Flauta mágica

via Wikipedia Commons

Os Grimm contam sobre como a cidade de Hamelin foi invadida por ratos. Os moradores, desesperados para se livrar deles,  aceitam a ajuda de um flautista que afirma ser capaz de resolver a questão, e o faz: afogando os roedores no rio Weser, após hipnotizá-los com o som de sua flauta. A história não termina por aí, pois os ricos cidadãos recusam-se a quitar o pagamento acertado com o flautista, que deixa a cidade de bolsos vazios.

Algumas semanas depois, os adultos de Hamelin estão todos na igreja, quando o flautista retorna para cobrar a dívida. Tocando sua flauta, hipnotiza todas as crianças da cidade, levando-as embora para jamais voltar.

Histórias como a do flautista de Hamelin provocam pelo que está contido entrelinhas. O que está implícito na história depende do olhar do leitor e da consciência que o leitor tem de seu olhar. Isso implica uma atenção ao conteúdo e ao processo do olhar.

Ouvimos um homem. Ele está falando asneiras. Quando estamos atentos ao modo como tingimos o homem com o nosso olhar? Estamos conscientes de que o nosso olhar está condicionado por um estado de humor ou pela fome? Quando estamos cientes de que o homem falando asneiras é o resultado de nossas próprias tintas? Não o diminuiremos por força de nossa impressão?

Afogados no oceano de conteúdo, quando nos damos conta da lua a ter com as marés? Quando nos lembramos da química oceânica? Os oceanos não dependem do sol e não sofrem influência tectônica? Mergulhados no oceano de conteúdo, estamos atentos às correntes? Encantados pelo som da flauta, vemos o flautista?

O conteúdo e o processo andam juntos, não são duas entidades separadas.  O som da flauta, onde estaria, senão no olhar, adentrando o ouvido, através do tato e do paladar, em meio ao olfato? E qual credibilidade poderíamos dar a um olho que não enxerga o infra-vermelho e o ultra-violeta? Que fidelidade tem uma audição que não ouve todo o espectro sonoro?

Alguma credibilidade. Alguma fidelidade. Nosso olhar é o rei e o arquiteto do mundo. Seria esse olhar imutável? Seria o mesmo de quando tínhamos sete anos? Seria esse olhar autônomo? Seria o mesmo sem as influências locais? “No momento”, diz William James, “a realidade é aquilo a que prestamos atenção”.

Estamos atentos a natureza de nosso olhar? Estamos atentos ao impacto da atenção sobre o modo como conhecemos e construímos o mundo? Estamos alertas ao homem falando asneira como uma projeção nossa, e não como uma verdade absoluta a qual reagimos com aversão ou indiferença? Alguma vez chegamos a calçar os sapatos daquele homem?

Ratos, adultos e crianças de Hamelin! Atenção, atenção, atenção!

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6 comentários sobre “Flauta mágica

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