Entreaberto

via ale2000

“Antigamente, a Lei tinha um porteiro. Um homem aproxima-se e pede para entrar. Mas o porteiro lhe diz que, naquele momento, ele não pode. O homem pergunta se poderia entrar mais tarde. ‘Talvez, mas não agora’, diz o porteiro.

Como a porta para a Lei estava sempre aberta, e o porteiro não a obstruía, o homem olhava através dela. Vendo isso, o porteiro ri e diz: ‘Se está tão atraído, vá em frente e entre sem minha permissão. Mas deve saber que sou poderoso. E sou apenas o mais fraco. Em cada salão há um porteiro, mais poderoso do que o anterior. Mesmo eu cairia perante o terceiro’.

O homem não esperava tantas dificuldades. Acreditava que a Lei sempre fosse acessível a todos. Mas, ao ver o porteiro de perto em seu casaco de peles, com seu grande e afiado nariz e sua longa barba negra, ele decide aguardar a permissão para entrar.

O porteiro lhe dá um banco e o deixa sentar-se ao lado da porta. E lá ele fica… Dia após dia… Ano após ano. Durante todos aqueles anos, ele não tira os olhos do porteiro. Ele esquece os outros porteiros. O primeiro parece ser o único obstáculo entre ele e a Lei.

Durante os primeiros anos, ele amaldiçoa sua má sorte. Mas depois, quando fica velho, ele apenas resmunga. Torna-se infantil. E, tendo olhado tanto para o porteiro, pode até identificar as pulgas no colarinho de seu casaco. Ele implora às pulgas que o ajudem a convencer o porteiro. Mas, no final, sua visão está fraca. Ele não sabe se ao seu redor está ficando escuro ou se são seus olhos que o estão traindo. De repente, ele vislumbra, na escuridão, um brilho radiante que vem da porta da Lei.

Ele não viverá muito. Antes de morrer, todas as suas experiências acumuladas durante o período convergem para uma pergunta, que ele ainda não fizera ao porteiro. Como não pode mais erguer seu corpo, ele acena para o porteiro.

O porteiro precisa abaixar-se, pois a diferença de tamanho entre eles aumentou muito, para a desvantagem do homem. ‘O que você quer agora?’, perguntou o porteiro. ‘Você é insaciável’.

‘- A Lei é para todos os homens’, diz o homem, ‘mas por que, em todos esses anos nenhum outro homem pediu para passar por esta porta?’

O porteiro, vendo que o homem está no fim e mal pode ouvir, abaixa-se, para que ele ouça: ‘- Ninguém mais poderia passar por esta porta, pois ela está para você. Agora devo fechá-la'”.

O Sacerdote,
em O Processo
de David Hugh Jones

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