrar nessas caixas, na qual encontramos máscaras, que podemos vestir para atuar no palco imaginário do tempo.

Uma liberdade que não nega outra, a de perguntar: qual o rosto original por trás de cada máscara?

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5 comentários sobre “Baile de máscaras

  1. ser a máscara é transcender?
    ter consciência do truque desfaz a ilusão?
    viver é identificação?
    nem isso, nem aquilo… tudo ao mesmo tempo agora.
    sua escrita me comunica.

  2. Somos nada mais do que o outro quer que sejamos… Será?
    “Sou como você me vê.
    Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
    Depende de quando e como você me vê passar.”
    (C. Lispector)

  3. Iogues, Filósofos, xamãs são mais categorias que propusemos ao mundo de nossas máscaras e fantasias diárias!! Dentro de como nos comunicamos.
    O animal humano precisa e tem liberdade de se expressar em muitos significados na comunicação verbal, ou em nossos “trejeitos”, olhares, balançar das mãos… Embutido nesses movimentos também está quem somos nós, nossa história corporal e como nos envolvemos com as pessoas, antes de nossos nomes e funções.
    Quando ficamos presos e nosso ego se nutre do Venceslau, médico internacional? Zé, catador de lixo? Ou do ser que vive em si, desprendido de quem é?
    Boa reflexão sempre…
    “Embora nada seja verdade”, inclusive esta frase.
    Quem somos nós?
    AHO

  4. Não seria o rosto original
    a última das máscaras?

    Sendo então o tal rosto
    a própria origem da máscara
    e de todas as suas derivações?

    Então não seria então o oculto sob a máscara,
    mas o oculto sob o rosto.

    Rosto este que mascara e oculta
    tudo que há de original.

    🙂

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