Retornável?

Nossa ação quer retribuição? Estamos ajudando porque queremos simplesmente ajudar? Ou estamos anexando algumas expectativas de retorno para nossa (suposta) ajuda?

Sentimo-nos frustrados quando esperamos um reconhecimento que não vem? Nossa empatia pode transformar-se na sua versão oposta simplesmente porque o receptor de nossa atenção não corresponde ao que esperávamos dele?

Se estivermos agindo em busca de retribuição, talvez não possamos chamar isso de ação compassiva. Além disso, correremos sempre o risco de nos frustrar. Por outro lado, inspirados por uma benevolência espontânea e lúcida, por que nos ataríamos a resultados?

Sofremos bastante com as expectativas de retorno. Pensamos que as pessoas que ajudamos passam a ser nossos devedores. Nossos favores são computados como débitos daquelas pessoas para conosco.

Esse tipo de ação trai uma mentalidade empobrecida. Não ajudamos por ajudar, mas o fazemos porque poderemos precisar da ajuda daquele ser no futuro.  A isso podemos chamar de comércio de favores. Se esperarmos algo em troca, pelo menos poderíamos ser claros.

A ação compassiva é espontânea, e está mais focada no processo do que no resultado. O agente dessa ação reconhece que o resultado possui uma realidade além de seu controle. Portanto, foca-se na intenção e qualidade do processo.

A ação compassiva tem lastro na equanimidade. A sabedoria da equanimidade familiariza-se com uma dimensão comum, compartilhada por todos os seres. Está atenta, por exemplo, que todos os seres, aos seus modos, buscam ser felizes e afastar o sofrimento.

Todos os seres, diz a sabedoria da equanimidade, são compostos pelo mesmo estofo. Somos carbono. Somos todos sencientes, isto é, temos consciência de sentir. A ação compassiva manifesta-se como um efeito espontâneo desse reconhecimento.

Quando agimos esperando algo em troca, colocamo-nos em uma situação de superioridade em relação ao objeto de nossa benevolência. Mas a sabedoria da equanimidade reflete uma fundamental mutualidade entre os seres.

Sem equanimidade, nossa compaixão tem alvos certos. Alguns são dignos dela, enquanto outros não. Sem equanimidade nossa compaixão é um ideia, uma palavra, não um fato. Aquele genuinamente compassivo vê em todos – amigos, inimigos e desconhecidos – o seu reflexo.

Isso significa que a retribuição é imediata à ação compassiva. O próprio agir compassivo é a retribuição, já que não há fronteiras para aquele que compreende a equanimidade. Assim, doar é presentear-se, pois que não há doador, nem ação de doar ou sequer objeto de doação.

Portanto, como poderia haver qualquer retribuição para aquele que compreendeu a sabedoria da equanimidade?

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