Liberdade?

Desenhando-se, de M. C. Escher.

Talvez pensemos que sabemos o que é a liberdade. Daí dizemos que somos livres disso ou para aquilo. “Sou livre para fazer o que quiser” ou “Sou livre para dizer o que penso” são afirmações que podem acompanhar nossos entendimentos sobre a liberdade. Essas são frases focadas no sujeito. Notamos que nossas ideias sobre a liberdade podem estar tingidas pelo valor do individualismo absoluto.

Podemos realmente dizer que estamos agindo livremente quando nossa ação é condicionada por um impulso do qual estamos inconscientes? Realmente podemos afirmar que estamos livres para fazer o que queremos quando nosso agir é condicionado pelo medo? Podemos encontrar algumas perspectivas para essas perguntas examinando nossas experiências cotidianas?

Ouvimos e frequentemente pronunciamos frases feitas acerca daquilo que pouco compreendemos. “Liberdade, cada um tem a sua” é uma dessas frases, mas ela é vítima de si mesma. Se cada um tem a sua liberdade é possível formular a opinião contrária – a de que cada um não tem a sua liberdade. No fundo, qual é nossa intenção ao emitir tais pareceres? Estamos buscando aprofundar nosso entendimento? Estamos nos guardando em nossas zonas de conforto? Em suma, contemplamos por nós mesmos a liberdade ou estamos a repetir o que escutamos alhures?

Talvez não saibamos o que seja a liberdade. Talvez tenhamos apenas vislumbres da liberdade. Quando nossas ações são condicionadas por reflexos acríticos, podemos falar em ação livre? Quando nossos pensamentos são condicionados por memórias e sensações, podemos falar em mente livre? Se fôssemos livres estaríamos falando sobre a liberdade? Podemos pensar que sim, que falar sobre a liberdade é estar livre para falar sobre ela. Mas podemos pensar que não, que falar sobre algo é apenas a ponta do iceberg, isto é, que existe uma dimensão mais profunda condicionando nossa expressão.

Sim ou não? Talvez a liberdade passe por ambos, sim e não. Há liberdade sem responsabilidade? Podemos falar de liberdade sem nos referir implícita ou explicitamente a ausência de liberdade? Estariam nossos conceitos de liberdade estereotipados? Realmente queremos saber? Talvez não queiramos ser livres. Talvez queiramos ser conduzidos, como em uma manada. Talvez esse sentimento algo velado dê significado a nossa vontade de messias. Um salvador para nos libertar é uma construção fácil, na medida em que sugere que somos incapazes. Todavia somos?

A questão da liberdade é alvo de filósofos, físicos, místicos, religiosos, artistas… Mas ela tem a ver com os demais, comigo e com você? Queremos protagonizar a liberdade? Nesse caso, teremos que começar a andar por nós mesmos, desafiando a ideia de que somos incapazes, desafiando lugares comuns. Deveremos reconhecer a liberdade e a ausência de liberdade em nossas próprias experiências. Talvez vejamos que nossas próprias existências não estão dissociadas da vivência dos demais, assim como as águas correntes de um rio não estão dissociadas do sol.

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