Si mesm

Estamos condenados. Mas não há motivo para pânico: a condenação não é eterna. Se fosse, não haveria esperança. Nem a educação teria qualquer serventia. Porque há mudança, não há razão para temer.

Estamos condenados a ser o que somos no momento. Condenados a escrever o que escrevemos. Condenados a sentir o que sentimos. Condenados a ver o que vemos e a ser quem pensamos que somos.

Por isso dizemos “sou assim, ninguém vai me mudar”. “Nasci assim, vou morrer assim”, não é mesmo? Ideias como essas é que nos condenam. Somos nós mesmos a nos condenar, a nos prender, a nos asfixiar. Que sufoco!

Estamos condenados pelo imediato automatismo de nossas reações. Encarcerados por nossas aversões e apegos. Para muitos de nós a liberdade é como andar pelos corredores de uma prisão. Pensamos “fazer o que quero, na hora em que desejo é ser livre”.

Nosso espaço tem o tamanho de nossos eus. Eus pequenos, eus planetários. Eus. Eus que se sentem reais, independentes. Eus a quem devemos proteger. Estamos condenados a viver dentro dos limites de nossas noções de eu? Quem é você? Que cara você tinha antes de seus pais nascerem?

Fazemos o que fazemos e pensamos “somos livres”. Poderíamos falar de liberdade quando sequer podemos nos desprender de nossos impulsos? Pensamos “sou livre na medida em que sigo meus impulsos” – então, por que não estamos satisfeitos? Por que andamos ansiosos?

Estamos condenados por nossas visões. Nossas forças podem mesmo ser nossas fraquezas. Nossos poderes podem mesmo ser a raiz de nossa queda. E nosso conhecimento pode ser o mais belo e enganador dos cárceres.

Tingimos o mundo e reagiamos às cores como se fossem pinturas alheias. Vestimos a todos com nossas fantasias e nos frustramos quando a realidade rasga-se à nossa frente. Alimentamos expectativas e investimentos emocionais – tudo deveria sair como planejamos.

Cobramos dos outros aquilo que nunca nos prometeram. Ingênuos, exigimos deles aquilo que sequer pode ser dado e acreditamos que vão nos dar o que sequer existe. Julgamos a todos a partir de nossos próprios níveis. Mas desgostamos que nos retribuam na mesma moeda.

Estamos condenados por nossas visões, por nossos ângulos, por nossas crenças e ceticismos dogmáticos. Nossas ideias atuam como pesos, apesar de terem o estofo do sonho. Giramos em volta de nós mesmos, daquilo que pensamos ser nossos pensamentos, nossas emoções.

Estamos inclinados a desconstruir o mundo, mas nunca a nós mesmos. Falamos de amor, de amor incondicional, mas temos problemas em aceitar que discordem da gente. Iremos guerrear e matar em nome de nossos ideais.

Estamos mesmo condenados a ser o que somos agora: paródias de nós mesmos, ficções que se acreditam. Queremo-nos livres porque sabemo-nos presos.

Mas quem e o que nos prende de fato?

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Um comentário sobre “Si mesm

  1. Olá Breno!

    Sempre uma satisfação ler seus bons textos.
    Quanto ao conteúdo deste, gostei de fato.

    Como ‘libera-se’ desse ‘eu’ de agora?
    Haja sapiência….

    Abraço!

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