Em cartaz

Há pessoas inusitadas por aí. Anormais, não estão fugindo do sofrimento. Reconhecendo uma certa insatisfação cotidiana, penetrante e multiforme, postam-se defronte dela e investigam sua causa e sua natureza, ao invés de buscar distrações e esquecê-la.

Descobrem em si essa insatisfação. Notam que se manifesta em suas relações com pessoas, objetos, durante suas atividades. Atentam para as emoções que surgem dependentes desse ânimo, e percebem que suas vidas não são suas, pois são levadas pelos ventos de um desejo que, como água salgada, dá mais sede quanto mais dela bebem.

Então, por rara graça, lembram-se de seus amigos, parentes, do porteiro do apartamento onde vivem, e observam que também eles vagam insatisfeitos e convivem com toda sorte de emoções perturbadoras, tomados pela angústia e pelo medo da perda e se atritando por vagas de estacionamento e ideias.

Tomadas por um profundo desconforto, dão-se conta de que não sabem o que fazer para ajudar a si e aos que estão próximos. Porém, ao contrário do normal, nasce em seus corações um questionamento deveras impetuoso: Qual a causa disso tudo? Tem fim essa insatisfação?

Com essas perguntas, colocam-se defronte dos próprios nervos e, sem virar os olhos para distrações e justificativas racionalizadoras, penetram aguda e profundamente a insatisfação que lhes encara de olhos arregalados. Vão em busca da raiz. Fazem isso por si e pelos que amam, pois tornou-se-lhes insuportável a ignorância e o conformismo.

Continuarão seus esforços até discernir a verdade sobre a insatisfação e o sofrimento, e conferir por elas mesmas se é possível cessá-los. E finalmente atingindo o resultado de sua apaixonada busca, têm ainda a lembrança dos demais seres que como elas padecem insatisfeitos, drenados e doloridos. E tendo-nos todos em mentecoração, firmam a decisão de permanecer entre nós, até que possamos desfrutar do fruto que conquistaram na tremenda aventura de atingir a raiz.

Então, quando seus parentes e amigos, adversários e desconhecidos estiverem  espontaneamente contentes e livres, elas – que miraram e dominaram a aparência do sofrimento -, descansarão ao lado deles todos.

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